De cineasta a programador em três meses

Os americanos Jacob Repp e Andrew Peterson estão há cerca de três horas encarando a tela do computador. A missão deles é criar do zero um programa capaz de resolver um jogo de Sudoku, tradicional quebra-cabeças numérico japonês. Só existe um pequeno problema: nenhum dos dois sabe programar. Pelo menos, não por enquanto. Em algumas semanas, no entanto, ambos pretendem procurar emprego como desenvolvedores de software, um dos mercados mais valorizados dos Estados Unidos, onde os salários iniciais podem chegar a 100.000 dólares ao ano. Como? Repp e Peterson são alunos da mais nova tendência em ensino nos Estados Unidos: os coding bootcamps, ou bootcamps de programação.

Como o próprio nome sugere, bootcamps são experiência intensas e imersivas. No caso dos cursos de programação, os alunos passam de 3 a 6 meses entre aulas e exercícios que exigem até 80 horas de dedicação por semana. A maioria é presencial, mas alguns módulos iniciais podem ser ministrados online. Embora existam diferentes programas, grande parte é voltada para linguagens específicas, como JavaScript ou Ruby, e ensina a desenvolver sites e aplicativos. “Os bootcamps começaram em 2012 como forma de as empresas treinarem seus funcionários, mas se tornaram uma febre em 2014. Eles se diferenciam pelo foco no mercado de trabalho”, diz Liz Eggleston, uma das fundadoras do Coursereport, o principal site de busca e avaliação de bootcamps no mundo. Há três anos, o site contava com apenas 40 escolas cadastradas. Hoje, são mais de 300, sendo 91 apenas nos Estados Unidos e Canadá.

No seu mais recente relatório, o CourseReport notou um crescimento de mais de 70% ao ano no mercado de bootcamps dos EUA. Somente em 2016 serão quase 18.000 alunos formados, ante pouco mais de 10.000 no ano passado. Jacob Repp e Andrew Peterson entram nessa estatística. Eles se matricularam no DevBootcamp, que oferece cursos em sete cidades, como Nova York, Chicago e Washington. A dupla faz parte da turma inaugural do campus de Seattle e o programa do Sudoku é um dos desafios da primeira semana de aula.

“Não era feliz na minha área e estava em busca de algo novo, mas voltar para a universidade seria muito caro”, diz Repp, 25 anos, formado em artes plásticas. Já Peterson, de 36 anos, viu a carreira em marketing estagnar quando a empresa em que trabalhava foi adquirida. “Decidi começar de novo em programação, algo que sempre me interessou, mas não podia parar por dois anos para estudar”, afirma. Casado e com filhos pequenos, ele precisava fazer a transição o mais rápido possível.

500.000 vagas abertas

Embora todas as escolas reportem ter alunos de diferentes faixas etárias, a grande maioria são jovens na entre 20 ou 30 anos dispostos a largar um emprego e mudar de carreira. Mais especificamente, eles enxergam o bootcamp como oportunidade de trabalhar em um mercado com altíssima demanda.

Segundo dados oficias do governo americano, o mercado de desenvolvedores de software deve crescer 17% até 2024, muito acima da média de 7% dos outros setores. Já a Code.Org, organização que promove o ensino de ciências de computação nos Estados Unidos, estima que há mais de 500.000 vagas abertas na área de computação hoje no país. “A média dos salários para desenvolvedores de software é 85.000 dólares anuais. Na região de São Francisco, é cerca de 100.000”, diz Huntly Mayo-Malasky, diretor de admissões da Fullstack Academy. Talvez por isso, os alunos dos bootcamps estejam dispostos a desembolsar, em média, 11.451 dólares pelos cursos, mas há escolas que chegam a cobrar até 20.000.

Um dos bootcamps mais conhecidos do país, a Fullstack Academy foi fundada em 2012 por dois ex-funcionários do Yahoo!, David Yang e Nimit Maru, que receberam apoio da YCombinator, aceleradora famosa por impulsionar startups como o Airbnb, de alugueis de casas e quartos por temporada, e o Dropbox, de armazenamento de arquivos na nuvem. Segundo Malasky, 97% dos formandos na Fullstack conseguem emprego como desenvolvedor de software, número em parte conquistado graças a um processo rigoroso de admissão.

Além de enviar currículo e fazer uma prova, o candidato precisa programar remotamente junto com um dos instrutores da escola e criar, por exemplo, um programa capaz de dizer se um número qualquer é ou não um número primo. Voltada para alunos já com alguma experiência, a taxa de aceitação da Fullstack gira em torno de 10% em relação a todos que se inscrevem.

A AppAcademy, por exemplo, não exige nenhum conhecimento prévio em programação. No entanto pede que todos os candidatos assistam a aulas online e testa o conhecimento adquirido. Ao final, apenas 3% das pessoas desse grupo são aprovadas para as aulas presenciais. O curso mais popular da App Academy é a imersão de três meses, com carga horário de 40 horas semanais. A empresa é tão confiante de seu resultado que só cobra do aluno se ele for contratado. O valor é 18% de seu primeiro salário anual. Além disso, há também um curso preparatório de quatro semanas para quem deseja ser aceito em bootcamps de programação. O custo é de 2.900 dólares, devolvidos caso o aluno não seja aceito em nenhum lugar.

Segundo o relatório do CourseReport, 75% dos alunos saídos de bootcamps conseguem um emprego na área. “Atualizamos nosso currículo para aquilo que os empregadores estão buscando. Eles nos dizem o que é importante”, diz Adi Hanash, diretor de educação online da General Assembly. Desde 2012, a empresa já formou mais de 25.000 pessoas e se orgulha de ter parcerias com mais de 3.000 empresas que contratam seus ex-alunos.

Uma delas é a 2U, que desenvolve soluções para educação à distância e tem, entre seus 50 engenheiros, uma dezena de alunos saídos de bootcamps. “Gosto muito desse tipo de curso pois conseguimos pessoas com diferentes experiências”, diz James Kenigsberg, diretor de tecnologia da 2U. “Um dos nossos engenheiros era doutor em cinema. Para uma empresa de educação, isso é ótimo”, afirma. Ainda assim, Kenigsberg admite que nem todas as posições podem ser ocupadas por esses profissionais. “Se precisar preencher uma vaga que exija conhecimentos mais complexos, como bancos de dados ou algoritmos, prefiro contratar alguém com uma formação acadêmica”, diz.

Parte do trabalho dos bootcamps é, portanto, ajustar as expectativas dos alunos. “É impossível querer ensinar quatro anos de conhecimento acadêmico em algumas semanas. O que fazemos é dar às pessoas um conjunto de habilidades que as permitam ter sucesso como desenvolvedor de software júnior, e como continuar aprendendo depois”, diz Stu Jones, diretor da DevBootcamp em Seattle.

Além de ensinar as habilidades em falta no mercado, os bootcamps atuam em outra área crucial para quem busca emprego como desenvolvedor: a de criar um portfolio. Em todos os cursos, boa parte do tempo é gasta em projetos que podem ser avaliados por um futuro empregador. Este ano o brasileiro Ricardo Furuta, de 35 anos, completou um bootcamp de programação na Bélgica. Ao final do curso, criou uma réplica do site Airbnb e também uma plataforma de e-commerce voltado para confeiteiros. Auditor fiscal da prefeitura de São Paulo há dez anos, Furuta não tem pretensão de mudar de emprego agora, mas queria deixar possibilidades abertas. “É uma habilidade muito valorizada pelo mercado”, diz ele, que escolheu a escola Le Wagon pelos custos de vida mais baixos na Europa do que nos Estados Unidos.

O Brasil na onda

Se tivesse esperado alguns meses, poderia ter estudado no Brasil. Há um mês, a francesa Le Wagon abriu sua primeira turma no país, em São Paulo, com dez alunos que pagam cada um 14.900 reais pelo curso de nove semanas. “A maioria dos alunos não tem experiência com programação”, diz Mathieu Le Roux, co-fundador da Le Wagon no Brasil. Tanto no exterior como por aqui, o foco da escola não são necessariamente as grandes empresas, mas sim as startups. “Um terço dos nossos mais de 500 alunos formados no mundo foram empreender”, diz Le Roux, que já planeja abrir turmas também no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, dois outros polos de empreendedorismo do país.

Outro modelo de bootcamp já em funcionamento no Brasil é o MasterTech, crido em São Paulo pelos empreendedores Camila Achutti e Felipe Barreiros. No início do ano, com apoio de empresas como a Microsoft, Paypal e Intel, a MasterTech rodou a primeira turma experimental com 30 alunos e um custo de 3.000 reais por oito semanas de aula. “Fizemos um bootcamp de formação mais ampla em tecnologia, como programar um site, um aplicativo, fazer uma modelagem em 3D, mas sem o objetivo de formar um desenvolvedor”, diz Camila. A ideia era dar uma base de conhecimentos para que profissionais ou estudantes pudessem crescer dentro de seus ambientes de trabalho.

Além do viés social, os cursos do MasterTech pretendem resolver também um problema real do mercado. “Todos os dias recebo pelo menos três e-mails de gente pedindo indicação de desenvolvedor. Isso sem contar o potencial que nós, brasileiros, temos de trabalhar para empresas dos Estados Unidos”, diz Camila, atualmente cursando um mestrado em Ciência da Computação na Universidade de São Paulo. Com fuso-horário mais alinhado e cultura de trabalho parecida, ela acredita que o país poderia competir com a Ásia no outsourcing de diversos serviços – especialmente com o real desvalorizado. Além disso, o aumento de demanda por desenvolvedores é um fenômeno mundial.

De acordo com um levantamento feito pela da Oxford Economics, braço de pesquisa da Universidade Oxford, no Reino Unido, 58% dos executivos entrevistados no mundo acreditam que focar no desenvolvimento de software é uma medida crucial para o futuro de suas empresas. Se isso for verdade, alguém precisará criar todos esses novos programas, produtos e serviços. Em Seattle, os americanos Jacob Repp e Andrew Peterson já estão atrás de duas dessas vagas – e, vale dizer, levaram apenas 15 horas para programar a solução do Sudoku.

(Paula Rothman, de Seattle)