O japonês que investe US$ 100 bi em tecnologia de ponta

Em um ano, o Vision Fund, do bilionário Masayoshi Son, investiu em 12 companhias e mapeou dezenas de outras. O plano é transformar o mundo

San Francisco – No final de julho, quando Eric Gundersen, executivo-chefe de uma startup de mapeamento, conheceu Masayoshi Son, líder do conglomerado japonês SoftBank, esperava lhe vender a ideia do que faz a Mapbox ser tão importante.

Mas Son, de 60 anos, não precisou ser convencido de que a tecnologia da plataforma, usado pelos motoristas da frota do Lyft e por empresas como a Snap e a Mastercard, tinha valor. Depois de um namoro rápido, o Vision Fund de quase 100 bilhões de dólares, divulgado pelo SoftBank em outubro passado, composto de dinheiro da Arábia Saudita e outros países, liderou um investimento de 164 milhões de dólares no Mapbox, fato que foi anunciado em 10 de outubro.

No processo, Son também explicou a Gundersen seus planos de desenvolver o fundo. O bilionário japonês disse acreditar que os robôs vão mudar a força de trabalho inexoravelmente e que as máquinas serão mais inteligentes que as pessoas, em um acontecimento chamado de “singularidade”. Como resultado, sua intenção é possuir participações em todas as empresas que possam sustentar as mudanças globais causadas pela inteligência artificial no transporte, na alimentação, no trabalho, na medicina e nas finanças.

“A visão de Masa não inclui apenas previsões como a Singularidade, muito badalada no momento. Ele entende que iremos precisar de uma enorme quantidade de dados para chegar a um futuro mais dependente de máquinas e robótica”, disse Gundersen.

O que Son expôs a Gundersen ajuda a explicar por que o SoftBank e seu Vision Fund investiram centenas de bilhões de dólares em mais de 12 companhias, aparentemente aleatórias, desde o anúncio do fundo.

Os investimentos vão desde a startup de software de robótica Brain Corp. e a empresa de cultivo interno Plenty, até companhias de maior destaque, como a Slack, que faz softwares administrativos. Os acordos vão desde os pequenos investimentos em startups até grandes negócios com empresas públicas.

No entanto, todas essas companhias têm algo em comum: estão envolvidas na coleta de uma enorme quantidade de dados, cruciais para criar o cérebro de máquinas que, no futuro, farão nosso trabalho, criando assim ferramentas que permitam que as pessoas coexistam melhor.

Recentemente, o SoftBank se envolveu em um plano para comprar quase vinte por cento das ações do Uber, a maior empresa de caronas compartilhadas do mundo, que está transformando o setor de transportes.

O SoftBank tenta acumular ações com uma oferta que poderia valorizá-la ainda mais; seu valor atual é de 68,5 bilhões de dólares, de acordo com pessoas que conhecem as negociações, e que falaram sob a condição de anonimato, pois os detalhes eram confidenciais. A oferta ainda não está concretizada, segundo uma delas.

Caso as negociações se confirmem, Son seria o proprietário de partes significativas das companhias de caronas globais, pois o SoftBank já possui ações das rivais do Uber, como a Didi Chuxing, na China, e a Ola, na Índia. Ao todo, a empresa teria uma rede que reúne dados logísticos valiosos e operam grandes frotas conectadas, que podem trabalhar bem com a tecnologia de carros autônomos.

“Dados sobre localização são importantes e fundamentais para o desenvolvimento das tecnologias mais excitantes”, disse Rajeev Misra, que ajuda a administrar o Vision Fund, sobre a Mapbox em uma declaração no dia 10 de outubro. Ele acrescentou que o investimento era parte do plano do SoftBank de pôr dinheiro na “infraestrutura fundamental da próxima etapa da revolução da informação”.

O SoftBank não quis fazer comentários para este artigo.

Há mais de duas décadas Son vem renovando consistentemente o SoftBank com aquisições e investimentos, para mantê-lo na vanguarda. A empresa começou em 1981 como distribuidora de softwares para PCs no Japão, expandindo-se para os EUA, em 1994, com a compra da Comdex, operadora de comercialização de computadores.

Ele mais tarde se tornou o maior acionista do Yahoo, iniciou o Yahoo Japão e, na última década, investiu em empresas de banda larga e telecomunicações – o SoftBank concordou em comprar a maioria da Sprint por 21,6 bilhões de dólares em 2012 –, antecipando a necessidade de conexões velozes. Investiu também em empresas de e-commerce, incluindo o Grupo Alibaba, da China, e o Gilt Groupe, além de empresas de videogames como a Supercell e de mídia, como o HuffPost e o BuzzFeed.

Em um discurso em Nova York em setembro, Son declarou que, em 30 anos, haverá tantos robôs sencientes no planeta quanto humanos, e que esses “trabalhadores do colarinho metálico”, como os chama, vão fundamentalmente mudar o mercado de trabalho.

“Todas as indústrias que a humanidade estabeleceu e criou, até mesmo a agricultura, serão redefinidas, pois as ferramentas que criamos no passado eram inferiores ao cérebro humano. Agora, elas estão mais inteligentes que a própria humanidade”, disse Son.

Recentemente, ele teve essa mesma conversa com vários outros empresários, pois sua meta é ampliar os investimentos do Vision Fund. Muitos empreendedores disseram que as conversas de Son vão de discussões filosóficas sobre o impacto da tecnologia na humanidade até as minúcias de um problema técnico.

Ele disse recentemente a Matt Barnard, executivo-chefe da Plenty, que os computadores estavam inaugurando uma revolução na agricultura inédita desde a invenção do arado. Son investiu 200 milhões  de dólares na Plenty em julho, parte de um plano para transformá-la na líder mundial de cultivo interno. A Plenty, que não possui fazendas suficientes em operação, planeja agora adquirir a primeira em South San Francisco, que será inaugurada até o fim do ano.

“Acho que ele gosta mesmo da gente. Eu diria que o que temos em comum com seus outros investimentos é que todos são parte de um grande sistema por todo o mundo: energia, transporte, internet e alimentos.”

Alguns empresários atravessam o mundo para passar algum tempo com Son em sua casa cinematográfica em Woodside, na Califórnia, e em seus escritórios na Índia, em San Francisco e em Tóquio. O líder do SoftBank está sempre sorrindo e falando calmamente. Raramente atende a telefonemas, e sua assinatura de e-mail inclui um ícone da ventoinha que mostra que um computador está sendo ligado, ou “pensando”.

Muitos empresários falam sobre Son com reverência.

“Só aqueles que de fato são próximos dele sabem o quanto sua visão é ampla”, disse Eugene Izhikevich, executivo-chefe da Brain Corp., empresa localizada em San Diego que produz software para controlar robôs.

Os engenheiros de Son descobriram a Brain Corp. quando procuravam uma tecnologia de carros autônomos. Izhikevich logo se reuniu com ele para falar sobre robótica, e sobre a forma na qual os britânicos trabalhavam, 200 anos atrás, quando a elite agrária não punha a mão na massa, mas inventava novas coisas e melhorias de negócios.

Como muitos outros empresários, Izhikevich disse que o SoftBank se movimentou “assustadoramente rápido” para fechar o investimento. A equipe de Son passou centenas de horas analisando os negócios da Brain Corp., concluindo a tarefa em poucos meses

Diferentemente de outros investidores, Son, que já está até falando sobre um segundo Vision Fund, não participa das operações diárias da maioria das empresas nas quais investiu. O negócio com a Sprint ainda não foi concluído e pode estar dependendo da fusão com outra empresa. Quando alguns investimentos se arrastam, como foi o caso da Snapdeal, loja on-line da Índia, ele investiu na concorrência, pondo US$2,5 bilhões na Flipkart, empresa indiana rival de e-commerce.

Alguns empresários disseram que a assombrosa velocidade de investimento de Son com o Vision Fund provavelmente não vai diminuir.

“Masa tem pressa. Ele vê uma oportunidade única onde tudo o que tocamos pode se transformar em mercado, e que estamos no início de uma nova revolução industrial”, disse Vijay Sharma, executivo-chefe da startup indiana de pagamentos digitais Paytm, na qual o SoftBank investiu US$1,4 bilhão em maio.

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