Peter Thiel, o controverso

David Cohen

A opinião sobre os empreendedores do mundo digital já foi melhor. Antes considerados heróis da economia, eles desfrutam hoje de uma imagem mais nuançada — em parte pela percepção de que a riqueza do mundo da tecnologia não tem atingido outros setores, em parte graças a seus exageros e extravagâncias.

De forma geral, o Vale do Silício é visto atualmente de modo duplo: seus empreendedores são considerados tanto geniais como geniosos, líderes visionários e gente que só pensa no próprio umbigo. Ninguém representa melhor essa dicotomia do que o empreendedor e investidor Peter Thiel.

Ele assumiu esse papel nos últimos dois meses, quando se envolveu não em uma, mas em duas polêmicas ao mesmo tempo: revelou-se como o financiador do processo que levou à falência o grupo jornalístico Gawker, como vingança por ter sido exposto como homossexual há quase dez anos; e tornou-se a voz empresarial mais influente (e uma das únicas no Vale do Silício) a favor do candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump.

Uma verdade com que poucos concordam

Criador do PayPal e o primeiro investidor externo do Facebook (façanhas que o tornaram bilionário), Thiel é uma das figuras mais admiradas do Vale do Silício. Ele ficou conhecido como líder da “máfia do PayPal”, um grupo de cofundadores e ex-empregados do site que inclui os também bilionários Elon Musk (que faria depois a Space X e a Tesla) e Reid Hoffman (que criaria o LinkedIn).

Thiel ainda ocupa uma cadeira no conselho do Facebook e seu fundo de investimento, o Founders Fund, deu impulso a iniciativas como Spotify, Airbnb, Space X, Lyft e sua nova empresa, Palantir, além de outra dezena de companhias, várias com valorização na casa do 1 bilhão de dólares.

No livro De Zero a Um, que lançou em 2014, Thiel diz que sempre que entrevista alguém para um trabalho pergunta: “Em qual importante verdade muito pouca gente concorda com você?” O objetivo, afirma, é identificar gente capaz de romper o consenso, sem medo de ser impopular. “O pensamento brilhante é raro, mas a coragem é um elemento em oferta ainda mais restrita que a genialidade.”

Esse gosto por decisões contrárias às estabelecidas parece ser a chave para entender o próprio Thiel. A ousadia já lhe deu — e tirou — fortunas. Quando vendeu o PayPal em 2002, Thiel montou o fundo de investimento Clarium, que aplicava dinheiro conforme suas opiniões pessimistas em relação às instituições americanas. Numa época de febre de valorização dos imóveis, ele apostou na queda de preços. Com o estouro da bolha, seu fundo deu um retorno de 59% na primeira metade de 2008.

O sucesso tornou o Clarium um fundo com 7 bilhões de dólares para gerir, mais de 700 vezes a verba com que iniciou os trabalhos, seis anos antes. Thiel passou a ser considerado um gênio das finanças. Só que ele manteve suas teses catastrofistas e no ano seguinte o fundo deixou passar as oportunidades de recuperação da economia. Como consequência, o Clarium perdeu mais de 90% de seu valor, demitiu a maioria de seus funcionários e se transformou numa firma de investimentos pessoais. Um desses investimentos, mantido em segredo durante anos, foi bem pessoal. No final de maio, a revista Forbes revelou que Thiel investiu 10 milhões de dólares para pagar custos de um processo por difamação contra o site jornalístico Gawker.

Paranoico e vingativo

Como frisaram vários analistas, nessa briga entre Thiel e o Gawker é difícil torcer por alguém. O Gawker, criado há 13 anos, era o site mãe de vários blogs que se especializaram em um jornalismo agressivo, irreverente, irresponsável. A reportagem que irritou Thiel, por exemplo, tinha o provocativo título de “Peter Thiel é totalmente gay, gente”, numa época em que o empresário revelara para apenas poucas pessoas que era homossexual.

Thiel nem de longe foi a única vítima do Gawker. O site também “tirou do armário” o CEO da Apple, Tim Cook, três anos antes de ele se declarar. Atacou Vinod Khosla, cofundador da Sun Microsystems, por seus investimentos em etanol, em companhias que supostamente usavam trabalho escravo, e o criticou por comprar uma casa no litoral de São Francisco e fechar o acesso público à praia. Chamava o criador do Twitter, Jack Dorsey, de sociopata, “que ferrou todos os seus amigos no Twitter”. Pior: descobriu e publicou poesias juvenis de Dorsey. Ridicularizou Marissa Mayer, CEO do Yahoo, fazendo graça de suas apresentações e tecendo comentários maliciosos sobre sua relação com Larry Page, do Google. Xingou Kalanick, do Uber, de “babaca” e sádico, além de apontar o Uber como a empresa mais odiada da América. Criticou Mark Zuckerberg, do Facebook, por comprar e demolir quatro casas vizinhas, ao custo de 30 milhões de dólares, para que ninguém o visse pela janela.

Como se vê, era um tipo de jornalismo com poucas rédeas — praticamente qualquer coisa que gerasse audiência estava valendo. Por mais esdrúxulas que fossem, no entanto, essas práticas de jornalismo barato também tiveram seus momentos de bons serviços. Alguns exemplos: o Gizmodo, um dos sites do Gawker, obteve um protótipo do iPhone 4 e adiantou todos os segredos que pôde em 2010; o Gawker fez uma campanha popular e arrecadou dinheiro para comprar um vídeo de um ex-prefeito de Toronto fumando crack; o site expôs a política de jornalismo “amigável à publicidade” do BuzzFeed e denunciou que o Facebook tinha um viés contra os conservadores em sua seção de notícias.

Era um jornalismo feroz, mas vigilante. Para o bem e para o mal, seu sucesso ajudou a moldar o jornalismo digital, especialmente o calcado em blogs. Até porque vários de seus profissionais foram contratados pela mídia tradicional.

No caso da reportagem sobre Thiel, pode-se dizer que o Gawker foi até (para seus padrões) respeitoso. O tom era de que já estava mais do que na hora de a indústria aceitar melhor os homossexuais: Thiel não “saía do armário” por temer que isso o prejudicasse nos negócios. Havia um componente de campanha pelo orgulho gay — tanto o autor da reportagem, Owen Thomas, como o dono do Gawker, Nick Denton, são homossexuais.

Thiel não encarou a situação da mesma forma. Segundo Denton afirmou em 2007, o empresário era tão paranoico que, quando ele começou a investigar o caso, recebeu uma série de mensagens “descrevendo a destruição que se abateria sobre mim, e sobre vários civis inocentes atingidos pelo fogo cruzado, caso a história fosse publicada”. Ninguém pode dizer que Thiel não tenha cumprido a palavra.

Para realizar sua vingança, ele patrocinou o processo de Terry Bollea contra o Gawker. Bollea, mais conhecido como Hulk Hogan, é um ex-lutador de luta livre. O Gawker publicou um vídeo em que ele mantinha relações sexuais com a mulher de um (ex) amigo.

Embora a reportagem fosse indiscutivelmente de mau gosto, estava nos limites do permitido para o jornalismo: Hogan é uma figura pública e ele próprio fazia propaganda de sua vida sexual para se promover. A princípio, aliás, Hogan não processou o Gawker por ter exposto sua privacidade; ele queria os direitos autorais do vídeo. Só quando não conseguiu um acordo é que entrou com o processo por invasão de privacidade.

Aí entrou Thiel. Porque, segundo explicou depois, “mesmo alguém milionário e famoso como Hogan não tinha recursos para custear uma ação dessas sozinho”. Thiel apoiou Hogan secretamente durante três anos. Só perto do final, quando um júri condenou o Gawker a pagar 140 milhões de dólares de indenização, sua participação foi revelada.

Com dívidas, o Gawker foi obrigado a pedir falência (assim como Nick Denton, responsável pelo site). Mesmo que uma corte de apelação reverta a decisão, o site está morto, vendido para a Univision em agosto.

Mas o envolvimento de Thiel levantou uma série de questões sobre o papel do poder financeiro nas cortes judiciais — e a ameaça que isso pode representar para o jornalismo independente. Por mais abjetas que fossem algumas das matérias do Gawker, sua marca era distinguir-se da cobertura tradicional de tecnologia, feita em geral por repórteres que dependem das empresas para ter acesso aos produtos e serviços e por isso tendem a tratar os empreendedores com suavidade, quando não reverência.

O melhor exemplo do desconforto que a ação de Thiel provocou foi uma reportagem satírica da revista Wired intitulada “Como nós podemos fazê-lo feliz hoje, Peter Thiel?” O texto aponta uma foto do empresário sorridente e afirma: “Você está vendo como ele está feliz nessa foto? É assim que nós queremos que ele se sinta toda vez que pensar em seus grandes camaradas da Wired: ‘Grande time, ótimos profissionais. Definitivamente não vou ficar irado e me associar a um ex-lutador para secretamente financiar um processo contra eles por alguma coisa que tenham escrito sobre mim’ ”.

De envergonhado a orgulhoso

Curiosamente, de alguma forma o Gawker também saiu vencedor. No final de julho, Thiel declarou ao mundo que tem orgulho de ser gay — em plena convenção do Partido Republicano, cuja plataforma definiu, na mesma semana, que o casamento é uma instituição “entre um homem e uma mulher”.

Numa coluna do jornal The New York Times em agosto, Thiel afirmou ter ficado feliz por ter sido aplaudido de pé numa arena lotada de republicanos, “porque o orgulho gay não deveria ser assunto partidário”. Seu ponto é que a política deveria tratar de outras coisas, como recuperar a “grandeza dos Estados Unidos”.

Provavelmente por isso, Thiel não se furtou a contribuir para as campanhas de Ted Cruz e Ron Paul, que concorriam contra Trump. Mesmo Cruz tendo prometido tornar sua oposição ao casamento gay um aspecto central da campanha. “Toda vez que leio sobre o apoio de Thiel a Trump, checo o calendário porque não estou completamente seguro de que não seja 1 de abril”, disse Max Levchin, amigo de Thiel e cofundador do PayPal, numa conferência de tecnologia em junho.

O apoio parece contraditório. Thiel não é apenas gay, ele defende a legalização da maconha e a liberalização da entrada de imigrantes, bandeiras que o Partido Republicano hostiliza. Numa entrevista em 2014, referiu-se a Donald Trump como “sintomático de tudo o que está errado com Nova York”.

Há quem acredite que seu apoio a Trump faça parte de uma tática de “quanto pior, melhor”. Para alguém que acredita que a política americana ruma para o desastre, ele seria o candidato capaz de arrasar o cenário político de tal forma que tudo teria de ser reconstruído do zero.

De qualquer forma, a possível contradição no apoio a Trump é mais regra do que exceção no caso de Thiel. Durante anos, por exemplo, ele foi um patrocinador do Comitê de Proteção aos Jornalistas, ao qual se declarava “um verdadeiro crente na importância crítica da liberdade de expressão”. Thiel só parou de apoiar o comitê em 2013, um mês depois de Hogan iniciar seu processo contra o Gawker.

Outra aparente contradição: Thiel é adepto da filosofia libertária, que coloca os valores individuais acima do pensamento de grupo ou da sociedade em geral, mas não hesitou em investir 500.000 dólares no Facebook em 2004 (sua participação na empresa vale hoje pelo menos de 1,5 bilhão de dólares). “Se eu fosse um libertário no sentido mais estreito, do tipo advogado pela filósofa Ayn Rand, eu jamais teria investido no Facebook”, afirmou certa vez. (No filme A Rede Social, o personagem Thiel dá o dinheiro a Zuckerberg e o aconselha a trair o sócio, o brasileiro Eduardo Saverin.)

Foi em parte a ideologia libertária que o fez criar o PayPal. A ideia era criar uma moeda virtual que pudesse driblar o controle governamental. Muito cedo, porém, essa visão foi destroçada pelos órgãos reguladores, que forçaram a startup a se tornar um meio convencional de pagamentos. Em vez de provocar uma “disrupção” no sistema bancário, o PayPal passou a operar dentro dele. Em 2002, a companhia foi comprada pelo eBay por meio bilhão de dólares (Thiel recebeu 55 milhões de dólares).

Em desacordo supostamente ainda maior com a ideologia libertária, sua nova empreitada, a startup multibilionária Palantir, vende serviços de análise de informações que ajudam o governo a identificar ameaças terroristas, farsantes e outros criminosos. Thiel afirma que não vende serviços de vigilância. Ao contrário. Ele disse à revista Forbes, certa vez, que sua empresa se baseia na missão de reduzir o terrorismo preservando as liberdades civis. Mas o exato serviço que a Palantir presta é um segredo.

“Nascido para vencer”

Alemão de nascimento, Thiel migrou com a família para os Estados Unidos em 1968, quando tinha apenas 1 ano. Seu pai, Klaus, era engenheiro e trabalhou em projetos em vários lugares do mundo. Peter estudou em sete escolas primárias diferentes, inclusive na África do Sul e na Namíbia. Sua educação foi rígida: ele não teve permissão para assistir à TV até por volta dos 12 anos.

Logo cedo Thiel revelou talento para a matemática e para o xadrez. Ele está perto do número 2.000 no ranking da Federação Internacional de Xadrez, pouco abaixo do título de candidato a mestre. O xadrez exemplifica seu caráter competitivo. Segundo um perfil de Thiel feito pela revista The New Yorker, alguns anos atrás, seu tabuleiro carrega o lema “nascido para vencer” e, nas raras ocasiões em que perdia, no colégio, ele era dado a explosões de ira. Costumava dizer então: “Mostre-me um bom perdedor e eu lhe mostrarei um perdedor”.

Em outra de suas aparentes contradições, Thiel distribui, desde 2011, bolsas de 100.000 dólares para 20 alunos de até 20 anos que queiram abandonar a faculdade — embora ele próprio tenha cursado filosofia e negócios em Stanford, onde fundou um jornal universitário. (E embora ele tenha sido professor de um curso em Stanford em 2012.)

Quando saiu da universidade, Thiel seguiu carreira em direito. No livro De Zero a Um, ele narra como ficou devastado ao não ser selecionado para um emprego na Suprema Corte, o qual, segundo achava, lhe garantiria o futuro. O empreendedorismo então não lhe passava pela cabeça.

Foi com seus amigos de Stanford que Thiel criou o PayPal. Seu maior concorrente era Elon Musk, que tinha uma empresa, a X.com, com a mesma proposta. As equipes viviam em guerra e Thiel alimentava o ódio. Até que um belo dia ele e Musk marcaram um encontro numa lanchonete a meio caminho das duas startups e selaram não só a paz, mas também o casamento dos negócios. Em 2002, ambos se tornaram multimilionários.

Misoginia, vampirismo e vida eterna

Não há na biografia de Thiel escassez de material para polêmicas. Sua fé libertária é uma das fontes delas. Saudoso de uma época em que todos os Estados Unidos eram mais parecidos com o Vale do Silício, em termos de inovação, com projetos como o domínio da energia nuclear ou a ida à Lua, e totalmente oposto a governos em geral, Thiel começou a financiar em 2008 uma organização chamada Seasteading Institute, devotada à construção de uma nova sociedade no meio do mar, onde seja possível iniciar as instituições do zero.

Segundo um artigo que escreveu para um jornal libertário em 2009, tudo começou a degringolar em 1920, quando as mulheres ganharam direito a voto — porque elas tendem a não apoiar a causa libertária. Por isso, Thiel disse então não acreditar mais que “liberdade e democracia sejam compatíveis”.

Outra fonte de polêmicas é sua obsessão com a morte. Ou melhor, com a possibilidade de evitá-la. Sua Fundação Thiel patrocina diversos projetos contra o envelhecimento. Em entrevista à revista Inc., ele se revelou muito interessado numa técnica chamada parabiose — basicamente, transfusões de sangue de pessoas jovens, que teriam o milagroso efeito de rejuvenescer o recipiente (e que foram maldosamente apelidadas de vampirismo por alguns sites).

Não ficou claro se Thiel estava de fato entre os pacientes da companhia Ambrosia, que realiza as transfusões, mas o site Gawker (sempre ele) afirmou ter recebido informação de que Thiel gasta “40.000 dólares por trimestre para receber sangue de um jovem de 18 anos, com base em pesquisas de Stanford que conseguiram estender a vida de ratos com essa técnica”.

Fora o sangue, Thiel admitiu que toma pílulas de hormônio do crescimento, como parte de seu plano de viver até os 120 anos. “Elas ajudam a manter a massa muscular, então você fica menos sujeito a ter problemas nos ossos e artrites”, afirmou à Bloomberg TV.

Ele também investe milhões de dólares na Fundação Methuselah, um grupo de pesquisa em avanço da longevidade. Para se garantir, Thiel está inscrito num programa de criônica da companhia Alcor, um processo de preservação do corpo em baixas temperaturas quando (ou, no seu caso, se) morrer.