O guru Steven Johnson conta de onde vem a inovação

Steven Johnson, autor do best-seller “De onde vêm as boas ideias” conta o que descobriu em anos estudando a inovação

São Paulo — Em outubro, deve estrear no canal de TV americano PBS a série How we got to now (Como chegamos ao presente), sobre a história das grandes invenções. Steven Johnson, o apresentador da série, já escreveu diversos livros sobre inovação, além de ter feito palestras em eventos como o TED sobre esse tema.

Em seu livro De onde vêm as boas ideias, publicado no Brasil pela editora Zahar, Johnson detalha a fórmula que leva ao aparecimento de grandes ideias – da luz elétrica à internet.

Johnson esteve em São Paulo na semana passada, participando de um evento do Google. Conversamos com ele sobre como ser criativo e ter ideias bem sucedidas. Veja os melhores trechos da entrevista:

EXAME.com: De onde vêm as boas ideias?

Johnson: Vêm de todos os lugares. O que fiz ao escrever aquele livro foi observar a inovação em áreas como tecnologia, ciência, medicina e arte. Encontrei elementos comuns que favorecem a inovação em todas essas áreas. 

EXAME.com: Qual foi a conclusão mais importante?

Johnson: Uma das mais importantes é que não existe aquele momento eureca, em que alguém tem uma súbita iluminação e descobre algo brilhante. As melhores ideias começam como palpites vagos e demoram anos para ser desenvolvidas. É o que eu chamo de palpite lento.

Uma característica dos bons inovadores é que conseguem trabalhar na ideia por muito tempo. Tim Berners Lee, por exemplo, desenvolveu a World Wide Web durante mais de cinco anos antes que ela estivesse pronta para ser revelada ao mundo. Já a invenção da lâmpada elétrica demorou mais de 20 anos e envolveu muitas pessoas.

EXAME.com: A inovação é, cada vez mais, um trabalho de equipe?

Johnson: Sim. O modelo gênio solitário não funciona. As melhores ideias surgem quando pessoas com habilidades diversas abordam o mesmo problema e trocam ideias entre si. Se cada uma delas apresenta uma visão diferente da situação, há chances maiores de surgir uma boa solução.

Uma das razões por que a Tesla tem sido tão bem sucedida em reinventar o automóvel é que Elon Musk tem três empresas – uma de energia solar, uma de tecnologia espacial e outra de automóveis. E há intensa colaboração entre as três. 

EXAME.com: Como alguém pode ser mais inovador e criar um produto de sucesso?

Johnson: Um conselho que dou é: tenha hobbies. Algo que percebi sobre os inovadores é que eles trabalham num problema principal, mas também têm outros interesses. Um empreendedor que funda uma startup tecnológica às vezes coleciona modelos de trens, toca guitarra ou tem obsessão por discos de vinil.

Isso ajuda a olhar o problema por ângulos variados. A pessoa pode estar tocando guitarra em casa. De repente, ela observa como a partitura está disposta no papel e tem uma ideia para a interface gráfica do software que está desenvolvendo. 

EXAME.com: Como melhorar o intercâmbio de ideias com outras pessoas?

Johnson: É preciso manter contato com pessoas de perfis variados. As redes sociais podem ajudar nisso. Eu sigo uma mescla de pessoas interessantes no Twitter – escritores, políticos, arquitetos, gente de tecnologia…  Sigo pessoas que são diferentes de mim.

Em geral, a melhor parte não é o que eles escrevem, mas os links que publicam. É a maneira como encontro filmes, livros e artigos interessantes. São recomendados por especialistas em áreas que eu não conheço tão bem. 

EXAME.com: Há alguma ferramenta que possa ajudar alguém a inovar?

Johnson: Uma que eu uso é um documento de texto no Google Drive onde anoto as ideias que tenho. É um documento único que criei há nove anos. Já tem 7 mil palavras, mais do que qualquer um dos meus livros. Tento ler novamente o texto todo a cada cinco ou seis meses. Uma ideia que não fazia sentido em 2007 talvez faça sentido agora. 

90% do que escrevi lá eu nunca vou usar. Mas os outros 10% são boas ideias que acabam sendo aproveitadas em algum livro, palestra ou projeto de startup. Como releio o documento inteiro a cada seis meses, mantenho essas ideias vivas.

EXAME.com: Há quem diga que as startups inovam mais que as grandes empresas. Isso é verdade?

Johnson: Não. Nós só ouvimos falar das startups bem sucedidas. Mas 90% delas fracassam. Isso distorce nossa percepção. Não vemos os projetos ruins dessas empresas – só os bons. Google, Apple, Amazon, Microsoft e Facebook são empresas grandes e maduras. E elas inovam bastante. 

O setor de tecnologia encontrou, no Vale do Silício, uma maneira de trabalhar com a inovação. Ela funciona tanto em empresas iniciantes como em companhias maduras. Mas há companhias mais antigas que não absorveram essa forma de trabalhar. Elas não conseguem inovar à maneira do Vale do Silício. 

EXAME.com: Qual é a fórmula do Vale do Silício para inovar?

Johnson: Se olhamos para os escritórios do Google, por exemplo, vemos que o próprio arranjo do espaço incentiva a inovação. Vemos pessoas conversando, trocando ideias. É um ambiente propício à criatividade. Estamos falando de uma empresa com 50 mil funcionários. Mas isso funciona numa organização pequena também.

Outro item que já virou cliché é a valorização das falhas. No Vale do Silício, se você procura um investidor para financiar um projeto e nunca teve um fracasso antes, isso conta pontos contra você. É um indício de que você não se arriscou o bastante. 

Em ambientes de negócio mais tradicionais, o profissional que fracassa pode ser demitido. Mas as grandes empresas inovadoras encontram uma forma de incorporar a tolerância a falhas no dia a dia. O Google teve muitos projetos que fracassaram, como o Google Wave. A cultura da empresa incentiva experimentos e tentativas.

A Apple não faz tentativas em público como o Google. Mas há muita gente testando coisas malucas dentro da empresa. Internamente, ela também encoraja os fracassos.

EXAME.com: Quais são os erros mais comuns quando alguém tenta inovar?

Johnson: Tenho visto tentativas toscas de imitar o Google. Nós pusemos uma mesa de pingue-pongue aqui. Por que as pessoas não estão inovando?, dizem. Essas empresas copiam o que é superficial. Mas mantêm uma estrutura organizacional muito vertical, metas rígidas demais e outras políticas que não incentivam a criatividade.

Outra coisa que desestimula a inovação é manter as pessoas em silos. Há empresas onde o pessoal de marketing só conversa com o pessoal de marketing, os engenheiros com os engenheiros e assim por diante. É preciso manter pessoas com perfis variados conectadas para que haja mais inovação.

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Este vídeo (dublado em português) resume algumas ideias de Johnson:

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