Tablets e e-books, uma relação complicada?

De acordo com a revista norte-americana Forbes, as vendas de e-books possuem uma relação inversa às vendas de tablets

São Paulo – Nos Estados Unidos, um em cada cinco leitores de e-books utiliza um Kindle Fire para leitura e quase o mesmo número confia em seus iPads. Mesmo com números interessantes para os tablets, a pesquisa também aponta uma tendência preocupante: os usuários de tablets estão lendo menos.

De acordo com a revista norte-americana Forbes, as vendas de e-books possuem uma relação inversa às vendas de tablets. Ou seja, os números mostram que quanto mais tablets são vendidos no mercado norte-americano, menos espaço é destinado aos e-books e e-readers. Conforme os tablets ganham a preferência dos consumidores no lugar dos tradicionais Kindle, Nook ou mesmo Positivo Alfa, os livros digitais passam a competir com aplicativos, e-mails, navegação na web e redes sociais.

Nos e-readers, que têm como função exclusiva a leitura, a disputa pela atenção do usuário ocorre com o mundo físico a seu redor. Nos tablets, a situação é muito diferente. Afinal, quem nunca perdeu a concentração por conta de um alerta do Twitter ou Gmail que atire o primeiro mouse.

No Brasil, a situação dos livros digitais é ainda mais complexa. Segundo dados da Fundação Pró-Livro, e-books fazem parte da rotina de 9,5 milhões de brasileiros. Comparado ao universo total de leitores, o número é tímido. De acordo com a pesquisa, 45% dos entrevistados nunca ouviu falar em e-books ou livros digitais. Mesmo assim, os números e o espelho no mercado norte-americano são suficientes para deixar as editoras preparadas. “Não há sentido para que os livros digitais não emplaquem no Brasil”, diz Susanna Florissi, diretora e coordenadora da área digital da Câmara Brasileira do Livro (CBL).

Para ela, os tablets não são vistos como inimigos, mas como facilitadores nesse processo. Isso se deve ao cenário completamente distinto em relação aos Estados Unidos, onde as tecnologias já são estabelecidas e os livros digitais têm boa penetração. Para Susanna, uma grande aposta para alavancar o mercado digital são os livros didáticos. “Já há conteúdos didáticos interativos com vídeos, exercícios para serem resolvidos e explicações em áudio. Nesse ponto, algumas editoras já estão prontas para oferecer livros que vão além do texto”.


Susanna completa que as editoras também estão prontas, na teoria, para oferecer seu conteúdo no formato PDF, mas o e-pub – tipo de arquivo lido por e-readers e tablets – ainda é um problema.

Além das reduções de custo óbvias, como logística, impressão e arte, os livros digitais em formato PDF podem atrair consumidores a um preço mais acessível. Nos tablets, com a adição de interatividade e conteúdo multimídia, o preço para o consumidor final deve ser ainda mais alto que as edições impressas. “Se o livro estiver em um formato interativo, o próprio consumidor perceberá o investimento feito e que ele nem sempre pode ser mais barato. Imagine que um vídeo ou áudio seja inserido, você precisa produzir e hospedar esse conteúdo em algum lugar”, explica Susanna.

Para Marcilio Pousada, diretor-presidente da Saraiva, os tablets não são um temido inimigo. “Com certeza a venda deste tipo de aparelho ajuda a desenvolver o mercado de livros digitais. Tanto que fomos pioneiros no Brasil em lançar um aplicativo para venda e leitura de e-books”, diz. Pousada destaca que, se fossem reunidas como uma única loja, as vendas de e-books colocariam o Saraiva Digital Reader na quadragésima nona colocação dentre toda a rede da Saraiva, que conta com 98 lojas físicas e a Saraiva.com.

A aposta do diretor é que o mercado se desenvolva com as vendas crescentes de tablets no país. Mas ressalta que é preciso ampliar o acervo de livros digitais e desenvolver softwares de leitura com qualidade. “Temos certeza que uma parte do que vendemos será digitalizado e acreditamos que todos os formatos irão conviver em harmonia no futuro. Tem espaço e mercado para todos os formatos”, completa Pousada.