O e-mail morreu

Antigo sinônimo de comunicação eficiente, ele está perdendo lugar para ferramentas mais ágeis e informais - como redes sociais, mensageiros isntantâneos e blogs

Na turma da faculdade de direito da estudante Paula Roese Mesquita, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, toda a comunicação virtual acontece pelo Orkut — da discussão sobre temas de provas a convocações para festas. Afinal, tudo o que é comentado entre eles fica registrado na tela, evitando assim uma interminável troca de mensagens eletrônicas entre os colegas de classe. “É muito melhor. Quando abro um e-mail, já fico com preguiça de responder, porque em geral são longos e formais”, diz Paula. A preferência é comum a muitos jovens no mundo. Eles fazem parte de uma geração que está abandonando o e-mail em favor de redes sociais (como o Orkut), comunicadores instantâneos (como o MSN) e mesmo o Twitter. Em setembro, 59 milhões de pessoas acessaram comunidades e ferramentas de mensagens instantâneas no Brasil, ante 28 milhões de usuários de e-mails, segundo o instituto de pesquisa Ibope Nielsen Online. O tempo gasto com mensagens eletrônicas foi de apenas 2 horas por mês, menos da metade do tempo despendido com comunicadores instantâneos. “É a prova de que o e-mail, do jeito como o conhecemos, está com os dias contados”, diz César Taurion, gerente de novas tecnologias da IBM Brasil.

A necessidade de tornar a comunicação mais ágil é o principal motivo para a morte gradual do e-mail. Há 20 anos, aguardar a resposta de uma carta durante dias era algo tão corriqueiro quanto irritante. Com a popularização da internet, houve uma verdadeira revolução nos costumes — e o tempo para uma troca de mensagens caiu para apenas algumas horas ou minutos. Como o mundo e a tecnologia não param de avançar, agora vão ficando evidentes as desvantagens — e os limites — do e-mail. Na opinião dos especialistas, ele deverá ser consolidado como um meio de comunicação sem interação, usado apenas por quem não precisa de respostas urgentes. Quem tem pressa recorrerá cada vez mais a alternativas como bate-papo virtual, mensagens de texto via celular (SMS) ou redes sociais. O Twitter é hoje uma das ferramentas que melhor caracterizam a essência da interação virtual. Por mensagens de até 140 caracteres, um usuário pode avisar instantaneamente dezenas de amigos sobre uma promoção recebida no emprego ou sobre a falta de luz em um bairro. As mensagens dispensam o “Oi, tudo bem?” introdutório do e-mail padrão e não exigem resposta de quem a recebeu. A maioria das novas ferramentas de comunicação exibe ainda símbolos gráficos que falam por si. Sinais coloridos indicam se o usuário está ocupado, ao telefone, em reunião ou disponível para falar. “As mensagens instantâneas podem diminuir em 40% o número de e-mails enviados numa empresa”, diz Eduardo Campos, gerente de colaboração da Microsoft.


Como seria de esperar, são os mais jovens a se lançar com mais avidez à nova fronteira da comunicação. Uma pesquisa do Instituto Informa e da agência de publicidade Binder/FC+M mostra que o MSN é a forma preferida de diálogo virtual para 76% dos jovens brasileiros, seguido do Orkut, usado por 18% deles. O e-mail é o terceiro colocado, adotado prioritariamente por apenas 4%. Também as empresas, nas quais o correio eletrônico reinou absoluto nos últimos anos, começam a seguir essa trilha. “Para os negócios, o e-mail é lento, inconfiável e impreciso”, diz Michael Maoz, analista da consultoria em tecnologia Gartner. A distribuidora de aço GGD Metal criou a regra para que seus funcionários usem o e-mail o mínimo possível. A comunicação dentro da empresa é feita por mensagens instantâneas e, no caso de assuntos mais formais, em reuniões. Na negociação com clientes, o e-mail ficou restrito a finalizações de pedidos e contratos. A decisão foi tomada em setembro do ano passado, justamente quando a companhia passava por uma baixa nas vendas trazida com a crise global. O resgate do contato pessoal, mesclado com ferramentas para as conversas virtuais — como o bate-papo online –, é hoje visto como uma possível explicação para o crescimento gradual dos negócios. “Não sei se a retomada nas vendas foi apenas resultado da presença maior, mas passamos a receber elogios dos compradores”, diz André Dias, diretor de marketing e vendas da empresa.

O exemplo da GGD Metal, porém, ainda não é regra. Muitas empresas rejeitam o Twitter ou sistemas de mensagens instantâneas porque temem a perda de produtividade dos funcionários, que podem ficar tentados a bater papo no horário do trabalho. Mas alternativas como a da americana Yammer devem derrubar as barreiras de quem resiste. Ela oferece um sistema parecido com o Twitter, mas para ambientes corporativos. A empresa foi fundada em outubro do ano passado e hoje já tem 50 000 clientes, entre eles a consultoria Deloitte, a rede de televisão americana Fox e a fabricante de chips AMD. A ferramenta da Yammer permite a comunicação apenas entre os funcionários e, como possibilita que todos leiam as mensagens, inibe os assuntos particulares. “Modéstia à parte, nós revolucionamos a comunicação corporativa”, diz Rahul Agarwal, diretor de comunicação da Yammer. Na AMD, cliente desde o ano passado, 2 000 funcionários já aderiram. “Pedidos de informações para projetos ou mensagens como ‘quem deixou um sanduíche no micro-ondas, por favor, vá buscar’ hoje se restringem à ferramenta e não tomam espaço do e-mail”, diz John Taylor, diretor global de comunicação de produtos da AMD.

Grandes empresas de internet também procuram alternativas para satisfazer quem deixa o e-mail de lado. O Google lançou no começo de outubro o Google Wave, um serviço ainda em teste que reúne em um só sistema mensagens instantâneas, armazenagem de documentos e recursos de rede social. Enquanto alguém escreve uma mensagem, é possível acompanhar a digitação letra a letra. Dá também para trocar imagens, vídeos e documentos. A ferramenta foi recebida com euforia. “O Wave permite que a conversa escrita se assemelhe a um papo com voz e aumenta a interação”, diz David Hallerman, analista da empresa de pesquisas em internet eMarketer. Aos poucos, o e-mail, antes o símbolo da revolução das comunicações do novo milênio, vai ganhando uma conotação ligeiramente pré-histórica. E assim caminha a humanidade…