Somos reféns de cinco empresas

Farhad Manjoo
© 2017 New York Times News Service

Algumas semanas atrás, comprei uma televisão nova. Quando todo o processo terminou, percebi algo incrível: para passar por todos os detalhes incômodos que cercam esse tipo de transação comercial – descobrir o que comprar, quais acessórios eu precisava, como e onde instalá-los e quem contratar para fazer isso – precisei lidar com apenas uma corporação onipresente: a Amazon.

Não foi apenas a TV. À medida que comecei a vasculhar outras decisões domésticas recentes, descobri que, em 2016, quase dez por cento das minhas transações comerciais de casa foram feitas pela revendedora de Seattle, de longe mais do que qualquer outra empresa com a qual minha família lidou. Além do mais, seus equipamentos Echo e Fire TV, audiobooks, filmes e séries de TV, a Amazon se tornou, para minha família, mais do que uma simples loja. É nossa confessora, guardiã de nossas listas, fornecedora de alimentos e cultura, de entretenimento e educação e a babá de meus filhos.

Pode soar um exagero. Mas e você? Suspeito que se examinar de perto sua própria vida, há uma grande chance de que outra empresa de tecnologia ocupe o mesmo papel para você que a Amazon ocupa para mim: a de diretora de uma prisão corporativa muito confortável.

Esse é o fato mais gritante e subvalorizado do capitalismo da era da internet: somos, todos nós, escravos inescapáveis de um punhado de empresas americanas de tecnologia que hoje dominam grande parte da economia global. Eu falo, claro, de minhas velhas amigas, as Cinco Temíveis: Amazon, Apple, Facebook, Microsoft e Alphabet, a empresa-mãe do Google.

As cinco estão entre as companhias mais valiosas do planeta, valendo trilhões coletivamente. (A Apple atingiu 800 bilhões de dólares em capitalização no mercado em maio, a primeira empresa a chegar a esse valor e as outras podem não estar longe disso.) E apesar da imagem do Vale do Silício como um mar turvo cheio de problemas, essas cinco ficam cada vez mais ricas com o tempo.

Seu crescimento levou a pedidos para mais regulamentações e intervenções antitruste. Também existe uma preocupação crescente a respeito de sua influência mais suave, não econômica, sobre a cultura e a informação – por exemplo, o medo da maneira como o Facebook pode afetar as democracias –, assim como as ameaças implícitas que fazem aos governos mundiais.

Esses são todos tópicos dignos de discussão, mas também são muito frios e abstratos. Então, uma maneira melhor de apreciar o poder dessas cinco pode ser examinando os detalhes ao invés da imagem geral – analisar o papel que cada uma tem nas suas atividades do dia a dia e o fascínio particular que exercem sobre a sua psique.

Então, inventei um jogo divertido: se um rei malvado, com fobia de tecnologia, forçasse você a abandonar cada uma das Cinco Temíveis, em que ordem você o faria e quanto sua vida iria piorar como resultado disso?

Quando fiz essa experiência imaginária, descobri que deixar de lado as duas primeiras gigantes tecnológicas era muito fácil – mas depois o processo se tornou cada vez mais insuportável. Eu abandonaria o Facebook primeiro. Normalmente socializo on-line usando o Twitter, o sistema de mensagem da Apple e o Slack, o aplicativo de conversas do escritório, então, deixar de lado o serviço popular de Mark Zuckerberg (e seus subsidiários, Instagram, Whatspp e o Messenger) não seria tão complicado.

A segunda, para mim, seria a Microsoft, que achei um pouco mais difícil de largar. Normalmente, não uso equipamentos Windows, mas o processador de texto da Microsoft, o Word, é uma ferramenta essencial para mim e detestaria perdê-la.

Em terceiro lugar, cheio de arrependimentos, a Apple. Não há nada que eu use mais do que meu iPhone, seguido de perto por meu MacBook e o iMac 5K, que deve ser o melhor computador que já tive. Abandonar a Apple causaria rearranjos profundos e irritantes na minha vida, incluindo enfrentar o software ruim da Samsung. Mas, de má vontade, eu poderia fazê-lo.

Quando chega a hora de pensar nos últimos dois, minha vida se torna algo diferente. É aqui que você começa a confrontar quanto as Cinco Temíveis se embrenharam em nossas vidas e quão completamente dependemos delas.

Em quarto lugar, para mim, seria o Google. Eu não posso nem imaginar viver sem ele. Sem o melhor mecanismo de busca do mundo, meu trabalho se tornaria quase impossível. Sem o YouTube, seria significativamente menos divertido. Sem tudo o mais que o Google faz – e-mail, mapas, calendário, software de tradução, armazenamento de fotos e o sistema móvel operacional Android, que eu precisaria depois de abandonar o da Apple – estaria relegado à vida de uma pobre alma de tempos atrás (por exemplo, 1992).

Então, finalmente, deparei-me com o mestre dos meus domínios. Tenho comprado na Amazon quase desde o momento que ela entrou no ar nos anos 1990. (Fui um estudante de faculdade curioso, gostava de experimentar.) Todos os anos desde então, à medida que minha vida se tornou mais movimentada e ganhei mais responsabilidades (em outras palavras, à medida que me tornei mais e mais um estereótipo de pai), a Amazon assumiu um papel cada vez mais importante em minha vida.

Quando as crianças nasceram, tornou-se a Cotsco da minha casa – fornecedora de fraldas e outras coisas de bebês. Então, ela lançou uma série de serviços projetados para retirar de mim todas as decisões de compras: meu papel higiênico, toalhas de papel e outras coisas consumíveis agora chegam à minha casa no horário marcado, sem que eu precise pensar. A Amazon partiu para a mídia, e eu fiquei ainda mais viciado: já havia me conquistado pelos bens, por que não por filmes e séries de TV?

Poucos anos atrás teria pensado que esse era o limite. Então surgiu o Echo, o computador falante da empresa, que se comunica por meio de uma “persona” chamada Alexa e que infectou minha família como um alegre vírus.

O Echo dá um jeitinho de se insinuar nos momentos mais mundanos. Troquei as luzes de minha casa para ser capaz de controlá-las pela Alexa. Mudei o tipo de café que comprava para que pudesse pedir que a Alexa fizesse encomendas. Quando a Amazon anunciou recentemente um novo Echo habilitado para telas e uma característica que faz com que ele atue como celular, experimentei outro frisson de possibilidades. A Amazon, hoje eu sei, está no caminho para se tornar o cérebro da minha casa, uma espécie de mordomo dos céus que administra o local para mim.

O que me traz de volta para minha nova TV. Você sabia que a Amazon agora vende não apenas produtos, mas também serviços para casa? Se você compra uma TV, ela vai tentar vender a você um suporte de parede e se você concordar em comprá-lo, vai perguntar se quer que mande alguém a sua casa para instalar o equipamento por uma taxa surpreendentemente razoável. O que poderia, no passado, ter custado várias viagens a lojas diferentes, um caminhão e algumas ferramentas, alguns amigos e muitas horas, agora se resolve com um punhado de cliques.

Uma noite, três dias depois que fiz o pedido da TV, o pessoal da Amazon chegou e montou a coisa toda enquanto eu preparava o jantar. Se esse futuro assusta você, essa é a reação certa.

Eu me tornei vítima da armadilha da conveniência, e você está certo de rir de mim, e também de desfiar visões distópicas de meu comportamento – um futuro em que muitas outras pessoas fazem o que eu faço, em que vastas porções de atividades comerciais fluem por essa única loja on-line. E claro, você pode decidir abandoná-la; você pode ir à Target, sua vida não vai acabar se você não favorecer a Amazon.

Mas se não é a Amazon para você, será uma das outras cinco. Ou, mais provavelmente, já é. É muito tarde para escapar.

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