Entrevista: uma paulistana no Vale do Silício

Isabel Pesce, 24, decidiu viver no Vale do Silício e hoje ajuda mais de 1 milhão de pessoas a organizar seu caos financeiro com o aplicativo Lemon

São Paulo – Com quatro diplomas do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e passagem por grandes empresas de tecnologia como Google e Microsoft, a paulistana Isabel Pesce, 24, decidiu viver no Vale do Silício e hoje ajuda mais de 1 milhão de pessoas a organizar seu caos financeiro com um aplicativo.

Sabe aqueles comprovantes de cartão de crédito ou débito e notas fiscais que normalmente têm a lixeira como destino certo? Eles podem evitar inúmeras surpresas no final do mês, principalmente a terrível pergunta “para onde foi meu dinheiro?”. Mas se você já sentiu um calafrio só de pensar em armazenar, organizar e somar todos os temidos papeizinhos em uma planilha no Excel, não entre em pânico. Esse é um dos trabalhos do Lemon.

Gratuito, o aplicativo permite que cada recibo em papel seja convertido para uma versão eletrônica. Tudo que o usuário precisa fazer é tirar uma foto. A imagem é enviada aos servidores do Lemon por uma conexão segura. Os dados serão analisados e devolvidos de uma maneira muito mais inteligente. Suponha que você comeu um lanche e tirou uma foto da nota fiscal pelo app.

A informação será devolvida com o nome do estabelecimento, sua categoria – que no caso será “Food & Dinning” (comida e jantar) e “Fast food” (lanches) -, quantia gasta e forma de pagamento, além de outros dados como data, hora e local da transação. Isso sem você precisar digitar nada. Pense em todos os gastos realizados ao longo de um mês. Se eles forem enviados ao aplicativo, você terá um raio X  perfeito e acabará com dúvidas do tipo: será que estou comprando muitas besteiras? Gastamos muito com restaurantes?

Se por algum motivo uma informação for interpretada de maneira incorreta, o usuário pode editá-la com poucos cliques. Se um comprovante foi perdido e você não teve chance de tirar uma foto, é possível inserir todos os dados manualmente.  Para tornar a organização ainda mais completa, é possível criar categorias de pagamento dividindo os recibos entre gastos da empresa ou pessoais, por exemplo.


Além do plano gratuito, o Lemon oferece um pacote pago mais detalhado. Com uma assinatura de 9,99 dólares ao mês ou 99 dólares ao ano, o plano de dados permite rastrear em detalhes o destino de cada gasto, inclusive com o valor de cada um dos itens de um recibo e navegação sem anúncios.

Apesar de a solução já pronta parecer mágica e simples, a história da Lemon surgiu muito antes dos oito meses de sucesso do aplicativo. O empresário e investidor-anjo Wences Casares, responsável pela Bling Nation, uma empresa de pagamentos para dispositivos móveis que conecta instituições e consumidores por redes sociais, se juntou a Meyer Malka (co-CEO na Bling Nation) para montar uma solução de finanças pessoais. Apesar das tentativas, o negócio não vingou.

No início de 2011, os dois decidiram amadurecer a ideia com base na experiência adquirida e precisavam de um plano de negócio, além de alguém para dar corpo ao serviço. Com essa necessidade, eles conheceram Isabel, uma jovem brasileira com experiência em startups e temporadas na Microsoft, Google e Deustch Bank.

Com investimento de 8 milhões de dólares das empresas Lightspeed e Maveron, o desenvolvimento do aplicativo e seus recursos não demorou muito. Em outubro de 2011, ele foi publicado nas lojas de dispositivos rodando iOS, Android e Windows Phone. Já no mês de lançamento, o Lemon registrou 400 mil downloads. Mas como essa jovem que aprecia um bom papo conseguiu ter sucesso onde tantos outros falham? Sua história pode tornar as coisas mais claras.

Nascida em uma família de classe média em São Paulo, Isabel nunca tinha ouvido falar sobre o MIT até o ensino médio. Cursando um colégio particular de São Paulo, ela se preparava para os vestibulares nacionais de engenharia elétrica ou da computação – seu objetivo era passar no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), uma das instituições mais concorridas do país.

“Fiquei doida na época. Eu nunca havia morado em outro país, não tinha experiência e nunca tinha cogitado estudar fora. Me encantei com a possibilidade de ingressar na faculdade norte-americana em um curso básico depois definir seu rumo”. Pensando na possibilidade de conhecer outro país, vivenciar uma nova cultura e cursar matérias de engenharia e música ao mesmo tempo, ela decidiu arriscar.


Ao se familiarizar com o processo seletivo, a vestibulanda descobriu que já havia perdido os prazos de algumas das etapas. Mesmo assim, conseguiu o endereço de um entrevistador e sem nenhum convite bateu à sua porta. Isabel conseguiu ser aprovada em todas as fases de seleção, inclusive no SAT (Scholastic Aptitude Test), espécie de ENEM norte-americano.

Quando recebeu a carta de admissão, em 18 de março de 2006, ela já cursava o primeiro mês de engenharia na USP. Com o início das aulas marcado para o segundo semestre, foi preciso correr para preparar todos os detalhes da viagem. Ao final dos quatro anos, a empreitada rendeu a ela os diplomas de ciências da computação, matemática, economia e administração.

Isabel trabalhou por dois verões na Microsoft como estagiária. Por lá, desenvolveu agregadores de RSS e até coordenou uma equipe que elaborou um serviço para identificar gestos a partir de uma webcam. Junto com outros colegas, ela foi convidada para conhecer a casa de Bill Gates. Na ocasião, os estudantes conheceram a família e o guru da empresa em um churrasco.

De lá, saltou para o programa de mestrado profissional do Google, em uma parceria da empresa com o MIT. Em Mountain View, ela trabalhou dentro do Google Translate, na equipe que deveria aprimorar o serviço. Em seu segundo ano de faculdade, participou de uma competição para montar um plano de negócios, a MIT 100K.

A competição é aberta a quem já está no mercado, desde que ao menos um integrante do time seja aluno do MIT. “Aprendi muito a empreender, afinal alguns participantes já eram donos de até cinco empresas”. O grupo de Isabel avaliou os problemas da penetração do setor de telecomunicação na África. “Com isso, aprendemos a identificar um problema, uma necessidade, e criar uma solução. Inventamos um telefone que era uma espécie de walk-talk, com alcance de até 15 km. Cada aparelho funcionava como uma antena. Era como uma rede peer-to-peer de celulares. Chamamos o aparelho de mashphone”. O projeto acabou sendo um dos finalistas.


Como diretora de desenvolvimento de negócios na Lemon, Isabel tem o desafio de superar a fase a inicial e converter a base de usuários gratuitos em assinantes de serviços. “Na nossa estratégia lançamos um produto grátis nos três primeiros meses. Ainda teremos uma versão free, mas apostamos nas funcionalidades pagas do gestor”, diz Isabel. Outra preocupação é tornar o aplicativo renovável, fazendo com que os usuários sempre recebam algo novo e tenham incentivos para continuar no serviço.

Infelizmente, o Lemon só está disponível em inglês. No entanto, há planos para expandir as fronteiras do aplicativo. O negócio viu um rápido crescimento. Com menos de um ano de vida, a startup já tem 19 membros em sua equipe, incluindo os fundadores, e a tendência é que esse número fique ainda maior. Mesmo formatado para o mercado norte-americano, Isabel conta que o Lemon é utilizado em cerca de 200 países.

Isso faz parte da estratégia inicial, que consiste em aprimorar o serviço e utilizar uma base de dados mais consistente. De fato o Lemon mudou bastante com o feedback dos usuários. No começo a solução só trabalhava com base nos recibos e chegou a oferecer três planos pagos. Para facilitar as coisas, agora há somente a versão gratuita e a com assinatura. O time também incluiu funcionalidades extras, como inserir cartões de crédito e débito para gerenciar os dados de maneira ainda mais eficiente.

Mesmo com o sucesso da Lemon, Isabel tem em seus planos abrir outro negócio no futuro. E desta vez em sua terra natal. “O Brasil é um terreno muito promissor e o mercado está aquecido. Sem dúvida há espaço para que muita coisa legal aconteça”. Para dividir um pouco do que aprendeu no MIT e em sua empreitada nos EUA, a paulistana conta suas histórias no livro “A Menina do Vale”, publicado gratuitamente no formato digital em maio, que já foi baixado por meio milhão de usuários.