Som e bonança: o crescimento da dona da JBL no Brasil

Fabricante de equipamentos de áudio Harman, dona da marca das caixas de som bluetooth JBL, multiplica o faturamento no Brasil por seis em sete anos

As reuniões do Kremlin — a sede do governo russo —, a sala em que Donald Trump recebe as informações dos órgãos de inteligência e defesa, na Casa Branca, e diversos churrascos de final de semana pelo Brasil possuem um elemento em comum. Claro, não é a possível predileção por picanha de seus participantes, mas o fato de que são equipadas com sistemas de som da Harman, uma empresa americana dona de marcas como JBL, Harman/Kardon e AKG.

O sucesso das caixas bluetooth é parte da razão do crescimento da subsidiária da Harman no Brasil, com fábricas em Manaus e em Nova Santa Rita, no Rio Grande do Sul. Em 2010, quando comprou a brasileira Selenium, fabricante de alto-falantes, o faturamento anual no país era de 100 milhões de reais. Agora, em 2017, a projeção é terminar com 600 milhões em vendas.

Antes da chegada das caixas da JBL, esse mercado era dominado por marcas desconhecidas, que serviam mais como brindes, e por produtos trazidos nas malas daqueles que voltavam de viagens internacionais. A venda das caixinhas de som cresceu acompanhando o boom dos smartphones no Brasil. Celulares oferecem, em geral, experiências sonoras ruins. O volume não é alto e, quando no máximo, costuma apresentar ou graves abafados ou agudos estridentes. A pior experiência possível para uma festa em família. “Criamos um mercado do meio, com caixas de fácil conectividade, preço acessível e som de qualidade”, afirma Rodrigo Kniest, presidente da Harman para a América do Sul que, até setembro deste ano respondia apenas pela operação da empresa no Brasil e no Paraguai (onde controlar os revendedores — legais e ilegais — era essencial).

As caixas fazem parte da divisão de lifestyle da empresa, que também produz soundbars (para serem usadas junto com TVS), home theaters e fones de ouvido.  Todos esses produtos juntos correspondem a um terço do faturamento da Harman no Brasil. Esse é um mercado em ebulição em todo o mundo, de acordo com a consultoria Grand View Research. Só o segmento de soundbars, por exemplo, deve crescer 8% ao ano até 2025. As caixinhas, de maneira geral, serão um setor de 8,5 bilhões de dólares até meados da próxima década.

Nessa perspectiva, o crescimento da subsidiária seguiu o crescimento da matriz. Em 2010, a Harman faturava 3,2 bilhões de dólares. Em 2017, a meta é fechar o ano com sete bilhões de reais em faturamento. Além do mercado de áudio profissional de shows e DJs e das caixas bluetooth, a multinacional é uma importante fornecedora de alto-falantes e sistema de entretenimento para montadoras. Os carros da alemã BMW, por exemplo, saem equipados com a linha de luxo Harman/Kardon.

A linha automotiva da Harman é responsável por outro terço do faturamento no Brasil — a linha profissional representa os 200 milhões restantes. Segundo Kniest, se o mercado de carros não tivesse andado para trás nos últimos anos — em 2015, a produção caiu 22,8% e, em 2016, a queda foi de 11,2%, no patamar mais baixo da história — a empresa deveria estar hoje com o faturamento na casa dos 900 milhões de reais. “Nós conseguimos os contratos por exemplo com Ford e Volkswagen, mas eles foram menores do que esperávamos”, diz.

Se as perspectivas são boas para alto-falantes, para os sistemas de entretenimento dos carros as projeções são melhores. O crescimento anual desse mercado deverá ser de 13,5% ao ano, alcançando 37,6 bilhões de dólares em 2025.

Foi de olho nesse bolo que a Samsung adquiriu a Harman, em março deste ano, por 8 bilhões de dólares, na maior compra da história da empresa sul-coreana. A Samsung, que já atuava como fornecedora de pequenos componentes para carros, decidiu entrar na vez nesse setor por meio da empresa americana. A aquisição também foi boa para a fabricante de equipamentos de áudio ao abrir um porta para a indústria de tecnologia. A Harman estava num movimento de inovação desde a aquisição da produtora de software Symphony Teleca, em 2014, por 2,5 bilhões de dólares. Os produtos recentes, inclusive, vinham equipados com mais sensores, como um fone de ouvido feito em parceiro com a empresa de material esportivo Under Armour capaz de monitorar, via aplicativo, os batimentos cardíacos e a distância percorrida por um atleta de corrida.

No Brasil, aproveitando o legado da Selenium, uma marca nacional de alto-falantes com mais de 50 de vida, também há uma equipe de engenheiros responsáveis por novos produtos e inovações. Foram eles, por exemplo, que desenvolveram a nova aposta da empresa no mercado local, criada após Kniest observar motoqueiros no trânsito, que costumam enfiar o celular entre o capacete para atender ligações. A solução é uma nova caixa de som que pode ser presa no guidão da moto e retirada facilmente por meio de um clipe. Agora, só falta vender tão bem como as caixinhas do churrasco.