Rondolat, da Signify: “Cidades inteligentes vão revolucionar sociedades”

Novas tecnologias de iluminação permitem pensar em novos comportamentos das cidades, e redução do gasto com energia

A mudança de da Philips Lighting para Signify (realizada neste ano) não mudou a ambição da companhia: participar da revolução das cidades inteligentes. A conexão entre iluminação e internet (parte da ideia da Internet das Coisas) vai permitir, segundo ele, economizar energia elétrica, além de tornar as cidades mais práticas e seguras. Em entrevista a EXAME, o diretor-executivo da Signify, Eric Rondolat, explica que pensar em iluminação ultrapassa a questão do dia a dia, e se torna uma ferramenta para pensar no futuro. Futuro que já bate na porta.

Em tempos de eleição, há quem já pense em cidade inteligente como pauta de campanha. Há pouco mais de um mês, o Partido dos Trabalhadores (PT) anunciou que, caso vencesse as eleições para presidente, iniciaria um programa de instalação de lâmpadas de LED em todo o país.

Como você vê as cidades daqui a 10 anos, e como você acha que a internet das coisas vai mudar as cidades em geral? Que tipo de soluções veremos nas cidades do futuro diferente das de hoje?

Eu tenho falado sobre cidades inteligentes há muito tempo e eu acho que com a tecnologia de hoje isso será cada vez mais possível.  Talvez no passado isso não era possível porque as tecnologias ainda não estavam disponíveis mas hoje nós temos centenas de referências de cidades que  equiparam suas ruas com nossas lâmpadas que se conectam com nossa plataforma de internet das coisas (IOT), a Interact, que pode transferir as informações para a nuvem. Lá elas podem ser guardadas, autenticadas, analisadas com segurança, e determinadas ações podem ser tomadas baseadas nos dados coletados.

Se você olha em perspectiva, dos 300 milhões de postes que existem hoje no planeta, cerca de 2% estão conectados. Existe um enorme potencial e nós já começamos a aproveitá-lo. A primeira promessa da cidade inteligente é reduzir o uso de energia nas cidades, mas também aumentar a segurança e diminuir a criminalidade.

Para um município, a conectividade traz uma completa compreensão de seus ativos, o que já é uma enorme mudança do que é feito hoje em dia. Em frente a um restaurante, por exemplo, seu dono consegue decidir se ele quer mais ou menos luz, apenas controlando nosso software. Se as pessoas estão jantando do lado de fora, a flexibilidade desse sistema contribui para dar mais conforto ao cliente. Outro exemplo são os carros autônomos. A iluminação pode ajudar a guiar os carros nas ruas então é possível imaginar a cidade mudando radicalmente por conta da tecnologia. A iluminação vai ter um papel diferente: não vai prover somente iluminação, mas vai trazer essas vantagens. A questão de enviar informações para nuvem e poder administrá-las é algo que vai revolucionar o nosso comportamento e a nossa sociedade. E isso vai acontecer entre 5 e 10 anos.

E quando você acha que essas conversas devem ser feitas entre a Philips e os governos? Por que os governos normalmente se movem mais devagar em inovação e na adoção  de novas tecnologias…

Acho que nós temos que pensar na educação. Embora muitos elementos da tecnologia estejam caminhando no mesmo ritmo e em diferentes áreas, a educação  tem um papel muito importante em tudo isso. Como companhia, estamos investindo muito no setor da iluminação. Nós somos a número um na área de iluminação convencional, iluminação LED e iluminação conectada no mundo. Então nossa posição nos dá a oportunidade de conversar com mais pessoas, com ONGs e com governos. Nós tentamos mostrar a todos as possibilidades das novas tecnologias.  Nos escritórios, por exemplo, você consegue repensar a infraestrutura da iluminação para reduzir entre 50 e 80% dos gastos. Mas isso não é tudo: no espaço com sensores é possível otimizar o trabalho. Então nós precisamos educar o mercado para que ele entenda que a luz não é somente um componente que você precisa mudar algumas vezes,  é muito mais do que isso.

E como vocês estão fazendo isso hoje? Vocês estão focando em cidades mais ricas?

A questão não são os mais ricos, mas sim a mentalidade das cidades. O que é mais importante é ter pessoas que são progressistas quando estamos falando sobre cidades , e que realmente querem mudar. Se você pensa que com as novas tecnologias de iluminação  pode-se reduzir entre 50% a 70% o custo de energia, e que os municípios gastam até 40% de seu orçamento com energia, nós podemos fazer muitas mudanças. Em Los Angeles, por exemplo, além da redução do custo de energia,  houve também uma redução de  20% da criminalidade e 31% menos acidentes à noite.

Pensando agora em consumidores. Como vocês acham que esses tipos de produtos vão mudar a vida das pessoas dentro de suas casas?

Eu posso falar sobre isso porque eu sou um grande consumidor.  Eu tenho 167 lâmpadas conectadas na minha casa e eu mudei todos os spots (pontos de iluminação) nos corredores e nas paredes. Eu não tenho mais interruptores nos corredores. E é comum quando você tem muitos interruptores não saber qual liga e desliga qual luz. Eu moro em uma casa de três andares (porque na Holanda casas assim são comuns) e agora não preciso mais gastar meu tempo pensando em desligar as luzes de todos os andares. Eu tenho o sensor de movimento Hue, e nós temos sensores que detectam a presença de alguém. E quando não há ninguém a luz se apaga sozinha automaticamente.

Ao mesmo tempo eu economizo energia porque quando eu não estou lá a luz apaga automaticamente.  Você já pensou quantas vezes as luzes ficam acesas sem necessidade? Muitas vezes. Este é somente um exemplo. Entendemos o impacto da iluminação na vida das pessoas e por isso desenvolvemos lâmpadas totalmente conectadas que ajudam as pessoas a criar suas próprias experiências com muita facilidade.

Como trazer esse tipo de inovação e de solução para países em desenvolvimento ou populações pobres?  Parece que essas soluções, como a Philips Hue, são  caras e se você pensa no Brasil poucas regiões fora de São Paulo estão preparadas para esse tipo de mudança.

Eu acho que essa mudança virá com o tempo. Se você pensar em 20 anos atrás, não pensaríamos que as pessoas tivessem internet nas suas casas. Eu acho que o acesso à internet ainda é muito baixo de acordo com a pirâmide social; mas é muito raro entrar em algum lugar que não tenha internet. Daqui a 10 anos as luzes estarão conectadas em quase todas as casas.  Agora, isto é caro ou barato? Eu acho que não é caro se você quiser viver a experiência.  Se você quiser fazer o que fazemos hoje na Signify com a tecnologia de ontem seria muito mais caro.  Claro, não é possível comparar o preço de uma lâmpada sem conexão com uma lâmpada com conexão porque a finalidade de ambas é distinta.

E em termos de sustentabilidade?

Esse é um elemento fundamental para nós.  Nós criamos um programa há um ano atrás:  “Brighter lives, better world” (Vidas mais iluminadas, um mundo melhor) que pensa no retorno sustentável e também mede se nós conseguimos produzir com maior eficiência.  Até 2020 seremos neutros em carbono e 80% de nossas receitas virnao de produtos e serviços sustentáveis, produtos que economizem energia e que melhorem o planeta de um modo geral.

E de inovação?

Está claro para nós que a luz está se transformando em uma nova linguagem inteligente.  Lançamos há pouco tempo uma tecnologia chamada Li-Fi,  que trará ao seu computador a conexão à internet, como o Wi-Fi hoje. A patente atualmente está em fase de teste. O sinal é estável e extremamente rápido, achamos que pode chegar a ser 20 vezes mais rápido que o Wi-Fi. Além disso, é seguro. Se você não está na sala, não pode pegar o sinal. Para muitos dos nossos clientes, por questões de segurança, isso é muito importante. Esta tecnologia pode ser usada para aplicações militares e para pessoas que não querem que seu sinal vá a lugar algum além do local onde está sendo usado. Também pode ser usada em ambientes onde o sinal não é estável. E além disso, sua sustentabilidade será importante, já que a luz é bem melhor comparada às ondas eletromagnéticas emitidas no sistema Wi-Fi.

Pensando em negócios, qual a importância do Brasil para a Philips?

Eu sei que a situação na América Latina não é sempre a mais estável, mas nós investimos na área industrial do país, e nós temos investido na área comercial. Além disso, temos clientes e relações comerciais, e nós sempre vemos a nossa presença no Brasil à longo prazo.  É um país muito conectado, e eu tenho certeza que nós temos muito otimismo sobre o que pode ser feito no país. Pessoalmente, eu acredito no potencial do Brasil, e acho que nós podemos contribuir muito para a economia do país.

E a independência da Philips nos últimos dois anos? Vocês acreditam que isso permite maiores mudanças, é mais fácil trabalhar com inovação?

Eu acho que parte do que nós fazemos é continuar a implementação da estratégia que nós temos implementado há 5 anos.  Mas também procuramos manter a estabilidade do nosso projeto. Com a separação, nós começamos a ter mais foco, simplificando a forma como fazemos as coisas e nossos sistemas de TI. Ao mesmo tempo, nós vimos que a separação nos deu mais velocidade. E esse foi o propósito da separação: para dar mais foco a companhia e para nos tornar mais rápidos, tendo mais acesso ao mercado.  Se você analisar a trajetória desde a IPO, você vai ver que nós temos muitos investidores que confiaram nesta separação.

E por que a mudança da marca para  Signify?

Não há mudança da marca, é uma mudança do nome da companhia. No momento da separação e quando nós realizamos o IPO,  a perspectiva era da necessidade de mudar o nome da companhia. E nós tivemos um número limitado de meses para fazer isso acontecer.  Agora a Royal Philips tem somente 18% do controle das ações e perdeu o controle da empresa, por isso mudamos nosso nome. A marca Philips fica, mas Philips Lighting vai.  E hoje somos Signify. Acreditamos que ter um verbo como nome é um forte sinal de ação.  Significamos algo através da luz.