Em Barcelona, o futuro da mobilidade

Vanessa Mathias, de Barcelona

Terminou nesta quinta-feira a Mobile World Congress (MWC), conferência que reúne os líderes das indústrias de telecomunicação, que por quatro dias transformou novamente Barcelona na capital do mundo móvel e no epicentro da inovação mundial.

Se dez anos atrás o MWC era o evento onde operadoras e fabricantes de celulares lançavam suas principais novidades, hoje os players são outros. Praticamente tudo que é inventado – automóveis, geladeiras, drones, tratores, equipamentos médicos, moedas eletrônicas, relógios, lentes de contato – tem um componente móvel.

Por isso, o evento não abriga apenas Orange, Verizon, Samsung, Huaweii , mas também Mastercard, Ford, BMW, Roche e dezenas de indústrias que você não esperaria encontrar.

Aos homens de terno e gravata, juntaram-se os tênis coloridos dos publicitários, as camisetas das startups, os óculos dos videomakers, e –  finalmente – muitas saias. Para aumentar a diversidade, o programa trouxe o Women4Tech, programa dedicado a trazer mais mulheres para as indústrias da tecnologia.

Ao mesmo tempo também aconteceu o YoMo o festival que trouxe 11.000 jovens de 10 a 16 anos da Espanha para expor e incentivá-los a seguirem a carreira da tecnologia. Além disso a organização trouxe o NextTech, pavilhão separado que trazia as novidades de realidade virtual, robôs e drones.

E com essa diversidade de público e expositores, também era de se esperar uma explosão de temas novos, que passaram da sempre presente capacidade de banda ao atualíssimo debate sobre inteligência artificial. Abaixo, um compilado das inovações apresentadas em Barcelona que estão mudando e vão mudar o mundo nos próximos anos.



AI: Mais que móvel, verdadeiramente inteligente

Quando a eletricidade surgiu no mundo, tudo mudou: das jornadas de trabalho à educação, novos produtos surgiram, e com eles novas demandas econômicas e sociais.  Assim foi também com o aparecimento da Internet.  Pois bem, estamos no momento de um novo gatilho de uma nova revolução de mesma proporção: a inteligência artificial.

Sem dúvida foi o tema estrela da conferência e permeou quase todas as palestras. O sistema de aprendizado da máquina através de redes neurais é aplicado a quase tudo apresentado nesses quatro dias.

Um exemplo é o Skin Advisor da marca de cosméticos Olay, que através de um equipamento que se aproxima da pele, identifica o tipo de tratamento antienvelhecimento que ele deve usar. Outra febre são os famosos chatbots: ferramentas para os aplicativos de mensagem (como o Facebook messenger e o Telegram) que através do entendimento da linguagem natural do usuário pode “conversar”, fazer ofertas, ou mesmo jogar. A inteligência artificial pode ser utilizada também na agricultura, com robôs que identificam o estado da terra, que tipo de adubo ou tratamento precisam, para duplicar a produção sem uso de químicos ou pesticidas. As aplicações são infinitas, como ficou claro em Barcelona.

Robôs, Drones e veículos

Se a inteligência artificial é a cabeça, robôs, drones e veículos conectados são alguns dos corpos que ela pode ocupar. Estrelaram pelo WMC vários assistentes pessoais-robôs como a Pepper, da japonesa Softbank, que conversa com seus donos, identifica suas emoções e gestos, e se adapta aos seus hábitos (lembram de Rose, do Jetsons? Pois é… ). Menos humanóides, na feira havia braços robóticos de altíssima precisão para o uso industrial ou inclusive médico, superando o que um cirurgião conseguiria fazer utilizando apenas sua habilidade natural.

Drones tiveram toda uma seção à parte. Mais do que apenas filmes aéreos, os drones estão passando a ter novas utilidades, como  por exemplo a série M200 da DJI: os robôs farão inspeções nos fios elétricos, turbinas de vento, painéis solares… existem até drones-bombeiros para não colocar em risco humanos em incêndios. Interessante também foi a formatação de drones não apenas como produto, mas como um serviço. A Vodafone e a Huawei se uniram para montar um serviço de aluguel de drones, ainda em fase embrionária — afinal, não são todos os fazendeiros que terão vontade de aprender a dirigi-lo.

Os carros também tomaram conta do pavilhão em Barcelona — a Daimler, BMW, Ford e Peugeot marcaram presença apresentando diversas funcionalidades. A Peugeot foi uma das mais impressionantes, conectada à plataforma Samsung Artik IoT, focada na chamada internet das coisas, e a empresa de ciência de dados Sentiance, identificando e fazendo um perfil do condutor do veículo. Ficou claro que o futuro próximo dos carros será: conectado, inteligente, elétrico e autônomo.

Internet of Everything

Se a inteligência artificial estará em qualquer equipamento, o que acontecerá quando tudo isso estiver interconectado: devices, veículos, sensores pessoais, em todos os lugares? Novidades não faltam. Desde a escova de dente da marca Kolibree, que sabe quando e como você escovou o dente, até a marca de sapatos com solas “inteligente” da Lechal, que vibram para apontar o caminho, Há ainda a sua geladeira que reconhece quais ingredientes faltam ao drone que faz a entrega dos produtos restantes na sua varanda diretamente do supermercado, em minutos. Um mundo, a princípio, muito mais eficiente e com controle sobre suas próprias ações.

5G: a estrutura para a conexão que precisaremos

Imagine nesse mundo hiper conectado a quantidade de dados disparados ao mesmo tempo para todos os carros se auto-dirigirem, todas as indústrias e seus equipamentos operarem, milhões de vídeos em 360 graus serem produzidos em tempo real?  Se hoje já temos dificuldade em baixar 5 minutinhos um vídeo no Youtube no ônibus, esse mundo parece irreal.

Mas essa será a tecnologia 5G, 100 vezes mais rápida do que a nossa 4G. Praticamente seria uma internet “instantânea”, capaz de fazer streaming ao vivo de filmagens 360 graus para realidade virtual ao vivo e para qualquer equipamento. A Qualcomm, a Intel, e algumas outras empresas de telefonia estão tratando de normatizar essa tecnologia, que poderá estar ponta já no começo de 2020.

VR, AR, e “Realidade misturada”

A corrida de ouro atual está na realidade virtual: cada vez as ferramentas estão mais sofisticadas. O pavilhão NextTech era lotado de experiências com os diversos tipos de óculos, desde as já famosas montanhas russas, mas também andar em outros planetas, aprender com realidade virtual, aplicações na área médica — acompanhando uma cirurgia em primeira pessoa — até a indústria de “entretenimento adulto”.

Enquanto as histórias ficam cada vez mais imersivas, podendo interagir com a realidade em segundo plano, nenhum gadget ainda é capaz de atingir as massas — quem você conhece que efetivamente tem um em casa? A realidade aumentada, no entanto, ganhou no ano passado o público geral — o fenômeno
Pokemon Go provou que o caminho é usar um equipamento que já está no bolso de qualquer um. Por isso a aposta dos gigantes da área para o ano é em VR Mobile e realidade aumentada no próprio celular.

E finalmente… gadgets…

A parte mais divertida da feira é, sem dúvida, acompanhar as novidades tecnológicas. Mesmo que elas não sejam tão novidade assim. Ao contrário de todas as tendências, a Nokia veio lembrar que ainda há espaço para um mero telefone (no caso, um 2G com características básicas).  Ela trouxe das tumbas o seu antigo
Nokia 3310, o famoso celular do jogo da cobrinha.

Entre os carros mais curiosos, o primeiro carro de corrida elétrico e autônomo, Roborace. A Sony trouxe o Xperia Touch, um projetor que transforma  qualquer superfície em tela. O SuperM Charge da Meizu é uma bateria que carrega seu celular em apenas vinte minutos (Aleluia!)

O WMC é mais que uma conferência sobre a mobilidade, não é só sobre tecnologia e equipamentos, é sobre o fenômeno da conexão. É revolucionário, dinâmico. É a força atrás das inovações desse novo mundo. Até por isso que o tema desse ano foi “The next Element” – assim como o carbono, o mobile é a base de tudo. O elemento essencial por trás de todas as coisas.

Ficou curioso para saber mais? As principais palestras estão disponíveis aqui.