Windows 10

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Em 2012, a Microsoft estava numa encruzilhada. Redmond dominava o mundo da computação pessoal há décadas, mas esse mundo estava se expandindo além das fronteiras desse império.  A Apple já tinha lançado três versões progressivamente populares de seu tablet, o Google caminhava para amadurecimento e expansão do Android com o Ice Cream Sandwich e toda uma revolução silenciosa estava prestes a explodir com o Raspberry Pi.

Técnica e dinheiro geralmente bastam para manter o controle sobre um mercado, mas guiar o futuro exige mais – exige um sonho. Esse sonho, hoje sabemos bem, era a ideia de unificar a Microsoft e levar seus produtos para todas as formas de computação pessoal. O movimento começou ainda na era Ballmer, envolveu reestruturações corporativas (que deram fim a divisões como a “Microsoft Business Division”), aquisições volumosas (a Nokia é o exemplo mais óbvio) e grandes desafios técnicos (como a unificação de vários sistemas diferentes sob um único kernel).

Contudo, a face mais visível das grandes transformações pelas quais a Microsoft passou nos últimos anos foi o Windows 8. Em concerto com a estratégia de Redmond, o Windows 8 seria uma espécie de vanguarda para invadir o nascente mercado mobile. Por baixo do pano, suas inovações técnicas eram uma resposta clara a sistemas como o Android e o iOS: sandboxing de aplicativos, administração agressiva de energia, tempo de boot reduzido, mais eficiência no uso de memória e CPU, etc.

Mas se as entranhas do sistema agradavam, a Microsoft exagerou na roupagem do mesmo. Além de oferecer os recursos típicos de SO mobile, também era preciso garantir que ele poderia ser usado em tablets e desktops. Em retrospecto, a solução da Microsoft foi um tanto simplista: todos os PCs usariam a mesma interface. Assim, um usuário que se acostumasse com o desktop não teria problemas na hora de comprar um tablet Windows, certo? Errado. A mudança radical na interface causou uma confusão generalizada no público comum. Ironicamente, o Windows 8 acabou em uma posição oposta mas similarmente precária à do Windows Vista: ele era um sucesso técnico, mas um fracasso de interface.

Em retrospecto, portanto, o formato que o Windows 10 assumiu é quase uma necessidade histórica. Nele, a Microsoft dá alguns passos para trás na interface para dar continuidade à proposta universalista do Windows 8.

Um retorno às origens

A ausência do menu iniciar não era um problema do Windows 8. Na verdade, ele ainda estava lá, mas sob a forma da página inicial da Modern UI. Ambos desempenhavam a mesma função de servir como um acesso rápido à busca do sistema e como atalho para programas e locais frequentemente utilizados. A Modern UI foi desenhada justamente para expandir essas duas funções, integrando a busca à Internet e à loja de aplicativos do Windows ao mesmo tempo em que oferecia uma interação mais imediata com os programas na forma dos Live Tiles.

O problema real decorria do fato de que esse novo menu iniciar havia sido divorciado de seu contexto – a área de trabalho. Desktop e Modern UI eram dois mundos que raramente interagiam: eles executavam aplicativos diferentes (apps criados com o WinRT rodavam sobre a Modern UI e apps Win32 sobre o desktop), tinham interfaces que seguiam lógicas diferentes (janelas clássicas no desktop e subdivisões fixas chamadas de “snap”  na Modern UI) e ofereciam opções diferentes de configuração. Se o Windows 8 fosse uma pessoa, ele provavelmente seria diagnosticado com um transtorno dissociativo de identidade.

Para retificar essa situação, o Windows 10 encapsula a Modern UI na aparência familiar do menu iniciar do Windows 7 e formata todos os programas, inclusive os apps da antiga Modern UI, sob a mesma estrutura de janelas. Aperte o botão Home no Windows 10 e você invocará uma barra familiar com os programas mais utilizados ao lado de uma versão miniatura da Modern UI. Clique em um aplicativo e ele abrirá em uma janela que pode ser redimensionada livremente para não ocultar todo o desktop. Algumas idiossincrasias da linguagem visual do Aero (Windows 7 e Vista) também retornaram, como se pode notar pelo amplo uso de transparências.

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Naturalmente, a experiência do Windows 8 não foi em vão e muitos de seus elementos continuam presentes. O tema dos ícones, com seu design flat, é a evidência mais clara desse fato, mas também existem ajustes sutis, como a discrição das barras de rolagem, que desaparecem depois de alguns instantes. Embora a ênfase dada à tipografia no Windows 8 tenha arrefecido, recursos relacionados a fontes introduzidos no Windows 8 e 8.1 permanecem. Por exemplo, o sistema é capaz de identificar a densidade de pixels por monitor individual, o que permite o ajuste automático de fonte quando o PC está ligado a telas de DPI diferentes. Crucialmente, a Modern UI completa continua existindo: a diferença é que ela pode ser ativada e desativada pelo usuário. Naturalmente, se o Windows identificar que o computador está sendo usado como tablet, ele pode ativar a Modern UI completa automaticamente.

Multitasking

Mas o que há de efetivamente novo? Com o Windows 10 a Microsoft tomou a posição pragmática de esquecer o isolacionismo e se deixar inspirar livremente por ideias de outros sistemas. O Mac OS X Yosemite e o próprio Windows Phone parecem ter sido fontes particularmente férteis. O novo sistema introduz uma barra lateral chamada Central de Ações que mistura as configurações rápidas (brilho, rede, etc.) do Charm do Windows 8 com as notificações do sistema da Apple. Mas o Windows 10 vai além de ambos ao usar esse espaço para orientar o usuário. Ele pode, por exemplo, avisar se existem muitos aplicativos sendo iniciados em segundo plano junto com o sistema para que o usuário possa cortar processos desnecessários.

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Além do Mac OS X, o GNOME também foi uma inspiração, desta vez para os recursos de multitarefa. Desktops virtuais finalmente encontraram espaço no Windows e a Microsoft ainda adicionou um tempero extra a essa receita com atalhos e visualizações diferenciadas. A barra inferior só exibe os programas abertos na área de trabalho atual. Similarmente, o ALT+TAB só alterna entre apps que estiverem rodando no desktop que está sendo visualizado em um dado momento. Isso pode ser alterado para que todos os programas estejam à vista a partir de todas as áreas de trabalho, mas é uma adição interessante do ponto de vista organizacional. Só faltou uma maneira de associar programas específicos a áreas de trabalho específicas.

Nesse mesmo tema do multitasking, a Microsoft ampliou o controle do usuário sobre a organização rápida de janelas. Nas versões anteriores, existiam duas áreas pré-definidas para as janelas: uma ocupava a tela inteira e a outra apenas metade. Agora, contudo, a tela é dividida em quatro, de modo que o usuário pode arrastar uma janela para um dos cantos para que ela automaticamente passe a ocupar 1/4 da tela. Mais do que isso, o sistema é consciente do número de janelas na área de trabalho. Se três delas estão abertas e o usuário arrasta uma delas para o meio de uma das laterais, o Windows se oferece para redimensionar as outras duas nos cantos opostos.

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Transparência e personalização

Se fosse preciso elencar os erros do Windows 8, a já citada cisão entre os ambientes de trabalho seria o primeiro. O segundo seria a apresentação esotérica de algumas funções básicas do sistema. Partindo de uma linguagem de design que prioriza o elemento que estiver em primeiro plano, o Windows 8 ocultava, por exemplo, o botão de desligar e até o botão iniciar. O Windows 8.1 amenizou esse problema restaurando o ícone do Windows no canto inferior esquerdo, mas a interface ainda era amplamente dependente de hot corners e gestos.

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A intenção era nobre. Afinal, essa abordagem diminui a densidade de informação na tela e oferece uma oportunidade maior para o usuário se concentrar em uma dada tarefa. No entanto, a posição de líder absoluto de seu mercado impede que o Windows atenda apenas as necessidades de um grupo de pessoas acostumadas a interfaces virtuais. A mudança foi radical demais e a Microsoft falhou em sua missão de comunicá-la. Inicialmente, o Windows 8 sequer oferecia uma instrução de uso integrada. Pouco tempo depois cada nova instalação seria pontuada por um breve tutorial em vídeo, mas mesmo esse movimento não passou de um paliativo.

Para vencer o estigma do Windows 8, o Windows 10 adotou um layout bem mais convencional e explícito. Por exemplo, faz tempo que o menu Iniciar inclui uma função de busca, mas no Windows 10 ela ganha uma representação visual óbvia antes mesmo que o usuário clique no botão Windows. Similarmente, a nova Central de Ações ganhou um ícone que é impossível de ignorar. Essa temática se repete pelo SO inteiro, de modo que tudo é mais fácil de ser encontrado e a posição dos elementos da interface parece mais natural.

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Quem prefere trabalhar com atalhos continua sendo contemplado, é claro. Se a transparência é um tema do Windows 10, a personalização é outro. Basta olhar para o número de categorias representadas no menu de configurações para se ter uma ideia do grau de customização oferecido pelo sistema.

Tome a barra de notificações, por exemplo. Nela, é possível escolher atalhos para quatro de um total de doze ações rápidas que incluem, entre outros, o controle sobre o Wi-Fi, a conexão com aparelhos Bluetooth e a ativação do modo de economia de bateria. As notificações em si podem ser ativadas ou desativadas para cada aplicativo compatível. Até as dicas de uso do sistema que citei acima podem ser reguladas.

É possível escolher entre iniciar o PC em modo tablet ou em modo desktop, adicionar, remover ou agrupar atalhos do menu iniciar, alterar as cores do sistema… Enfim, o Windows 10 é um sistema mais aberto e direto que seu antecessor.

Desempenho e gráficos

Vamos tirar isso logo do caminho: o Windows 10 apresenta o mesmo nível de performance geral que o Windows 8 até onde pudemos averiguar. Em todos os benchmarks que rodamos, as diferenças entre os resultados com o Windows 8 e com o Windows 10 foram marginais como se pode ver abaixo. Para referência, usamos um Lenovo X1 Carbon durante os testes. Eles estava equipado com um SSD de 512 GB, 8 GB de RAM e um processador Intel Core i7 4600U. Os testes refletem o desempenho da máquina com o Windows 8 e com o Windwos 10.

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Naturalmente, o Windows 10 é mais do que o Windows 8 com um menu Iniciar. Em termos de desempenho, o maior triunfo do novo sistema ainda está por vir com a chegada de aplicativos com suporte à API gráfica DirectX 12. Essa nova versão do DirectX é exclusiva do Windows 10 e ela por si só já torna o upgrade de sistema interessante para gamers.

Como sabemos desde a GDC de 2014, o principal foco do DirectX 12 é a programação de baixo nível. Em outras palavras, ele dá acesso a funções específicas de cada GPU sem a camada de abstração que normalmente é necessária ao programar para vários sistemas diferentes, produzindo um código mais leve e focado. Outra vantagem é o uso mais eficiente de múltiplos núcleos de processamento, algo que um número extraordinariamente baixo de jogos faz. Essas duas características potencialmente se traduzem em um ganho significativo de desempenho em jogos ou qualquer outro app de renderização gráfica que utilize essa API.

Além de favorecer a programação de baixo nível, o DirectX 12 também oferece uma série de recursos novos, incluindo controle sobre a order de rasterização, o acesso simultâneo a certos segmentos de memório por múltiplos threads e métodos mais eficientes de alocação de texturas. O ponto é que a nova API introduz uma longa lista de benefícios para qualquer pessoa que se importe com gráficos.

Por enquanto, ainda é difícil ilustrar o grau de aceleração que o DirectX 12 proporciona no mundo real, mas a Futuremark já criou um benchmark comparando DirectX 11, Mantle e DirectX 12 para expor quanto cada API onera a GPU do sistema testado. Abaixo você confere nossos resultados. É importante entender que esses números não são exatamente uma pontuação. Basicamente, quando um jogo está rodando no computador, a CPU faz uma série de pedidos para que a GPU desenhe a cena do game, esses pedidos são os “draw calls”. Quanto mais leve for a API, mais “draw calls” por segundo podem ser enviados pela CPU.

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É claro que isso tudo só vai valer na prática quando desenvolvedores começarem a lançar games e outros apps dentro do escopo do DirectX 12. De qualquer maneira, se depender da Microsoft, a transição será relativamente rápida. A maior evidência disso é que o DirectX 12 (como o DirectX 11) é uma API multigeracional, o que significa que desenvolvedores podem usá-la para criar games para várias gerações de placas com o mesmo código – basta especificar que recursos podem ser usado por que tipo de hardware. Portanto, não há porque não utilizá-lo.

Algo a se notar, contudo, é que essa estrutura de “feature levels” pode causar alguma confusão entre os consumidores. Embora tanto a AMD quanto a Nvidia (e a Intel) tenham anunciado que várias de suas GPUs antigas suportariam o DirectX 12, isso não quer dizer que todas essas placas suportam o mesmo “feature level”. Obviamente, a última geração de placas dos dois fabricantes suporta o “feature level” mais recente, 12_1. Ainda assim vale notar as limitações das arquiteturas mais antigas: placas da AMD baseada na GCN 1.0 e placas da Nvidia baseadas na arquitetura Kepler suportam o “feature level” 11_1, e o mesmo vale para as GPUs integradas dos chips Haswell e Broadwell da Intel. O “feature level” 12_0, por sua vez, é compatível com as placas baseadas na GCN 1.1 e na primeira geração de placas Maxwell.

Destrinchar exatamente o que cada “feature level” proporciona foge do escopo desta resenha e, de uma forma ou de outra, alternativas a alguns desses recursos já haviam sido implementadas pelos fabricantes de GPU sob outra forma. A Nvidia, por exemplo, sempre gosta de lembrar que as placas Fermi ofereciam muitas das novidades do DirectX 11.1 ainda em 2010. O ponto aqui é demonstrar que um consumidor que deseja fazer o upgrade para o Windows  10 por causa do DirectX 12 deve tomar cuidado para garantir que sua placa suporta o “feature level” desejado.

Compressão

O Windows 10 será vendido em DVDs e pendrives; ele rodará sobre o hardware de um poderoso desktop ou de um modesto tablet. Consequentemente, espaço era uma preocupação central durante seu desenvolvimento. Para permitir que o Sistema coubesse em tantos tipos diferentes de PC, a Microsoft usa duas técnicas.

Assim como os vários tipos de armazenamento por memória flash atuais sofrem com escassez de espaço, anos atrás, os HDDs também não eram particularmente volumosos. Portanto, faz muito tempo que o NTFS possibilita a compressão de arquivos individuais de sistema em troca da imposição de um peso maior sobre o processador quando esses arquivos são lidos. No entanto, essa habilidade se tornou menos importante conforme o tamanho dos discos aumentava.

Com o Windows 10, a compressão volta a ganhar um papel central no momento da instalação. O sistema avalia as capacidades de processamento do PC e determina se ele é rápido o bastante para permitir uma compressão mais agressiva. Além de arquivos do sistema (o que inclui arquivos de hibernação, updates do Windows, e arquivos WIM), Apps universais também são elegíveis para a compressão. Como mencionado acima, isso varia de acordo com o hardware, mas a própria Microsoft acredita que 1,5 GB e 2,6 GB podem ser economizados em sistemas 32-bit e 64-bit, respectivamente. Isso vale para todas as versões do Windows 10, incluindo o Windows Phone.

O segundo método de economia é mais radical e só vale para algumas máquinas: a eliminação da imagem de recuperação. Agora, os arquivos de recuperação do sistema são, simplesmente, os próprios arquivos do sistema. O Windows 10 reconhece quais arquivos lhe pertencem. Logo, ele se limita apagar tudo que não se encaixa nessa categoria quando um reset de fábrica é aplicado. Como algo similar já acontece no Windows Phone, esse método não vale para os celulares.

De qualquer maneira, a eliminação da partição de recuperação não apenas economiza muito espaço (pelo menos 4 GB) como torna o reset de fábrica bem mais ágil. Ela também acaba com um problema de segurança, pois todos os patches necessários já estariam aplicados. O problema é que esse método também torna a recuperação mais difícil na hipótese de um arquivo de sistema ter sido infectado por malware ou comprometido por um usuário inexperiente.

Segurança

Falando em segurança, o Windows 10 continua os esforços do Windows 8 nessa área. O leitor deve se lembrar quando comentei que os apps baseados em Win32 tinham se aproximado dos apps baseados em WinRT em visual, mas a semelhança entre os dois se tornará mais profunda no futuro. Graças ao Project Centennial, apps Win32 poderão ser encapsulados em um formato que permite sua distribuição pela Windows Store. Esse desenvolvimento tem duas consequências importantes. A primeira é que ele garante que o app se manterá atualizado independentemente das ações do usuário. A segunda é que esse app rodará dentro de uma sandbox isolada do resto do sistema.

É importante notar que esse projeto ainda não está finalizado e que a Microsoft não lançou a ferramenta de conversão para os apps Win32. Também é preciso deixar claro que nem todo app poderá funcionar sob esse modelo – eles seriam impedidos de usar privilégios de administrador, por exemplo. Ainda assim, no mínimo, esse movimento pode convencer alguns desenvolvedores a adotar o novo framework WinRT eventualmente. Como sempre, o sucesso da Microsoft é simultaneamente seu maior obstáculo: com 50% do mercado nas mãos do Windows 7 e uma parcela dos PCs ainda insistindo no Windows XP, o Windows 10 precisa fazer o possível para se tornar atraente para os desenvolvedores focados nesses sistemas.

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Outros recursos de segurança mais diretos incluem o Device Guard para a versão Enterprise do Windows. Trata-se de uma evolução de políticas de segurança já presentes em sistemas anteriores, que impedem aplicativos desconhecidos de agir independentemente. A novidade aqui é que esse sistema se baseia em uma estrutura de hypervisor. Ele é opera isolado do kernel, de modo que ele continua funcionando mesmo que o sistema operacional em si tenha sido comprometido.

Mas para o usuário comum, a grande novidade está em dois elementos interligados: o Windows Hello e o Passport. O Windows Hello é uma alternativa biométrica às senhas alfanuméricas. Até aí, nada de novo – o próprio Windows suporta biometria há muito tempo. A novidade é que o sistema pode usar vários métodos de biometria, incluindo impressões digitais e reconhecimento facial. Como de praxe, esses dados são armazenados localmente em um esquema de virtualização similar ao do Device Guard.

Claro, o Hello também só funciona com máquinas que tenham o hardware compatível, e não basta uma câmera convencional de notebook. Nossa máquina de teste tinha um leitor de impressões digitais e o processo de cadastramento foi simples e rápido. Por sua vez, o Passport utiliza as credenciais do Hello para entrar em aplicativos e sites na internet. Isso não é nada particularmente novo (vários apps de Windows já desempenhavam essa função), mas o fato de que esse recurso está integrado ao sistema o torna mais consistente e acessível para iniciantes.

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Por fim, algo digno de nota é a nova política de da Microsoft em relação ao Secure Boot. Secure Boot é uma tecnologia da especificação UEFI que verifica a legitimidade de um boot loader através de uma chave criptográfica contida em uma database do firmware da máquina. Ele impede que programas maliciosos sejam executados durante o processo de inicialização do sistema. O problema é que sistemas operacionais alternativos nem sempre possuem a tal chave.

Máquinas com o selo  “Design for Windows” (como costuma ser o caso notebooks e outros PCs mais fechados) precisam habilitar o Secure Boot, o que no mínimo dificulta a instalação de outro sistema. Essa exigência foi introduzida com o Windows 8, mas na época a Microsoft também exigia que o OEM responsável pela implementação adicionasse uma interface para que usuários pudessem desligar o recurso manualmente. O que muda com o Windows 10 é que a interface não é mais exigida, o que abre caminho para que OEMs tornem o Secure Boot inacessível.

Isso não elimina completamente a possibilidade de instalar uma distribuição do Linux, por exemplo, porque há negociações para que ele receba as chaves pertinentes. também é possível que a maioria dos OEMs mantenha a interface de controle. No entanto, isso é algo que um consumidor em potencial deve considerar na hora de comprar uma nova máquina.

Aplicativos

Edge

Como a Cortana ainda não fala português, o novo navegador Edge é de longe a maior novidade do Windows 10 em termos de aplicativos. Como usuário frequente do Chrome, do Firefox e do Safari, a primeira característica do Edge que me saltou aos olhos foi a velocidade. Subjetivamente, os elementos de interface e animações me parecem mais fluídos do que em outros browsers. Comparado ao IE11, o Edge simplesmente está em outro patamar de desempenho.

Apesar dessa impressão inicial, os benchmarks revelam que a disputa entre os browsers mais populares é mais acirrada do que pode parecer a olho nu. Confira os benchmarks abaixo.

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Uma característica curiosa revelada durante nossos teste é que o Edge não suporta os formatos WebM e Theora (como não poderia deixar de ser, h.264 é suportado). A falta de suporte ao Theora é compreensiva, mas o WebM atualmente é muito mais do que um formato de vídeo de nicho. Sites grandes como 4chan e Reddit já o suportam e ele tem se tornado cada vez mais comum. A falta de suporte no Edge foi o que fez sua pontuação cair tanto no Peacekeeper. Em contraste, a renderização de Flash e de PDFs é integrada ao próprio browser, dispensando a necessidade de plugins.

Boa parte da razão por trás da velocidade do novo navegador é que ele se livrou do extenso legado do IE. Quem precisa do IE para alguma aplicação específica não precisa se preocupar porque ele permanece como um app completo nas versões Pro e Enterprise do Windows 10. Pelo menos por enquanto, a Microsoft parece estar comprometida a apoiar padrões abertos com Edge, o que significa que vários recursos idiossincráticos do IE (ActiveX, VBScript, filtros de DirectX, etc) desapareceram.

Como deixei implícito acima, o Edge também não oferece plugins ou extensões, pelo menos por enquanto. No futuro, o browser passará a aceitar extensões criadas com HTML e JavaScript, primeiro na versão de desktop e posteriormente no Windows Phone.

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Curiosamente, esse comprometimento com padrões abertos não fez a Microsoft mudar de ideia quanto ao modelo de licenciamento de seus browsers. Tanto o Edge quanto o IE são proprietários em um mercado onde até a Apple preferiu a rota do código aberto (o Safari usa uma casca proprietária, mas sua engine WebKit é aberta). Faz tempo que o Google e outras empresas aprenderam que o desenvolvimento web é melhor quando se faz em público, porque a própria web é um grande experimento público. Uma empresa tão vasta quanto a Microsoft pode muito bem se dar ao luxo de insistir em soluções proprietárias, mas é difícil imaginar uma razão para fazê-lo no contexto atual.

De qualquer forma, o Edge em seu estado atual é um navegador bem simples e fácil de usar. Na barra superior existem seis opções além dos comandos de navegação: um botão para ativar o modo de leitura; um atalho para favoritar a página atual; um menu que contém a barra de favoritos, o histórico e os downloads; uma ferramenta de captura de tela; uma atalho de compartilhamento de links; e um último menu que contém as configurações, ao modo de navegação anônima e outras opções gerais.

Quando uma aba é aberta, o Edge exibe oito “sites principais”. Embora seja possível removê-los individualmente, novos sites só aparecem nessa barra se forem acessados com frequência. Embaixo dos “sites principais”, o Edge por padrão exibe notícias do MSN, mas também é possível deixar novas abas completamente vazias.

Meu recurso favorito do Edge é, na verdade, algo bem simples: a possibilidade de alternar entre um tema claro e escuro que muda o aspecto da interface. Se o usuário desejar, essa mudança também pode valer para o modo de leitura (que reorganiza o conteúdo das páginas em um layout mais simples). Aliás, no modo de leitura existem quatro níveis de contraste entre fundo e letras, além de quatro tamanhos de fonte.

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Outro recurso bem interessante é o de captura de tela. Nele, é possível desenhar em 12 cores, marcar texto em seis tons, digitar texto e copiar partes da página para o clipboard. Tudo isso vale para a página inteira, mesmo que ela seja muito longa. O resultado pode ser compartilhado nas redes sociais, enviado por e-mail e salvo no OneNote ou em uma lista de leitura do próprio Edge.

Por fim, as ferramentas de desenvolvedor já estão bem avançadas. Ele oferece opções similares às do Chrome e até alguns dos atalhos de teclado são iguais aos do navegador do Google. Ele também inclui um monitor de desempenho de uso de memória com dados bem específicos. As mudanças na página podem ser testadas em um emulador que inclui todos os aparelhos da Microsoft e outros navegadores populares.

Cortana

Para usar a Cortana, é necessário determinar um local e um idioma compatível. Por enquanto, essa lista se resume a chinês, francês, alemão, italiano, espanhol e inglês (apenas EUA, Canadá, Reino Unido e Índia). Um bug nos preveniu de conversar com a assistente virtual mesmo depois de alteramos as configurações: era até possível interagir com a chave de ativação, mas ela levava a um loop que acabava desativando o recurso novamente.

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Segundo relatos de outros países, ela lida bem com linguagem natural e é rápida na resposta. A maior diferenças entre a versão mobile e a de desktop é que a segunda pode ser usada em qualquer sistema com um microfone, enquanto a primeira é limitada a alguns modelos específicos de celular. Basta dizer “Hey Cortana” e ela atenderá em qualquer contexto (o que também significa que o microfone deve ficar ativado).

A Cortana é justamente o recurso que mais diferencia o sistema de busca e sugestão do Windows em relação a outros SOs de desktop e é uma pena que ela ainda não funcione aqui no Brasil. De qualquer maneira, não enfrentei problemas com o restante da experiência. Ao ser utilizada, a busca do menu Iniciar exibe resultados locais, sugestões encontradas na loja de apps e se oferece para fazer uma busca online.

Prompt de comando

Com o Windows 10, o Prompt de comando recebe sua primeira grande atualização em anos. Em poucas palavras, esse update encaixa o velho terminal no contexto atual do Windows moderno.

Para a maioria dos usuários, a mudança mais visível é o acesso ao clipboard e a possibilidade de usar os atalhos CTRL+C e CTRL+V para “copiar” e “colar”, mas há mais novidades. Essa novidade se torna ainda mais interessante graças às novas formas de selecionar texto. Ao contrário da versão anterior do Prompt, as seleções seguem as linhas de texto em vez de formarem um bloco livre, e basta usar o mouse diretamente (não é mais necessário ativar o modo de marcação). Quando um texto de codificação não suportada é colado, o Prompt filtra os caracteres desconhecidos automaticamente.

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A nova versão do console (e do PowerShell) faz quebra automática de linha para manter todo o texto visível mesmo quando a janela é redimensionada. Os dois terminais são conscientes da resolução da tela e se adaptam de acordo sempre que uma fonte TrueType é selecionada. A opacidade da janela também pode ser controlada.

Os administradores de sistemas talvez se interessem em saber que as configurações do console agora são armazenadas em uma árvore de registro chamada HKCUConsole. Isso significa que é possível salvar qualquer alteração como um atalho que pode ser transferido de máquina para máquina com um pendrive, por exemplo. A adição do CTRL+C para “colar” também não deve preocupar quem usava esse atalho como um comando BREAK, pois essa função continua válida enquanto um app estiver rodando no console. O estado atual do console do Windows se compara muito bem com alternativas de outros sistemas.

Mídia

O Windows 10 também introduz novos reprodutores de mídia para imagens, vídeos e música. Como ponto em comum, os três se estruturam como uma espécie de hub reunindo mídia de várias fontes que o usuário pode adicionar manualmente. No caso do “Filmes e Programas de TV” e do “Groove Música”, também existe uma seção dedicada à loja do Windows, onde filmes e músicas são ofertados em um modelo similar ao do iTunes. Cada hub oferece um punhado de esquemas de organização de mídia, como, por exemplo, a divisão entre vídeos caseiros e filmes.

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O novo player de vídeo é bem simples, mas oferece mais recursos que o player padrão do Windows 8. Além dos controles típicos de multimídia, ele tem um atalho para fazer streaming do vídeo que está sendo reproduzido pela rede sem fio. Ele também oferece um modo rápido de alterar a proporção de imagem e de trocar as legendas e a trilha de áudio. O repertório de codecs e containers suportados aumentou, mas ele ainda não passa de um player básico que não se compara com a flexibilidade de um Media Player Classic. Similarmente, o player de áudio suporta codecs lossless como o FLAC, mas não vai muito além disso.

Dos três, o mais interessante do ponto de vista de funcionalidade é o visualizador de imagens. Tirando uma página da Apple, a Microsoft implementou um editor ao visualizar, uma inclusão que poupa muito tempo na hora de realizar edições simples. É possível recortar, endireitar, corrigir pequenos defeitos, aplicar seis filtros diferentes, alterar cor e brilho, etc. Em geral, esse visualizador é excelente, e até arquivos RAW podem ser editados nele. Sua única falha é que ele não sabe exibir informações de EXIF corretamente. Por exemplo, ele agrupa distância focal e abertura sob “foto”, mas não diz qual foi o tempo de exposição.

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Utilitários

Além dos grandes apps, a Microsoft remodelou muitos dos pequenos utilitários que povoam o sistema. O calendário, por exemplo, ganhou um visual novo (mas senti falta de uma integração com o app Calendário). A calculadora recebeu o mesmo tratamento ao mesmo tempo em que ganhou muitas funções novas, incluindo várias formas de conversão de medida. Até a ferramenta de captura foi comtemplada: há uma opção para atrasar o screenshot para capturar menus que desaparecem rápido.

Por sua vez, o explorador de arquivos quase não sofreu alterações funcionais. Há, entretanto, uma pequena novidade que pode ser bem útil: o botão Compartilhar que antes habitava a barra Charm. Agora é possível compartilhar arquivos (fotos, vídeos, etc.) diretamente do Explorer através de apps compatíveis como o Facebook e o Email.

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Por fim, o Windows 10 introduz um modo de economia de bateria que pode ser ativado manualmente ou automaticamente quando a carga do computador estiver baixa. Basicamente, ele limita o brilho da tela e impede que apps enviem ou recebam notificações por push (o usuário pode cria ruma lista de apps que ficariam isentos dessa sanção). Nos nossos testes, a duração da bateria aumentou em mais de 50%.

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Vale a pena?

Para responder rapidamente à questão do título: sim, muito. Talvez seja redundante dizer que o produto mais recente de uma empresa seja também o seu melhor, mas o Windows 10 realmente brilha entre seus pares. Se aceitarmos a opinião popular, ele cumpre o suposto ciclo de “Windows bom seguido de Windows ruim”, cuja invariabilidade quase dá vazão à suspeita de que os tropeços da Microsoft são deliberados e que os seus sistemas “ruins” não passam de um experimento para produzir algo melhor posteriormente.

Construído em cima da sólida base técnica do Windows 8 e exibindo uma evolução certeira da interface de sucesso do Windows 7, há pouco o que criticar no Windows 10 que não possa ser resolvido com um simples patch. Ele é mais seguro, mais intuitivo, mais atraente e, em alguns casos, até mais rápido que seus antecessores. Seu modelo de interface separada para tablets e PCs também tem tudo para dar certo pelo simples fato de que ele se baseia no reconhecimento do óbvio: aparelhos diferentes exigem interfaces diferentes, um único tamanho não serve para todos.

O entusiasmo gerado por projetos como o Centennial e o DirectX 12 também tem o potencial de resolver o nó Górdio que se tornou a questão da escassez de aplicativos baseados no WinRT. Afinal, com o Win32, o Windows é por larga margem a plataforma com mais apps. Esse fato, aliado ao ecossistema de hardware, pode tornar a vida dos competidores bem mais difícil no futuro com recursos como o streaming de jogos de Xbox para PC e a sincronia de aplicativos e configurações pessoais através de várias plataformas.

No entanto, vale notar que o método de distribuição do Windows mudou muito e isso pode levar a problemas no futuro. Antigamente, betas públicos eram intercalados por longos períodos de desenvolvimento fechado. O intervalo entre versões também diminuiu. Quem participou do programa de Insiders deve ter notado que as builds públicas frequentemente apresentavam problemas (eu mesmo identifiquei bugs que posteriormente foram corrigidos).

Ciclos de desenvolvimento mais curtos criam uma tendência de instabilidade que pode ser problemática na escala em que o Windows opera, com milhões de aparelhos diferentes. Portanto, talvez seja mais prudente esperar um pouco antes de fazer o upgrade.

Deixando de lado essa questão, o upgrade é altamente recomendado. A única questão é encontrar a versão ideal para o seu perfil de uso. Existem quatro edições do Windows 10: Home, Pro, Enterprise e Education.   

Destas quatro, as duas últimas só interessam para usuários corporativos que compram em grande volume. Funcionalmente, elas são muito parecidas – a única diferença é que clientes Enterprise podem optar por um politica de updates mais ponderada, que se adequa ao ritmo de desenvolvimento da empresa.

Para a maioria das pessoas, a escolha na verdade é entre a edição Pro e a Home. Ainda assim, não se trata de uma decisão particularmente difícil. A Home pode ter menos recursos que a outras, mas esses recursos raramente são utilizados por usuários comuns. A versão Pro é como uma Enterprise para pequenos negócios. Só vai se beneficiar dela quem por algum motivo precisa de serviços como o acesso remoto a desktops, a criptografia de drives Bitlocker ou o sistema de organização hierárquica de contas Active Directory.

Ficha técnica

Avaliação técnica

Prós Interface renovada valoriza o desktop sem deixar para trás as partes boas do Windows 8; Excelente desempenho; Uma nova API gráfica;
Contras O ciclo de atualização mais curto pode se tornar problemático para alguns usuários; o novo navegador insiste em usar código fechado apesar da aderência a padrões abertos de layout;
Conclusão O Windows 10 é bom o bastante para vencer o estigma do Windows 8, o upgrade é altamente recomendado
Ecossistema 10
Suporte 9,3
Interface 9
Desempenho 9
Média 9.1
Preço R$ 330