Para especialistas, inovação virá com educação e igualdade de gênero

Congresso Brasileiro de Inovação na Indústria reuniu nomes importantes do mercado de tecnologia e inovação em São Paulo

São Paulo – Para inovar mais, o Brasil precisa melhorar o nível de educação da população e adotar práticas mais efetivas de igualdade de gênero. É o que disseram especialistas que discursaram no primeiro dia do 8º Congresso Brasileiro de Inovação na Indústria, realizado em São Paulo nesta segunda-feira (10).

Laércio Cosentino, fundador e presidente do conselho de administração Totvs, acredita que na necessidade de melhorar a educação básica, pensando no futuro, e a educação técnica, como solução para o presente. “As reformas no governo vão acontecer, mas, em seguida, teremos o grande desafio de qualificação. Quando falamos de tecnologia de informação, as universidades brasileiras formam 45 mil pessoas por ano e já precisamos de 70 mil pessoas por ano no mercado. Se não conseguirmos qualificar as pessoas, teremos um apagão no setor que vai afetar negativamente a economia”, declarou Cosentino, durante o congresso.

O empreendedorismo, apesar de ter ganhado força no Brasil nos últimos anos, ainda precisa ser reforçado nas universidades. José Claudio Cyrineu Terra, diretor de inovação e gestão do conhecimento do Hospital Israelita Albert Einstein, vê o mercado brasileiro com poucas inovações bem-sucedidas vindas de faculdades de exatas. “Entre os últimos 10 unicórnios do Brasil, todos são bem-sucedidos em razão de seus modelos de negócios. Em universidades americanas, há cultura de empreendedorismo no mercado de tecnologia. Eles são estimulados a conhecer mecanismos de negócios e empreender com captação de capital de risco”, diz Terra. Segundo estudo do MIT (Masachussetts Institute of Technology), publicado no livro Innovation in Brazil, o Brasil tem montante similar de investimentos vindos do governo e da iniciativa privada, apesar de ter produzido poucas patentes em relação à média global.

Para atrair investimentos, um dos fatores que atrapalha o Brasil é a incerteza, na avaliação de Rafael Steinhauser, presidente para a América Latina na Qualcomm. “O Brasil compete mundialmente e por isso precisamos de boa segurança jurídica e regulatória. Ninguém vai investir em um país em que há incertezas desse tipo”, declarou Steinhauser no evento. Apesar dessa percepção, a empresa anunciou recentemente a abertura de uma fábrica em Jaguariúna para produção de semicondutores de alta densidade, que, importados, custam 20 bilhões de dólares ao ano para o Brasil. Com a produção local, que deve começar em 2020, o país poderá gerar emprego e o módulo produzido aqui, chamado SIP-1, visa o desenvolvimento mais ágil de smartphones em território nacional.

Steinhauser fala ainda sobre a importância da internet 5G, que ainda está em estágio embrionário no Brasil, apesar de já disponível em países como Estados Unidos e Coreia do Sul. “Na indústria 4.0, isso ajudará a se libertar dos cabos, facilitar a descentralização industrial do futuro próximo. Poderemos produzir qualquer objeto em qualquer planta do mundo”, disse o executivo.

E os talentos?

Além da educação, desafio já antigo do Brasil, o país precisa também de mais iniciativas de igualdade de gênero, na visão de especialistas. Gianna Sagazio, diretora de inovação, Confederação Nacional da Indústria (CNI) e superintendente nacional no Instituto Euvaldo Lodi (IEL), a igualdade de gênero ainda é um desafio grande no país. “Nós temos apenas 39% de mulheres em cargos de gerência, segundo o IBGE. Não conseguiremos nos tornar um país inovador e desenvolvido se não incluirmos as mulheres nesse processo de desenvolvimento. E o Senai e o Sesi são grandes exemplos de como podemos empoderar as pessoas e prepará-las para os trabalhos do futuro”, disse Sagazio.

Já Tânia Cosentino, presidente da Microsoft Brasil, vê que as empresas perdem a oportunidade de ter profissionais importantes ao não promover a igualdade entre sexos no mercado de trabalho. “Podemos estar desprezando metade dos talentos brasileiros. Trazer as mulheres para competir de igual para igual é algo benéfico para toda a sociedade. Por que isso precisa demorar 100 anos para acontecer?”, afirmou Cosentino.