Jogo “Fortnite” vira ferramenta de lavagem de dinheiro

Moeda digital do jogo é adquirida por golpistas usando cartões roubados e revendida por preços mais baixos no mercado negro

São Paulo — Fenômeno global, com mais de 200 milhões de jogadores, o jogo “Fortnite” tem sido usado por criminosos globalmente para lavagem de dinheiro. Foi o que revelou uma reportagem do jornal inglês The Independent. Em uma investigação conduzida junto à empresa de cibersegurança Sixgill, a publicação descobriu esquemas que envolvem cartões de crédito fraudados e compra e revenda de moedas virtuais do game, os chamados V-Bucks.

O dinheiro digital é adquirido pelos golpistas usando dados financeiros roubados e revendido por preços mais baixos do que os praticados pela Epic, desenvolvedora do jogo. A investigação encontrou diversos “pacotes” de V-Bucks mais baratos à venda na dark web, o “mercado negro” da internet. Também foram identificados anúncios de moedas virtuais “com desconto” em plataformas como Twitter e Instagram. Os especialistas descobriram operações sendo conduzidas em inglês, chinês, russo, espanhol e árabe.

Segundo a reportagem, não é possível estimar quanto os golpistas já ganharam com a prática. Mas é notável que as menções a Fortnite na dark web cresceram muito nos últimos anos, acompanhando o aumento na popularidade do game. Não chega a ser uma surpresa, no entanto — é uma movimentação que acontece com praticamente qualquer fenômeno na web.

O que torna o caso mais grave é a falta de mobilização por parte da Epic. A empresa não respondeu aos contatos do The Independent e também não parece estar muito interessada em adotar medidas que inibam “atividades ilegais” no jogo, que rendeu a ela 3 bilhões de dólares de lucro em 2018. Entre as ações que os desenvolvedores ainda não tomaram, estão o monitoramento de grandes movimentações financeiras no jogo e o acompanhamento de atividades de usuários com grandes quantidades de dinheiro virtual.

Problemas com a popularidade

O caso de lavagem de dinheiro ilustra bem até onde vai a criatividade dos golpistas para se aproveitar do sucesso de “Fortnite”. Porém, antes mesmo deste último escândalo, diversos relatos já mostravam que cibercriminosos estão se aproveitando do nome do jogo, mas para prejudicar os jogadores até mais diretamente.

Uma análise da empresa de segurança ZeroFox revelou, em outubro do ano passado, mais de 4.700 endereços online dedicados a golpes relacionados ao game. A pesquisa também identificou vídeos no YouTube e links em redes sociais prometendo acesso fácil a V-bucks e outros benefícios. As páginas às quais os usuários acabavam redirecionados eram todas falsas, no entanto, servindo apenas para extrair dados dos jogadores mais desavisados, como logins, senhas e até números de cartão — o que pode gerar um ciclo.