Espionagem ameaça líderes políticos que mantêm celulares comuns

Chefes de Estado usam diariamente smartphones comuns, que podem facilitar as tentativas de espionagem

Os chefes de Estado ou líderes políticos estão equipados com sofisticados aparelhos para se comunicar ou trocar informações sensíveis, mas também usam diariamente smartphones comuns, que podem facilitar as tentativas de espionagem.

Na quarta-feira (23), a Alemanha afirmou que o telefone celular da chanceler Angela Merkel “podia ter sido espionado pelos serviços americanos”. Merkel pediu explicações ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que afirmou que seu país não vigiava suas comunicações.

Segundo o jornal Tagesspiegel de Berlim, que cita fontes governamentais, o telefone celular em questão não é o telefone codificado que Merkel utiliza como chanceler, mas o que possui como presidente do partido cristão-democrata CDU.

Mas uma agência de notícias alemã afirmou que se trataria efetivamente de seu telefone celular oficial, que supostamente deveria ser ultraprotegido.

O governo alemão está dotado há vários meses de smartphones Blackberry Z10 (2.500 euros cada um) especialmente protegidos.

Na França, os membros do executivo têm telefones celulares criptografados (de 3.300 euros), produzidos pela empresa francesa Thales (eletrônica e defesa) exclusivamente para o Estado. Estes aparelhos permitem comunicações protegidas até o nível de “segredo de Estado”.

Alguns líderes políticos e funcionários de alto escalão também possuem uma intranet muito protegida e uma rede ministerial de telefonia fixa e fax.

Mas estes sistemas são encarados frequentemente como um incômodo por seus utilizadores, já que exigem protocolos ou procedimentos de utilização às vezes muito pesados: por exemplo, o Teorem leva até 30 segundos para efetuar uma chamada devido as suas chaves de segurança, o que pode se tornar irritante em uma época na qual as comunicações são cada vez mais rápidas.

Privados de Gmail e Google

Em uma circular de 19 de agosto – quando o ex-consultor da Agência Nacional de Segurança americana (NSA) Edward Snowden já havia revelado a magnitude da espionagem dos Estados Unidos na Europa – os serviços do primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault, fizeram um alerta aos ministros sobre a questão da segurança de suas comunicações.

Ela afirma que “a utilização de smartphones não autorizados deve excluir a comunicação de informações sensíveis” e que estas devem ser feitas apenas com os telefones ultraprotegidos.

Todos os líderes políticos, empresários, banqueiros ou jornalistas que adquiriram um telefone criptografado “têm paralelamente ao menos um iPhone ou um Blackberry”, explica à AFP Robert Avril, fundador da sociedade pioneira Cryptofrance, que lançou em 2008 seus primeiros telefones codificados.

“Apesar de todos os conselhos que damos, e do fato destes líderes ouvirem atentamente, quando chegam em casa dizem que isso (ser espionado) é algo que só acontece com os outros. E não paramos de aconselhar nossos clientes para que não tenham conversas profissionais ou enviem e-mails com smartphones normais”, afirma.

“Os militares têm cuidado, mas quando se trata de políticos é uma catástrofe, custam muito a entender que devem utilizar telefones codificados, não são conscientes dos riscos, têm vários telefones e estão acostumados a utilizar instrumentos como Google e Gmail”, explicava recentemente Hervé Shauer, administrador da Clusif, a mais importante associação francesa em matéria de cibersegurança.

Segundo vários especialistas em cibercriminalidade, o uso do Teorem irritava particularmente o ex-presidente francês Nicolás Sarkozy. Seu sucessor, François Hollande, teria conservado seu smartphone pessoal ao chegar ao poder, como complemento dos demais aparelhos codificados.

Já Barack Obama chegou em 2009 à Casa Branca precedido por uma reputação de grande fã do Blackberry, mas precisou lutar para conservar seu smartphone, antes de obter um modelo ultraprotegido aceito pela equipe jurídica da presidência e pelo Serviço Secreto, que protege os presidentes.

A ideia era evitar colocar em risco a vida de Obama, cuja posição exata poderia ser revelada por seu telefone, mas também respeitar a lei que indica que todas as comunicações presidenciais sejam arquivadas.

“Tenho um Blackberry. Mas apenas dez pessoas têm” seu endereço de e-mail, lamentou Obama em uma entrevista de 2010. “E devo dizer – acrescentou -, não é divertido: como sabem que acabará nos arquivos presidenciais, ninguém quer me enviar coisas que sejam realmente divertidas”.