Consultoria diz que rede móvel terá problemas na Copa

Segundo analista, base total de estações radiobase (ERBs) no país no começo de 2013 era de 60 mil, que era comparável ao de uma única operadora norte-americana

São Paulo – No final de fevereiro, a empresa de pesquisa e análises de telecomunicações Infonetics Research disse que o Brasil enfrentaria problemas para o serviço de telefonia móvel durante a Copa do Mundo ao afirmar que a infraestrutura era “de tamanho modesto”.

Segundo o analista Stéphane Téral, a base total de estações radiobase (ERBs) no país no começo de 2013 era de 60 mil, que era comparável ao de uma única operadora norte-americana, a AT&T.

“Não vejo como elas (as empresas brasileiras) poderiam estar prontas para a mobilidade em quatro meses para a Copa do Mundo FIFA”, declarou na ocasião. Para Téral, o principal problema está no entorno dos estádios, onde haverá grande concentração de pessoas nos dias dos jogos. As operadoras discordam.

O representante das teles e diretor executivo do SindiTelebrasil, Eduardo Levy, declarou que a análise da Infonetics seria “muito superficial” ao dizer que não se espera um impacto tão grande na infraestrutura com a chegada de turistas.

“Por exemplo, o evento de Fórmula 1 em São Paulo: que crise gera em tráfego? Ele traz uma quantidade enorme de jornalistas, (emissoras de) televisão, e não acontece nada. E tem mais pessoas na F1 do que em estádio”, compara. Ele diz que é preciso observar a relação da infraestrutura das cidades. “A qualidade do serviço que vamos oferecer aos turistas é a mesma que oferecemos aos brasileiros”.

Além disso, ele diz que comparar com operadoras norte-americanas “não faz sentido” por ser “relativo” à quantidade de concentração de pessoas, de tráfego e de dispositivos. “Ah, o Brasil tem poucas ERBs em relação à Espanha. Isso é baseado em que? Não é a quantidade de ERB, é o tráfego que conta”.


Levy reconhece, entretanto, que poderá haver problemas nos estádios e aeroportos que não estejam prontos a tempo, citando a recém-inaugurada Arena Amazônia, em Manaus, que ainda não estaria completa, com o anel superior ainda em obras.

“Precisamos entrar no estádio com equipamentos eletrônicos de estado da arte. O que podemos fazer? Só podemos entrar no estádio quando ele está pronto”, afirma. São em média 300 antenas por estádio.

“Não é coisa simples colocar tudo, interligar com fibra ótica, colocar equipamentos dentro das salas e testar dentro para ver se tem cobertura efetiva”, explica. “Não vamos deixar de atender os objetivos, estamos com tudo pronto, onde não entramos ainda é porque não tivemos condições físicas.”

Segundo ele, o problema mais crítico é no Itaquerão, em São Paulo, e na Arena da Baixada, em Curitiba. “Não tem estádio ainda”, reclamou Levy.

Um acordo com a administração dos dois locais foi anunciado na segunda-feira, 17, mas ainda há percalços. “O Brasil teve sete anos para fazer estádios, vamos ter 60 dias para colocar infraestrutura.” Segundo o representante do SindiTelebrasil, o processo será semelhante ao que aconteceu na Copa das Confederações, quando a infraestrutura do Maracanã foi instalada em 47 dias.

Já em relação aos pontos de concentração, ele lembra que haverá cobertura esporádica, como em eventos específicos como o Réveillon na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. “Todo dia tem um conjunto de ERBs provisórias que depois são rebocadas no dia seguinte”, declara. O representante do SindiTelebrasil pormenoriza ainda a crítica à cobertura em torno do estádio.

“É o que já acontece hoje no Maracanã, faz parte da rotina das empresas. Quando tem show do Paul McCartney na arena, elas já têm (infraestrutura) e deslocam na medida em que há demanda de tráfego além do normal”.

A legislação de cada município, que impede a implantação rápida de antenas, também é uma questão a ser considerada, segundo Eduardo Levy. “A gente faz o que consegue, temos muita dificuldade pela legislação e burocracia.”


Operadoras

As operadoras se defenderam ao falar em investimentos e em planos de coberturas especiais em áreas de grande concentração na época do evento, como em aeroportos. Procuradas por este noticiário, elas afirmaram ter colocado antenas nos estádios. A Oi não comentou alegando estar em período de silêncio com as operações para a fusão com a Portugal Telecom.

A TIM não especificou nenhuma ação para os eventos, preferindo mencionar a estratégia macro de expansão móvel.

“A TIM realiza investimentos consistentes no que se refere à ampliação e modernização de rede para suportar o incremento de tráfego de dados, que vem crescendo exponencialmente e será ainda maior durante grandes eventos, como a Copa do Mundo”, disse a empresa, reafirmando o compromisso de destinar 90% do orçamento de R$ 11 bilhões para o triênio 2014-2016 para melhorias na infraestrutura.

A companhia cita que, ao final desse período, investirá R$ 1 bilhão em banda larga móvel e mais 200 cidades beneficiadas. Para o 4G, a TIM prevê R$ 1,5 bilhão investidos nos próximos três anos, finalizando 2014 com cobertura atingindo 36% da população brasileira.

A Vivo declarou que haverá “instalação e aumento da capacidade das redes 2G, 3G e 4G para cobertura dentro dos doze estádios” e que esse trabalho exige implantação de antenas e de fibra ótica para o backhaul.

Mas lembra que toda a infraestrutura instalada nos estádios será de uso compartilhado entre as demais operadoras, que serão responsáveis por três estádios cada – a Vivo será encarregada em Brasília, Fortaleza e Manaus.

Para o entorno dos estádios e outros pontos, a operadora diz que o prazo é válido até maio e que haverá instalação de 34 ERBs nos arredores dos estádios. A empresa não deixou claro se são unidades móveis ou antenas fixas.


Os outros pontos são as FIFA Fan Fests (com 24 ERBs ao todo), centros de imprensa (6 ERBs) e centro de convenções com uma ERB. Além disso, a operadora afirma que reforçará a infraestrutura de telecom e Internet na Granja Comari, local de preparação da Seleção Brasileira.

Para aeroportos, a infraestrutura contará com a “implantação de sistema irradiante compartilhado entre operadoras em 15 aeroportos, com ampliação e aumento de capacidade para os serviços 2G, 3G e 4G”. A Vivo será responsável pelos aeroportos de Guarulhos, Manaus, Cuiabá e Congonhas.

Além disso, a empresa garante que haverá ampliação da capacidade da plataforma NGIN (Next Generation Intelligent Network) para absorver a demanda.

Outra medida será reforçar profissionais de TI em lojas, revendas e controle de tráfego do call center, bem como a implantação de uma célula de central de serviços dedicada e opção específica no autoatendimento para questões ligadas aos serviços da Vivo no evento.

A Claro, por sua vez, estima que o tráfego de voz e dados dobre nas áreas de concentração nos dias de partidas e que “reforçará toda a estrutura de rede para prevenir congestionamentos”. A companhia também cita investimento em infraestrutura nas 12 cidades-sede da Copa com expansão nas tecnologias 2G, 3G e 4G e para a cobertura indoor e nos estádios.

“Na tecnologia 3G, foi realizada a implantação de 87 novas antenas, pertencentes a 29 ERBs – uma média de, aproximadamente, sete antenas por cidade. A operadora também expandiu a capacidade de 705 antenas existentes, 59 antenas por cidade em média, além da expansão de 44 soluções indoor”.

Para o LTE, a Claro afirma ter investido em 21 novas antenas outdoor exclusivas para as Fan Fests, bem como o lançamento comercial do serviço em todos os municípios sedes e sub-sedes. “Para reforçar a infraestrutura próxima aos estádios, foram inauguradas 18 novas estações móveis, além das já existentes. O total a ser investido pela empresa, até o final de 2014, para garantir a melhor qualidade de serviços do mercado, é de R$ 6,3 bilhões.”


Cenário bizarro

Também procurado por este noticiário, o analista da Infonetics Research Stéphane Téral afirmou que sabe das complicações legislativas e de orçamento, mas ressalta que o problema não é na cobertura indoor, mas sim fora dos estádios.

“Não estou realmente pensando em turistas lotando os locais da Copa; apenas penso, baseado na minha experiência, no que acontece quando as pessoas chegam e saem dos estádios. Isso cria grandes congestões de tráfego móvel nas redes e eu reitero que não há estações radiobase suficiente por habitantes e por assinantes para acomodar esse tráfego, desconsiderando-se os turistas”.

Téral afirma manter a opinião sobre o cenário brasileiro. “Talvez a análise pareça superficial, mas a pesquisa é baseada em parâmetros típicos de demografia como população, número de assinantes, espectro disponível e MHz disponível por assinante, e isso é comparado com outros países que estudamos”, declara.

O analista afirma ainda que a situação é diferente do presenciado em eventos recentes como a Olimpíadas de Inverno em Soichi, na Rússia, e na última Copa do Mundo em 2010, na África do Sul. Segundo ele, nos dois países as redes móveis já contavam com ERBs suficientes. “Em outras palavras, parece muito bizarro para a sexta maior economia e quinta maior população do mundo ter tão poucas estações para suportar 271 milhões de acessos”, explica, lembrando ainda dos problemas de qualidade nas redes enfrentados pelas operadoras em 2012.

Stéphane Téral também se baseia na própria experiência que presenciou no Rio de Janeiro. “Quando eu fiquei na Barra da Tijuca por uma semana, vi que a rede móvel era lenta em geral, tive dificuldade em checar meus e-mails”, diz, afirmando ainda que poderia “contar nos dedos” a quantidade de estações radiobase. No entanto, o analista não culpa as operadoras.

“De fato, tenho alta estima por elas por encarar o ambiente difícil para melhorar a infraestrutura, balanceando entre problemas de orçamento e técnicos. O mundo pode certamente aprender com o Brasil”, disse.