Quer deixar o governo mais eficiente? Chame as startups

A aceleradora BrazilLab, de Letícia Piccolotto Ferreira, quer ajudar as startups resolver problemas no setor público e organiza evento para tratar do tema

Não é de hoje que a população brasileira convive com serviços públicos de péssima qualidade em todas as áreas. Há décadas o brasileiro sofre com o atendimento ruim nos hospitais, com um ensino público incapaz de formar cidadãos bem qualificados e uma insegurança generalizada nas ruas das cidades – para ficar nos três exemplos mais evidentes. Esta realidade é consequência de uma situação complexa que envolve má gestão, falta de recursos financeiros por parte dos governos e corrupção. Embora não exista uma solução fácil para reverter este quadro, ao menos uma parte dos problemas poderia ser evitada se o poder público usasse mais ferramentas digitais para gerenciar melhor as escolas, os hospitais ou as delegacias de polícia. Esta é a avaliação de Letícia Piccolotto Ferreira, presidente da BrazilLab, uma organização sem fins lucrativos que ajuda startups brasileiras a fazer negócios com o poder público – uma área que vem ganhando o nome de “GovTech”.

Por causa da proximidade das eleições em outubro, o tema da eficiência dos serviços públicos está no topo da preocupação dos eleitores e da agenda dos pré-candidatos à Presidência. Diante desse cenário, a BrazilLab organiza nos próximos dias 6 e 7 de agosto, em São Paulo, a conferência GovTech, que vai discutir justamente a necessidade de os governos trabalharem com as startups para implementar novas soluções tecnológicas e ganhar eficiência. “Com tudo que o Brasil passou com a Operação Lava-Jato, a gente tem uma janela de oportunidade de construir um governo mais eficaz, mais representativo, menos corrupto e mais transparente. Este é o momento de colocar as duas forças para trabalhar juntas: a força do empreendedorismo e a força da sociedade, que demanda serviços mais eficientes”, diz Letícia. O evento também é organizado pelo apresentador Luciano Huck e pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio).

Fundada há dois anos, a BrazilLab funciona como uma aceleradora. De tempos em tempos, ela seleciona um grupo de startups para participar do seu programa de capacitação e, ao final do processo, as empresas mais bem preparadas para trabalhar com o setor público são premiadas com um prêmio de 50 000 reais. O valor é pequeno, mas ajuda as empresas a dar um pontapé inicial e se estruturar para vender seus serviços para os governos. Ao todo 26 empresas já participaram do programa. Além disso, a BrazilLab auxilia as startups a se conectarem com investidores, para que sigam crescendo e aprimorando seus negócios. Por trás da entidade, estão nomes de peso. A BrazilLab tem o financiamento da Fundação BRAVA – organização filantrópica de Carlos Alberto Sicupira, sócio de Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles no 3G Capital –, do Bank of America Merrill Lynch e dos institutos Beth Jacob Lafer e Humanize.

Em entrevista a EXAME, Letícia falou sobre as dificuldades dos empreendedores de trabalhar com o setor público no Brasil:

O que se define como GovTech?

GovTech são tecnologias que atuam em prol do setor público. Uma GovTech pode ser uma startup de educação, por exemplo. Mas, para ela ser reconhecida como GovTech, tem que atuar junto aos governos e estar direcionada para resolver algum problema do poder público. Mas ela não precisa ser originada pelo poder público. Pelo contrário. A ideia é que cada vez mais o setor privado traga estas soluções.

Quais são as maiores dificuldades enfrentadas pelas startups que trabalham com o setor público?

Muitas vezes, as startups elas não conhecem a realidade do setor público. Por exemplo, levamos algumas startups que passaram pelo nosso programa de aceleração na área de saúde para visitar UBSs [unidades básicas de saúde] na zona leste de São Paulo. Essas startups têm soluções tecnológicas super sofisticadas. Mas, quando se depararam com a realidade das UBSs, descobriram que o acesso à banda larga e à infraestrutura básica para implementar a tecnologia que elas oferecem estava muito aquém do que imaginavam. Outra dificuldade é o desconhecimento de como vender serviços ao setor público. A licitação não é o único caminho. Existem outras maneiras também, como a Lei de Inovação, de 2013. Um terceiro problema é que os fundos de investimento têm regras de compliance que impedem as startups investidas por eles de trabalharem para o setor público.

Faltam fundos de investimentos hoje no Brasil que investem em startups que trabalham com o governo?

Eu conheço pouquíssimos, porque falta uma clareza sobre regras de compliance. Esta mentalidade precisa mudar para estabelecer uma relação melhor entre o setor privado e o setor público. Acho que a gente tem uma grande oportunidade na mesa, e os fundos também têm um papel importante.

Além dos fundos, as startups também têm receio de trabalhar com o governo, diante de tantos casos de corrupção?

Existe um receio, mas vemos que também existe um interesse grande dos empreendedores. Em dois anos de atuação, nós recebemos inscrições de mais de 1 300 startups no nosso programa. Porque na área de educação, na área de saúde, na área de segurança, o setor público é um grande mercado. Representa 40% do PIB, 70% das escolas, 90% da dos hospitais. Nosso programa ajuda as startups a entender melhor os bastidores do governo, a legislação, a entender o que é uma PPP, o que é uma carta convite, quais são os modelos de contração, o que diz a lei de inovação, por exemplo.

Existem entraves também do lado dos gestores públicos?

Sim. Há uma preocupação muito grande por parte dos prefeitos e governadores com que a gente trabalha. Eles querem trazer as startups para dentro do setor público, mas ficam com receio da reação dos órgãos de controle, como os tribunais de contas e o Ministério Público.

Por que criar uma aceleradora para atuar justamente num mercado tão complexo e cheio de regulações?

O principal objetivo de um programa como o BrazilLab, que fundamos há dois anos, é justamente mudar esta situação e incentivar as startups a trabalharem com o setor público. Assim como já aconteceu no varejo e no mercado financeiro, a “disrupção” provocada pela tecnologia, mais cedo ou mais tarde, vai acontecer no governo também. Na nossa visão, isso vai acontecer de fora para dentro. As soluções vão surgir no setor privado e ir para o setor público. É com a pressão do mercado que os serviços públicos serão prestados com maior qualidade.

 

Do ponto de vista financeiro faz sentido investir em startups que trabalham com o governo?

Faz muito sentido financeiramente. Quando se trabalha com as prefeituras, mesmo as de pequeno porte, estamos falando de uma clientela de milhares de pessoas. Além disso, os contratos são de longo prazo, de 12, 18 ou até 24 meses. Portanto, o empreendedor ganha no volume e no prazo de comprometimento. Mas, num primeiro momento, o empreendedor tem que um caixa grande o suficiente para suportar um período de negociação mais longo com governos. Já trabalho há 18 anos com projetos junto ao poder público e nunca vi nenhum contrato sair em menos de nove meses. O empreendedor tem que ter fôlego para, vamos dizer assim, enfrentar esta a subida inicial da montanha, para os primeiros degraus.

Olhando para os vários problemas nos serviços públicos no Brasil, qual você diria que é o mais urgente?

É difícil definir uma única prioridade. Mas acho que segurança pública é um tema que vai estar muito presente nas eleições deste ano. O Brasil atingiu níveis alarmantes de violência. E acho que a tecnologia tem como contribuir muito para essa questão.

De que forma?

Por exemplo, a equipe do Porto Digital, em Recife, está começando ajudar o governo de Pernambuco na construção de um banco de dados centralizado para consolidar os indicadores de segurança. Por mais que pareça algo simples, este ainda é um desafio na área da segurança pública. Não há informações consolidadas. E é importante ter acesso a dados em tempo real e mapas da criminalidade para atuar de forma rápida e precisa. A tecnologia pode ajudar a tomar decisões de forma mais estratégica, e fazer com que a polícia se torne mais preparada.

Existem outras áreas em que a tecnologia pode fazer mais diferença?

Sim, principalmente na redução da burocracia e na melhoraria do ambiente de negócios. O Brasil ainda é um dos países mais burocráticos do mundo. Um exemplo é o tempo longo que se leva para abrir ou fechar uma empresa no Brasil. Outro problema é a complexidade da legislação tributária. Um dado curioso é que no ranking dos países mais inovadores do mundo, o Brasil subiu cinco posições no último ano. Hoje a gente ocupa a 64a posição de um grupo de aproximadamente 180 países. Mas a gente tem caído nos rankings de competitividade. Isso mostra que estamos investindo em tecnologia, em propriedade intelectual e em outras questões importantes para fomentar a inovação, mas não estamos investindo para reduzir a burocracia.