Explicamos as letrinhas que definem o nome de um carro

Os nomes dos carros podem ser verdadeiras charadas para os desavisados — e nem sempre é fácil decifrá-los

 (Divulgação/Reprodução)

Convenhamos: se perguntarem a algum desavisado se HR-V e HB20 são irmãos de linha de produção, a resposta poderia ser:

— Obviamente que são. Afinal — raciocínio lógico —, os nomes começam com H.

Daí virá alguém mais antenado e dirá:

— Você está maluco? Um é o SUV da Honda e o outro, o compacto da Hyundai. Preste atenção, rapaz!

Calma lá com a descompostura. Ninguém é obrigado a saber decodificar essa sopa de letrinhas e números.

E — não custa atenuar o fora do nosso amigo —, pensando bem, há pelo menos um ponto em comum entre ambos: são asiáticos, um de montadora japonesa, outro de coreana.

 

O fenômeno de codificar os nomes dos carros como se ainda se referissem a um projeto secreto é comum. Muitas marcas se valem de abreviações e números, que podem parecer grego aos desavisados e encontram semelhanças nos concorrentes.

Quer alguns exemplos? A1 (hatch da Audi) e ASX (SUV da Mitsubishi), XC 60 (SUV da Volvo) e X1 (crossover da BMW), C3 (hatch da Citroën) e C-180 (sedã Mercedes), 307 (hatch da Peugeot) e 320 (sedã da BMW)…

O que esses modelos têm a ver um com o outro? Absolutamente nada, a não ser o fato de ter a denominação parecida — ao menos à primeira vista.

De dentro para fora, entretanto, esses números e siglas têm a sua lógica, obedecendo cada qual o universo de cada marca. E, embora possam soar confusos, o objetivo é criar uma linha de raciocínio para o mercado.

Sem contar que, em uma economia globalizada, os modelos são vistos com a mesma identidade nos quatro cantos do mundo.

Grosso modo, os carros são divididos pelo tamanho da carroceria, pela característica do motor e pela especificidade de uso. A utilização da letra e do número obedece a critérios de engenharia ou de marketing de cada montadora.

Na BMW, por exemplo, adota-se de forma subliminar, quero dizer, sem explicitar essa palavra no corpo da carroceria, a denominação “Série” para a linha principal, seguida de um número que indica o tamanho do carro e o porte do motor.

Assim, o Série 1 é menor do que os Série 2, 3, 4, do mesmo modo que o 328 é mais potente que o 320, e assim por diante. Os modelos que trazem a letra M fazem parte da divisão esportiva, enquanto os X são os utilitários esportivos, seguindo a mesma lógica: X3, X4, X5.

 (Reprodução/Revista VIP)

Na Audi, o padrão é utilizar a letra “A” para os carros-chefes: A1, A2, A3, A4… O Q simboliza os SUVs; o RS e o S, os esportivos; o R8, o superesportivo; e o TT, o roadster.

Já na Mercedes-Benz, tudo é uma questão de “Classe”, em uma lista extensa que, a um leigo, reconheçamos, mais confunde do que explica: A, B, E, S, GLA, CLA. A AMG quase que tem vida própria, dada a sua esportividade de puro-sangue.

Cabe então a pergunta: como criar uma relação afetiva com o carro, com nomes não tão expressivos, sem muita bossa, cartesianos? Não é à toa que os orgulhosos proprietários acabam se referindo ao seu carro pela marca: “Minha BMW”, “meu Audi”, “minha Mercedes”, “meu Volvo”…

Até a abertura das importações, era comum o motorista adotar um apelido para o ser motorizado, como se ele fosse um bicho de estimação, a despeito dessas máquinas serem batizadas com um nome pronunciável (Fusca, Opala, Corcel, Brasília), e não por letras e números — se bem que, lembrando melhor, tinha o 147, da Fiat…

Cresci ouvindo amigos se referirem ao seu modelo com uma denominação própria qualquer, como “Johnny”, “Tião”, “Z’w”, ou bem-humorada, como “Caranga”, “Dick Vigarista” ou o genérico “Pois é”, digamos que um sinônimo para carro que só encrencava.

Dia desses, folheando um livro lançado nos Estados Unidos sobre apelidos de carros, (99 Nicknamed Classic Cars, de Michael Köckritz, disponível na Amazon), me dei conta de que esse procedimento afetuoso faz parte da história do automóvel mundial, e não só do Brasil.

Quem, afinal, nunca ouviu falar no Besouro (VW Fusca), no Asa de Gaivota (Mercedes-Benz 300 SL)? Mesmo os menos conhecidos do mercado brasileiro ganharam um apelido familiar aos nossos ouvidos.

 (Reprodução/Revista VIP)

Quer ver? A Ferrari 308 GTS é o “Magnum”, em referência ao detetive da série de TV da década de 80 que rodava com o modelo esportivo, o ator Tom Selleck.

Parênteses: conta o livro que o ator preferia circular em um Porsche, tendo em vista que a Ferrari era pequena para o seu 1,90 metro de altura. O Aston Martin DB5, óbvio, é o “Bond Car”; a McLaren M8D, o “Batmóvel”; e o Porsche 356, a “Lady”.

Um dos personagens mais impagáveis do livro é o veículo militar Land Rover S2A, chamado de “The Pink Panther”. A cor não tem nada de sexismo: o rosa foi usado para camuflar o brutamontes nas paisagens do deserto.

O que fica de conclusão depois da agradável leitura é que a adoção de um apelido está diretamente ligada à relação afetiva do homem com a máquina.

Claro, nem sempre o batismo se dá por uma admiração. Um defeito recorrente ou uma característica nata, como um barulho marcante, um chacoalhar indevido, um estilo fora do comum, podem gerar um “Pau Velho”, um “Metaleiro”, uma “Vedete”.

De qualquer forma, são nomes melhores que aquele monte de letras e números… A não ser que essa identificação já tenha entrado para a história, como um Porsche 911 ou uma Ferrari F40. Três toques que soam como uma sinfonia.