Fábrica de drones made in Brazil

Katia Simões

Quando criança, Giovani Amianti, paranaense de Rolândia, sonhava ser engenheiro da Nasa, a agência espacial americana. Foi aprovado no curso de engenharia mecatrônica na Escola Politécnica, da Universidade de São Paulo, com esse objetivo. No quarto ano, ainda fascinado pelo espaço, começou a acompanhar com atenção as primeiras notícias sobre os veículos aéreos não tripulados que chegavam ao Brasil (na época, esses veículos eram conhecidos pela sigla Vant; hoje, todos se referem a eles como drones mesmo). De leitura em leitura e diante da insistência do professor Antonio Marioni, da área de mecânica e fluidos, acabou desenhando um plano de negócios para produzir o próprio Vant. Era o fim do sonho de trabalhar na Nasa, mas o começo de uma trajetória empreendedora.

“Percebi que eu tinha uma oportunidade muito grande de trabalhar com esses pequenos veículos”, afirma Amianti. “Não eram os foguetes com que eu sonhava na infância, mas uma inovação que ocuparia um espaço enorme de mercado num futuro próximo.” Estava certo. Em 2015, o setor faturou 100 milhões de reais no Brasil. Somos o quinto maior mercado em um negócio que engatinha, e a expectativa é que nos próximos dez anos essa indústria fature 90 bilhões de dólares no mundo, de acordo com a consultoria americana Teal Group, especializada em indústria aeroespacial.

Considerado por muitos um brinquedo de luxo, o certo é que o Vant pode ter múltiplas funções, desde fazer as vezes de cineasta, geólogo e bombeiro até atuar nas Forças Armadas, na agricultura de precisão e no varejo. Algumas redes americanas, entre elas a Amazon, já usa VANT para entregar seus produtos.

O Brasil abriga 14 dos 44 fabricantes de drones da América Latina. A XMobots, fundada por Amianti em 2007, é uma das maiores. A empresa, com sede em São Carlos, no interior de São Paulo, transformou-se em menos de uma década na quinta maior do mundo no desenvolvimento e na fabricação de Vant para mapeamento. Com capacidade produtiva de 12 equipamentos mensais, vendeu no ano passado 28 unidades, o que elevou o faturamento de 3,2 milhões de reais, em 2014, para 5,8 milhões de reais, no ano passado. Neste ano, a meta é chegar a 12 milhões.

Uma das grandes apostas da empresa é o Nauru 500A, um equipamento com 5,5 horas de autonomia de voo, 15 quilos de peso e que voa a uma altura de 3.000 milhas, ideal para policiamento de áreas não urbanas, monitoramento de fronteiras terrestres e marítimas, operações de policiamento ambiental, fiscalização fundiária, entre outras ações.

Da linha de produção da XMobots também saíram o Apoena 1000B e o Echar 20B. O primeiro é um Vant de 32 quilos com autonomia de voo de 8 horas que foi o primeiro a operar na Amazônia para mapear e quantificar o desmatamento legal necessário para a realização das obras no rio Madeira. O segundo é um mini-Vant que, segundo Amianti, tem a maior capacidade de mapeamento do mundo. Os preços variam de 90.000 a 520.000 reais.

Para um país com vocação para o campo, como o Brasil, a agricultura é o maior mercado da XMobots. A empresa desenvolveu novas tecnologias para integrar aos drones, como softwares de processamento específicos para cada tipo de cultura, ferramentas para aumentar a precisão sem a necessidade de pontos de controle no solo, além de softwares de controle e gerenciamento capazes de tornar as aeronaves cada vez mais inteligentes. Paralelamente, iniciou a comercialização de helicópteros com voos 100% autônomos e movidos a combustão para a pulverização de defensivos em aplicações localizadas.

Para dar saltos maiores, a empresa precisa derrubar o tão famoso custo Brasil. “Esbarramos na falta de legislação específica, o que impede o crescimento do mercado para uso comercial e o desenvolvimento dessa indústria”, diz Amianti. A expectativa é que a nova legislação seria publicada até a Olimpíada, o que não ocorreu devido à intensidade das demandas geradas pelo setor durante audiências públicas promovidas pela Agência Nacional de Aviação Civil. Segundo a Anac, a meta é regulamentar o setor até o final do ano.

“Temos um vasto mercado a explorar, é certo que, num curto espaço de tempo, esses veículos tomarão conta do espaço aéreo brasileiro, principalmente no ambiente agrícola”, afirma Kalinka Castelo Branco, professora no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação, da USP de São Carlos. Depois da agricultura, a XMobots está investindo também para ganhar espaço no crescente mercado de cidades inteligentes. Espaço para crescer não falta. Concorrência também não — de empresas novatas a gigantes, como a fabricante de eletrônicos Sony e a empresa de processadores Qualcomm. Para quem cresceu com o sonho de ir para a Nasa, a ambição de chegar longe não deve ser um problema para Amianti.