Steve Jobs, o mais genioso dos gênios

As diversas facetas do empresário são exploradas na exposição "Steve Jobs – O visionário", que passa em 2017 por duas capitais no país

Steve Jobs era um gênio. Nos dois períodos em que ficou à frente da Apple, ajudou a revolucionar o mercado de computação pessoal e descobriu a fórmula mágica para fazer um consumidor se sentir mais especial ao comprar um produto. Steve Jobs era irresistível. Com uma boa dose de charme, fazia apresentações extremamente elaboradas parecerem simples aos olhos da plateia. Steve Jobs era persistente. Depois dos fracassos – não foram poucas as ocasiões em que a ousadia se transformou em prejuízo – sempre conseguiu se reerguer com manobras tão hábeis que ninguém mais se lembrava do tombo. Steve Jobs era antes de tudo… genioso. Bem genioso.

Para muita gente, foi justamente o jeito autoritário e intransigente do líder que garantiu que a Apple alcançasse o sucesso comercial estratosférico que atingiu, principalmente após o lançamento do iPhone em 2007. Ele era perfeccionista e fazia questão de ter ao seu lado somente os melhores entre os melhores profissionais. Mas não fazia muita coisa para estimular seus times ou capacitar funcionários – cada um precisava se virar se quisesse ser digno de um crachá da empresa. E mesmo os melhores não estavam isentos de serem publicamente repreendidos, graças às mudanças súbitas de humor.

As muitas facetas da história de Steve Jobs e da empresa que ele ergueu são tema de uma exposição que já passou pelo Rio de Janeiro e está em cartaz em São Paulo até 20 de agosto. Patrocinada pelo Bradesco, a mostra reúne histórias sobre o fundador da Apple e itens originais que ajudam a entender melhor as contradições e o temperamento do empresário.

Cartaz da exposição traz uma das fotos mais clássicas do empresário

Cartaz da exposição traz uma das fotos mais clássicas do empresário (Foto Original/Albert Watson/Divulgação)

As contradições

Segundo as biografias mais famosas – entre elas, Steve Jobs, o livro best-seller de Walter Isaacson (2011), e o filme Jobs (2013), versão romantizada estrelada por Ashton Kutcher –, o co-fundador da Apple era mesmo uma pessoa difícil de compreender. Até um pouco contraditória, na verdade. A busca pela espiritualidade, o contato com valores filosóficos místicos e o aparente desapego aos bens materiais parecem entrar em conflito com o hábito de centralizar o trabalho, dificultando a comunicação entre diferentes departamentos da empresa, e a busca implacável pela excelência visual de seus produtos.

No entanto, o que distingue Jobs de outros grandes CEOs de sua geração é justamente a maneira como ele se expressava por meio de extremos. “Ele era um artista apaixonado, mas também podia ser cruel. Ele via as pessoas como sendo gênios ou sendo estúpidas, e de uma certa forma essa visão se refletia de volta para ele”, disse Walter Isaacson em entrevista à Folha.

Na biografia, que foi o livro mais vendido na Amazon no ano de seu lançamento, Isaacson faz crer que muitas atitudes de Jobs, inclusive nos negócios, foram influenciadas por ressentimentos e arrependimentos na vida pessoal. Encarar a instabilidade do mercado de tecnologia durante mais de três décadas também ajudou a moldar o temperamento complexo que fascinava e aterrorizava tanta gente. “Eu sou a única pessoa que conheço que perdeu um quarto de bilhão de dólares em um ano”, disse Jobs. O comentário aparece em Apple Confidential 2.0, uma espécie de biografia da empresa, publicada por Owen W. Linzmayer em 2004.

Os fracassos e as voltas por cima

No mundo dos multibilionários, um quarto de bilhão não é tanto dinheiro assim. Em março de 2011, poucos meses antes de morrer, Steve Jobs aparecia no 110º lugar na lista das pessoas mais ricas do planeta segundo a Forbes. Sua fortuna era estimada em 8,3 bilhões de dólares. E sua moral também estava lá no alto. Em junho do mesmo ano, Steve Jobs fez sua última apresentação como CEO da Apple para contar as novidades da empresa: novos recursos do OS X Lion, o iOS 5, e o serviço de armazenamento iCloud. A recepção foi, como era de costume, calorosa.

Até hoje, praticamente todos os tropeços de Steve Jobs como empreendedor são vistos pelo lado bom. Se não fosse o aspecto bruto e inacessível do Apple I, Jobs e Steve Wozniak não teriam se esforçado para corrigir todos os erros no Apple II, máquina que começou a popularizar o conceito de computador pessoal. Caso a Apple não tivesse errado ao lançar o Lisa, um computador pesado e caro, Jobs não conseguiria acertar em cheio no Macintosh, construído a partir do computador anterior. Foi graças ao sucesso do sistema operacional Nextstep que Steve Jobs conseguiu voltar para a Apple, de onde havia sido demitido anos antes.

Apple II: o produto que massificou o mercado de computação pessoal

Apple II: o produto que massificou o mercado de computação pessoal (Apple/Divulgação)

Uma vez de volta ao lar, ele capitaneou diversas outras revoluções. Se nos anos 1970, computadores eram interessantes apenas para programadores e aficionados por tecnologia, hoje quem tem um smartphone não precisa nem saber quanta memória RAM tem a pequena máquina que leva no bolso. Não há como negar: Steve Jobs contribuiu muito para a mudança cultural que veio com a popularização da tecnologia.

Quase seis anos depois de sua morte e mais de 40 desde o lançamento do Apple I, Steve Jobs segue sendo sinônimo de inovação, mesmo que o tempo tenha feito com que os aspectos pouco glamorosos de sua trajetória tenham vindo à tona.

Serviço

Exposição Steve Jobs – O visionário. 15 de junho e 20 de agosto, a mostra entra em cartaz em São Paulo, no Museu de Imagem e Som (MIS).