Manning, o jovem que embaraçou os EUA e deu fama ao Wikileaks

Washington - Apesar de baixinho e do aspecto frágil, o soldado Bradley Manning, condenado nesta quarta-feira a 35 anos de prisão, pôs em xeque o governo dos Estados...

Washington – Apesar de baixinho e do aspecto frágil, o soldado Bradley Manning, condenado nesta quarta-feira a 35 anos de prisão, pôs em xeque o governo dos Estados Unidos, deu relevância para Julian Assange, fundador do Wikileaks, e provocou um efeito dominó considerado um dos catalisadores da Primavera Árabe.

Com apenas 22 anos, Manning, um analista novato enviado ao Iraque, vazou milhares de documentos ao Wikileaks, até então um pequeno portal e que, por causa dele, se transformou em pesadelo da inteligência americana.

Foi esse vazamento que o manteve preso aguardando julgamento por três anos, causou a condenação a 35 anos de prisão e o fez ser expulso com desonra do exército americano. Manning sofreu mais de 20 acusações, que incluem violação da lei de espionagem, roubo de informação propriedade do governo americano, fraude e abuso de sua posição de confiança nas Forças Armadas.

O jovem, hoje com 25 anos, entregou 470 mil registros das guerras do Iraque e Afeganistão, 250 mil correspondências do Departamento de Estado e outros documentos confidenciais que se tornaram um transtorno para a diplomacia americana e alimentaram um debate sobre o papel dos Estados Unidos no mundo e sua obscura guerra contra o terrorismo islâmico.

Manning nasceu em dezembro de 1987 em Oklahoma, filho de pai americano, ex-militar e consultor de informática, e mãe inglesa, de Gales. Antes de se unir às Forças Armadas, às vésperas de completar 20 anos, passou por uma infância e uma adolescência traumáticas.

A mãe de Manning, Susan Fox, tinha problemas de alcoolismo, e a irmã mais velha, Casey Major, assumiu os cuidados da casa antes mesmo de completar 12 anos.

A infância e adolescência de Manning foram vividas em uma família desestruturada, onde as brigas eram frequentes e nenhum dos adultos se responsabilizava adequadamente pela casa e pela família.

Em 2001, após uma disputa conjugal, os pais de Manning se divorciaram e Bradley viveu alguns anos no País de Gales com a mãe, para depois voltar aos Estados Unidos com o pai para, finalmente, acabar morando em uma caminhonete na rua.

Sua tia, Debra Van Alstyne, o acolheu em 2006 em sua casa nos arredores de Washington e se transformou em um pilar essencial na vida do jovem, que começava ainda a lidar com a própria homossexualidade.

Em uma tentativa de dar sentido a sua vida e ter acesso a uma educação universitária que não tinha como arcar, Manning decidiu ingressar nas Forças Armadas como analista de inteligência, posição que não exigira o nível físico de tropas em campo.

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Após um ano de treino militar, Manning conseguiu se graduar como analista da 11ª de Infantaria de Montanha em Fort Drum, em Nova York.

Já nessa época começou a mostrar dificuldades de adaptação à disciplina militar e para lidar com a condição de homossexual, que o Pentágono não permitia expressar livremente até o fim de 2011.

Apesar dos problemas, no final de outubro de 2009, Manning foi enviado ao Iraque, onde foi encarregado de analisar bases de dados com informação confidencial do Pentágono para melhorar a resposta em campo de batalha aos ataques da dissidência.

Segundo seu próprio testemunho, a dureza de algumas das ações bélicas que analisou o levou a sentir necessidade de fazer com que o mundo soubesse das injustiças que cometia seu país para “mudar as coisas”.

Seu primeiro vazamento para o Wikileaks aconteceu no início de 2010. Foi o vídeo “Colateral Damage”, que mostra um massacre de civis e de dois funcionários da agência “Reuters” no Iraque em 2007.

O vídeo mostra a frieza dos pilotos que decidem atacar em uma região onde há civis e onde os supostos rebeldes armados não são mais do que um jornalista com câmera. Com a enorme repercussão da fita, Manning se colocou objetivos de inteligência mais ambiciosos.

Durante a primavera de 2010, seguiu juntando informação e manteve contatos com membros do Wikileaks.

Depois vieram registros de ações de guerra no Iraque e no Afeganistão, informação sobre a prisão de Guantánamo (Cuba), sobre operações clandestinas da CIA e a correspondência do Departamento de Estado, publicados na imprensa no último trimestre de 2010.

Aquelas comunicações revelaram os segredos dos Estados Unidos no exterior e foram um catalisador de revoluções da Primavera Árabe, como a que derrubou o governo autoritário de Zine El Abidine Ben Ali na Tunísia.

Após sua detenção em maio de 2010, ao ser descoberta sua relação com um vídeo vazado que mostrava um ataque em Bagdá, Manning passou um tempo internado em uma base militar no Kuwait e foi transferido para Quântico, na Virgínia, onde durante quase nove meses foi submetido a um duro regime de vigilância considerado ilegal pela juíza Denise Lind.

Após uma longa fase preparatória, o julgamento de Manning começou em junho de 2013, depois de o soldado se declarar culpado das acusações menos graves por ter fornecido documentos secretos ao Wikileaks.

Na fase final da sentença, Manning pediu perdão aos Estados Unidos pelo prejuízo causado e pediu já com a voz embargada à juíza Lind uma segunda oportunidade pelos erros de um passado que “não pode mudar”.