Remédio da Pfizer ajuda a revitalizar estratégia abandonada

Medicamento para câncer de mama interrompeu o crescimento do tumor durante 20,2 meses em formas avançadas associado a hormônio

Nova York/Londres – Pfizer, Eli Lilly e Novartis desenterraram uma ideia descartada pela indústria farmacêutica para criar novos remédios que estão demostrando um potencial de sucesso contra formas de câncer de mama difíceis de tratar.

Nas descobertas relatadas ontem, o medicamento da Pfizer, que se chama palbociclib, interrompeu o crescimento do tumor durante 20,2 meses em formas avançadas do câncer de mama associado a hormônio, duas vezes mais do que o observado com o emprego isolado de um tratamento anterior. O tratamento, projetado para agregar US$ 3,1 bilhões às vendas até 2020, se baseia em uma estratégia amplamente abandonada na década de 1990, por não ter demonstrado uma resposta consistente contra diversos tipos de câncer.

Desde então, surgiu uma compreensão mais profunda das diversas bases genéticas do câncer, o que deu aos fabricantes de remédios novas informações sobre como os medicamentos – inibidores de quinase dependente de ciclina (CDK) – evitam que os tumores cresçam e se espalhem. A descoberta oferece, pela primeira vez na década, uma nova terapia significativa para os pacientes cujo câncer de mama não responde aos outros tratamentos, disseram os médicos.

“Não surgiram muitos remédios novos nesta área”, disse Judy Garber, oncologista do Instituto do Câncer Dana-Farber, em Boston. “Para mim, esses são os medicamentos mais interessantes que surgiram para o tratamento do câncer de mama positivo ao receptor de estrogênio em muito tempo”.

As descobertas da Pfizer, que surgiram na segunda das três etapas de testes normalmente necessárias para a aprovação nos EUA, foram relatadas no encontro da Associação Americana para a Pesquisa do Câncer, em San Diego, junto com os resultados de um estudo, que está em uma etapa anterior, de um tratamento semelhante realizado pela Lilly. O resultado da Pfizer pode ajudar a empresa a garantir uma permissão mais rápida para o tratamento que poderia gerar recordes de vendas de US$ 6 bilhões no futuro, disse Mark Schoenebaum, analista do ISI Group, em Nova York.

Negociações com a FDA

A Pfizer disse ontem que está conversando com a Food and Drug Administration (FDA) sobre esta possibilidade. “Ainda não estamos tão avançados com a FDA” para anunciar uma decisão assim, disse Gary Nicholson, diretor do negócio de oncologia da Pfizer, em uma teleconferência com os analistas.


Embora o palbociclib da Pfizer tenha aumentado o tempo de sobrevivência sem progressão em comparação com o tratamento existente, a descoberta não foi tão impactante quanto os pesquisadores esperavam, disse Schoenebaum da ISI, em uma nota de ontem aos clientes. Isso pode fazer com que as ações da empresa, com sede em Nova York, caiam hoje, disse.

A Pfizer não é a única em busca de remédios de CDK, que bloqueiam um caminho genético para o crescimento celular. A Lilly, de Indianápolis, EUA, a AstraZeneca Plc, de Londres, e a Novartis, de Basileia, Suíça, estão testando alvos entre cerca de 20 tipos de bloqueadores de CDK, e os medicamentos para os tumores mamários são os mais avançados.

Compreensão limitada

A estratégia de CDK quase não vingou. No início da década de 1990, os pesquisadores suspeitavam que os inibidores de CDK poderiam ser utilizados para desacelerar o crescimento descontrolado em diversos tipos de câncer. A ciência naquele momento, no entanto, não podia identificar diferenças sutis no modo em que os inibidores se comportavam em distintos tipos de tecidos, e a pesquisa foi amplamente abandonada depois que testes mostraram uma falta de consistência nos resultados.

Desde então, os cientistas aprenderam mais sobre como a genética afeta o câncer. Ao invés de ser apenas uma doença, os pesquisadores agora acreditam que se trata de dezenas de doenças, e que cada uma tem suas próprias características genéticas. Ao determinar isso, eles investigaram mais profundamente os interruptores genéticos que ativam e desativam as virulências, o que lhes deu novas informações sobre como os inibidores de CDK bloqueiam o crescimento em diferentes tipos de células.

Os remédios da Pfizer e da Lilly estão sendo testados em pacientes cuja doença se espalhou da mama ao cérebro, ao pulmão e ao resto do corpo. Ambas as empresas estão conduzindo as etapas finais do teste de seus tratamentos. O remédio semelhante da Novartis também está em uma etapa avançada do teste, e a apresentação para a aprovação para o mercado deve ocorrer em 2016.

“Ainda é cedo, mas há muita animação e muito potencial”, disse Richard Gaynor, vice-presidente do desenvolvimento de produtos e questões médicas da unidade de oncologia da Lilly, em entrevista telefônica. “Definitivamente, esta é uma área que atraiu nossa atenção e também a de outros grupos no ramo, veremos o que acontecerá”.