Potencial de crescimento de startups no Brasil é enorme

Apesar do número cada vez maior de empreendedores, ecossistema de inovação ainda cresce no país

O empreendedorismo nunca esteve tão em alta no Brasil. Seja por necessidade ou por convicção, cada vez mais os brasileiros têm deixado carreiras tradicionais de lado para investir em negócios inovadores. Novas empresas surgem todos os dias, quase sempre ocupando espaços não atendidos por grandes corporações ou melhorando processos produtivos ineficientes por meio da tecnologia. Apesar do rápido crescimento no número de startups nacionais observado nos últimos anos, o movimento empreendedor no país ainda engatinha quando comparado com os Estados Unidos e a Europa – situação que deve mudar em um futuro não tão distante.

Com mais investidores e um volume maior de capital disponível, profissionais qualificados dispostos a arriscar e incontáveis problemas a serem resolvidos, o Brasil desponta hoje como um dos países com maior potencial para o desenvolvimento do empreendedorismo em todo o mundo. “O ecossistema vem crescendo muito rapidamente por aqui. Muitas pessoas que perderam ou deixaram seus empregos começaram a empreender, montar seus próprios negócios. Mas já não é apenas uma franquia, um foodtruck ou uma consultoria. O pessoal começou a pensar: por que não tecnologia?”, conta Patrick Teyssonneyre, diretor de inovação da Braskem e mentor do Braskem Labs Scale, programa de aceleração que está em sua terceira edição e já ajudou no desenvolvimento de mais de 40 empresas de todo o Brasil.

De acordo com o executivo, uma boa parte dos novos empreendedores brasileiros é altamente preparada, possui experiência no mercado e está financeiramente mais estruturada. Tudo isso, evidentemente, impacta na qualidade dos projetos. “Até pouco tempo atrás, as empresas nacionais adaptavam soluções já existentes no exterior. Mas isso vem mudando. Hoje, o Brasil faz coisas que não se faz em lugar algum no mundo”, afirma Teyssonneyre, destacando os setores financeiro, de agronegócio e de saúde como os de maior potencial para as startups no país.

Aos olhos de um empreendedor, quanto maiores as dificuldades, melhores as possibilidades de se desenvolver algo realmente novo e que impacte na vida das pessoas. E, nesse sentido, o Brasil se mostra um oceano de possibilidades – já que não são poucos os problemas à espera de uma solução no país.

Tecnologia contra o Aedes aegypti

Há pouco mais de uma década, o Brasil voltou a conviver com um problema que já parecia solucionado: o mosquito Aedes aegypti, responsável por centenas de milhares de casos de dengue, chikungunya e zika vírus em todo o país. Se por um lado os surtos se espalhavam rapidamente, por outro, a falta de informações precisas sobre os principais focos das doenças dificultava o planejamento de ações de combate mais efetivas. O que era um problema para as autoridades de saúde se tornou uma oportunidade de negócio para o cearense Onício Batista Leal Neto, fundador da Epitrack, startup especializada no desenvolvimento de plataformas colaborativas de monitoramento de endemias.

Onício Neto, que é biomédico com especialização na área de saúde pública, teve a ideia de criar o Epitrack em 2013, momento em que o Brasil assistia a um surto de doenças relacionadas ao Aedes aegypti, motivado justamente pela falta de informações confiáveis sobre a epidemia. Ele desenvolveu um aplicativo que funciona de forma colaborativa, baseado nos relatos dos usuários. O cruzamento dessas informações com os dados de geolocalização fornecidos pelos pacientes permite mapear com precisão as áreas de risco, contribuindo assim para o aperfeiçoamento das políticas públicas.

Onício Batista Leal Neto, fundador da Epitrack, criou startup especializada no desenvolvimento de plataformas colaborativas de monitoramento de endemias

Onício Batista Leal Neto, fundador da Epitrack, criou startup especializada no desenvolvimento de plataformas colaborativas de monitoramento de endemias (Onício Neto/Divulgação)

O primeiro projeto nacional da Epitrack foi lançado em 2014, às vésperas da Copa do Mundo no Brasil. O aplicativo Saúde na Copa tinha como objetivo monitorar a situação das pessoas nas cidades-sede do mundial. “O engajamento era feito por meio de um jogo, no qual o usuário era convidado a responder a algumas perguntas simples relacionadas à sua saúde. No total, foram mais de 7 000 usuários e 47 000 registros no período da Copa”, afirma Onício Neto. “Em 2016, também fizemos um aplicativo parecido para a Olimpíada, o Guardiões da Saúde, que contou com mais de 10 000 usuários ativos durante o evento.”

Desde então, a empresa não parou mais de crescer. No ano passado, foi selecionada para o Braskem Labs Scale e passou por um profundo choque de gestão – o que levou à saída de um dos sócios e ao redirecionamento do negócio. Meses depois, Onício Neto foi convidado a participar de um programa de aceleração da Singularity University, instituição parceira da Nasa, agência espacial dos Estados Unidos, onde diz ter visto, de fato, como as tecnologias estão transformando a sociedade.

“Nós temos muito o que aprender com os Estados Unidos. No Vale do Silício, eles estão bem à frente tanto na questão da tecnologia quanto dos negócios”, diz ele, que lançou recentemente o Flu Near You, uma plataforma de monitoramento do vírus Influenza nos Estados Unidos e no Canadá, e deve apresentar nos próximos meses, no Brasil, um novo aplicativo de saúde sob demanda, que promete conectar médicos e pacientes. “Mas o Brasil está no caminho certo. Os empreendedores hoje estão mais preparados e têm cada vez mais acesso ao que está acontecendo lá fora. Isso fatalmente vai impactar na qualidade das nossas startups”, conclui o biomédico.