Fabricantes de jogos recorrem à IA para viciar jogadores

A tecnologia oferecida pela Silicon Studio permite que criadores de jogos moldem o comportamento do jogador para deixá-los viciados

Na atual indústria de jogos, títulos como Clash Royale e Pokémon Go são gratuitos para a maioria das pessoas porque um pequeno número de jogadores paga por recursos extras, como armas especiais e mais vidas. Neste modelo que oferece gratuidade para jogar, os desenvolvedores precisam encontrar o delicado equilíbrio entre atrair as massas e incentivar os jogadores que gastam muito — e precisam de ambos para ter um título de sucesso.

A Silicon Studio está tentando ajudar, fornecendo às fabricantes de jogos algoritmos de aprendizagem profunda para criar um perfil psicológico de cada jogador. O software da empresa com sede em Tóquio prevê o tempo que as pessoas passaram jogando, quais níveis elas poderiam alcançar, quanto dinheiro poderiam gastar e em que. E o mais importante: a tecnologia permite que criadores de jogos moldem o comportamento do jogador para deixá-los viciados.

“Os dados de jogos são perfeitos para estudar o comportamento humano”, disse África Periáñez, cientista-chefe de dados da Silicon Studio e ex-física nuclear na organização europeia de pesquisa nuclear CERN. “Isso vai mudar o setor, mudar o rumo dos jogos personalizados.”

O software de aprendizagem de máquina, chamado Yokozuna Data em referência ao nível mais alto no sumô, está atraindo clientes. Três editoras japonesas de capital aberto e uma desenvolvedora sul-coreana decidiram usar o produto, disse Periáñez, que não revelou nomes por causa de acordos de confidencialidade. A empresa também está conversando com grandes editoras europeias de jogos de RPG on-line, disse Periáñez. As ações da Silicon Studio chegaram a subir 3,8 por cento na bolsa de Tóquio.

As editoras de jogos japonesas e sul-coreanas foram pioneiras na arte de ganhar dinheiro com títulos gratuitos para jogar. Durante anos, elas empregaram as equipes chamadas Live Ops, que usam eventos, competições e ofertas por tempo limitado para que as pessoas paguem. À medida que essas técnicas amadurecem, as empresas estão se voltando para a inteligência artificial e a mineração de dados para influenciar os jogadores — estratégias semelhantes às usadas por Google e Facebook para direcionar anúncios publicitários.

A Silicon Studio foi fundada em 1999 como uma unidade da Silicon Graphics, a fabricante norte-americana dos computadores de alto desempenho utilizados para criar os efeitos especiais de “Jurassic Park”. A empresa foi separada no ano seguinte para se concentrar em ferramentas de software para outras fabricantes de jogos, como Yokozuna, e desenvolver seus próprios jogos.

Yokozuna, que esteve em desenvolvimento durante dois anos, pode adaptar as promoções a grupos ou indivíduos específicos. Por exemplo, usuários em risco de abandonar um jogo como Puzzle & Dragons, da GungHo Online Entertainment, podem passar a ter mais facilidade para ganhar monstros raros ou avançar com mais rapidez nos níveis do jogo. Para o Pokémon Go, da Niantic, o Yokozuna poderia ajudar a agendar eventos extras para um fim de semana prolongado — e personalizar as distâncias percorridas a pé com base na atividade.

O software Yokozuna, da Silicon Studio, faz parte de uma tendência maior entre pesquisadores de inteligência artificial que analisam desafios complexos em videogames, além do xadrez e do Go. Muitos dos avanços recentes no processamento de linguagem natural e no reconhecimento de imagem e voz vieram da aprendizagem profunda, uma subdisciplina da IA que trabalha com dados com rótulos humanos. Os ambientes dos videogames são uma boa fonte de dados porque cada interação é registrada.

“Nenhum outro campo tem dados melhores”, disse Periáñez, que anteriormente trabalhava em previsões de assinaturas móveis e vendas da Coca-Cola. “Você pode medir hábitos continuamente durante anos.”