Nem adianta buzinar porque o robô ao volante não escuta

Desenvolvedores observam a interação entre carros autônomos e motoristas humanos, para se preparar para um futuro em que ambos compartilharão as ruas

Washington – Em termos de acidentes de automóvel, não foi grande coisa: doze minutos antes do meio-dia em um dia fresco de junho, a traseira de um Chevrolet Bolt foi atingida quando o carro avançava lentamente depois de ter parado em um semáforo no centro de São Francisco.

O que chamou a atenção para essa pequena batida foi o motorista do Bolt: um computador.

Na Califórnia, onde empresas como Cruise Automation e Waymo estão intensificando os testes de carros autônomos, os motoristas humanos continuam batendo neles em colisões em baixa velocidade. Essas batidas ressaltam um conflito cultural entre os seres humanos, que muitas vezes tratam as leis de trânsito como diretrizes, e os carros autônomos, que se recusam a passar em um sinal vermelho ou exceder o limite de velocidade.

“Eles não dirigem como pessoas. Eles dirigem como robôs”, disse Mike Ramsey, analista da Gartner especializado em tecnologias automotivas avançadas. “Eles são estranhos, e é por isso que são atingidos.”

As empresas agora estão testando veículos autônomos de Phoenix a Pittsburgh, e os desenvolvedores estão observando de perto como eles interagem com os motoristas humanos para se preparar para um futuro em que ambos compartilharão as ruas.

Eles concluíram que, embora as pessoas possam ter medo de um veículo descontrolado sem um motorista ao volante, a realidade é que os veículos autônomos são excessivamente cautelosos. Eles avançam devagar depois de parar completamente diante de uma placa de “Pare” e obedecem à lei ao pé da letra — ao contrário dos seres humanos.

Suavizar essa interação é uma das tarefas mais importantes para os desenvolvedores da tecnologia, disse Karl Iagnemma, CEO da desenvolvedora de software de direção autônoma NuTonomy.

“Se os carros dirigirem de um jeito muito distinto ao modo em que todos os outros motoristas nas ruas dirigem, no pior dos casos, haverá acidentes, e, na melhor das hipóteses, frustração”, disse ele. “Isso vai levar a uma menor probabilidade de que a população aceite a tecnologia.”

Os sensores incorporados aos carros autônomos permitem que eles “vejam” o mundo com muito mais precisão que os seres humanos, mas os carros têm dificuldade para transformar as pistas visuais das ruas em previsões sobre o que poderia acontecer a seguir, disse Iagnemma. Eles também têm dificuldade para lidar com situações novas e desconhecidas.

A Califórnia é o único estado que exige especificamente relatórios quando um veículo autônomo se envolve em um acidente. Os registros mostram que os veículos em modo autônomo foram atingidos na parte traseira 13 vezes no estado desde o início de 2016, do total das 31 colisões que envolveram carros autônomos, de acordo com o Departamento de Veículos Motorizados da Califórnia.

“Você coloca nas ruas um carro que pode estar dirigindo rigorosamente de acordo com a lei, mas, em comparação com os demais usuários ao redor, ele está agindo de forma muito conservadora”, disse Iagnemma. “Isso pode levar a situações em que o carro autônomo seja um peixe fora d’água.”

Uma porta-voz da Cruise, que foi adquirida pela General Motors no ano passado, disse que os relatórios de acidentes falam por si mesmos.

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  1. Lissandro Bassani

    Os chimpanzés raivosos evoluídos se recusam a continuar a evoluir e perder a sua essência. A mentira, o jeitinho, a interpretação “orientativa” das leis vai continuar pautando as ações dos humanos por muito tempo. Isto é até exaltado nas obras de ficção científica onde as audácias e pequenos desvios dos protagonistas humanos servem para salvar o dia, em detrimento do seguimento das normas. Claro, normas podem ser imperfeitas. Porém no caso do trânsito raramente o são. As pessoas não sabem/gostam de seguir regras, então elas acabam sendo criadas com mais inibição do que o efeito prático que se quer. (Ex. limite 55MPH mas “todo mundo” anda e tolera até 65~70 pelas estradas de lá). Falta bom senso, mas isto é nebuloso para uma máquina que segue as regras e tem pleno controle do mecanismo.