Como foi andar no Uber sem motorista

Mike Isaac
© 2016 New York Times News Service

Pittsburgh – Parado em uma rua de cascalho na frente da velha fábrica da Heinz que engarrafava o ketchup na segunda-feira de manhã, eu estava bem frustrado. Meu Uber autônomo não saía do lugar.

O engenheiro que estava no banco do passageiro, funcionário do Uber há três semanas, me perguntou se eu queria assumir o volante e disse que eu precisava desligar o carro e ligá-lo outra vez, como se estivesse reiniciando um computador.

Nesse caso, meu “computador” era um Ford Fusion híbrido modificado, apelidado de Boron 6, um elemento atômico frequentemente encontrado em imãs, detergente e reatores nucleares. O Uber equipou o carro com mais de 20 câmeras, sete lasers, um sistema de detecção a laser capaz de virar 360 graus, e mais 1.400 acessórios que produzem milhões de bits de dados a respeito do ambiente em tempo real, à medida que se locomove. Caso o carro funcione um dia conforme o esperado, nunca mais outra pessoa precisará se sentar no banco do motorista.

Por enquanto, alguns quilômetros quadrados no centro de Pittsburgh representam o sonho de um futuro móvel do Uber, no qual as pessoas vão preferir usar o smartphone para chamar um carro autônomo e seguro, ao invés de comprar seu próprio veículo.

Recentemente, pude experimentar em primeira mão o carro da empresa, andando com o Boron 6 durante cerca de uma hora no horário de trânsito leve no centro da cidade. No dia 14 de setembro, o Uber deu início ao programa piloto de carros autônomos com a ajuda de seus clientes mais fiéis em Pittsburgh, dando a eles a chance de chamar um Uber autônomo pela primeira vez. Na fase de teste, um punhado de veículos – Ford Fusions, para começar – vai sair às ruas acompanhado de um engenheiro de segurança que foi treinado para assegurar ao cliente de que o carro é seguro.

Durante minha viagem, passada em sua maioria como passageiro no banco de trás do Boron 6, meu engenheiro de segurança se mostrou digno do trabalho. Em vários momentos ele pediu para que eu assumisse o controle e entrasse em cruzamentos onde muitas pessoas passam em alta velocidade. Quando um caminhoneiro entrou de forma irregular na estrada, ele pisou no freio, assumindo imediatamente o controle do veículo.

Caso o engenheiro de segurança se sentisse inseguro, ele poderia apertar a qualquer momento um grande botão vermelho no centro do painel – curiosamente similar ao ejetor de emergência do carro de um filme do James Bond –, de forma a desligar o modo autônomo. Para religar o sistema, ele precisava apenas apertar um discreto botão de metal próximo ao logo que enfeitava o painel.

Caso eu me sentisse inseguro como passageiro, poderia pedir para que o motorista assumisse o veículo, ou poderia apertar um botão em uma tela na parte de trás do assento, encerrando a corrida na mesma hora. Eu também pude avaliar o ambiente em infravermelho gerado pelo carro na tela, um mundo em três dimensões que se adaptava em tempo real, e tirar uma selfie com a câmera colocada no painel. Depois da viagem, o Uber envia uma mensagem de texto aos passageiro com um gif animado com a versão tridimensional da rota percorrida, junto com a selfie que tirei.

O mais importante é que, durante a maior parte da viagem, eu me senti seguro. No modo autônomo, as curvas e paradas eram praticamente impecáveis e muitas vezes eu tinha que olhar para o motorista para saber se era ele ou o computador que estava no comando. É verdade que fiquei um pouco nervoso algumas vezes, quando percebi que o computador passava muito perto dos carros estacionados do lado direito da rua. Contudo, admito que talvez estivesse mais alerta que de costume com o ambiente ao meu redor.

Sob muitos aspectos, Pittsburgh é o ambiente de testes perfeito para a empresa. A cidade, que é basicamente uma península cercada de montanhas, tem o formato de um grande triângulo, repleto de curvas fechadas, subidas, mudanças repentinas de limite de velocidade e dezenas de túneis. Existem 446 pontes na cidade, mais do que em Veneza, e os moradores são conhecidos pela “esquerda de Pittsburgh”, uma forma perigosa de entrar em cruzamentos.

Raffi Krikorian, diretor de engenharia do Centro de Tecnologias Avançadas do Uber, localizado no distrito industrial da cidade, afirmou que “Pittsburgh tem um trânsito incrivelmente caótico”.

O desafio expresso por Krikorian foi assumido de corpo e alma pelo Uber. Do ponto de vista da empresa, o carro autônomo funciona com muito mais segurança do que qualquer motorista humano.

Meu Uber autônomo parou muito atrás dos carros da fila da frente nos cruzamentos. Ele ficou exatamente dentro do limite de velocidade – 40 quilômetros por hora nos locais por onde passamos – mesmo quando não havia outros carros na pista. No semáforo, o carro esperava o sinal verde para virar à direita. Os motoristas humanos que vinham atrás não ficaram nada contentes.

Quando minha viagem à bordo do Boron 6 estava chegando ao fim – ao todo, viajei cerca de 32 quilômetros – era difícil não ter a impressão de que eu era uma espécie de celebridade, ou talvez um marciano. Outros motoristas não paravam de olhar e um menino na garupa de uma moto ficou boquiaberto, acenando para que a mãe me visse.

Esse futuro é uma promessa antiga. A primeira vez que falaram em carros autônomos foi nos anos 1950, com imagens de famílias jogando dominó no banco de trás. Algumas pessoas envolvidas no projeto do Uber passaram a carreira toda trabalhando no conceito.

Mas não se sabe ao certo como eles vão ganhar dinheiro com isso. Boa parte do sucesso do Uber se baseia na premissa de que as pessoas poderiam compartilhar seus carros com o público, dirigindo nas horas de folga. O carro autônomo elimina a necessidade de motoristas, uma das maiores fontes de tensão entre as pessoas que trabalham para o Uber. Os executivos da empresa afirmam que os carros autônomos seriam parte de um setor do Uber no futuro, com um misto de motoristas e veículos autônomos.

Além disso, o Uber não é o primeiro a apostar pesado nos carros autônomos, com Google, Apple, Tesla, Mercedes-Benz, BMW e Infiniti oferecendo ou desenvolvendo veículos com essa característica. Algumas dessas iniciativas enfrentam dificuldades – o Projeto Titan, da Apple, teve altos e baixos.

Todas essas empresas enfrentam incertezas no ambiente regulatório, que poderiam impedir que os veículos autônomos saíssem às ruas nos EUA.

Haverá atrasos e problemas, tais como os que enfrentei na primeira vez, quando o carro não quis sair do lugar. Mas essa é a função dos testes. Todos os sensores e equipamentos que gravam dados verão o que acontece – incluindo os problemas – “para que possamos aprender mais sobre o que deixa os motoristas e passageiros seguros e satisfeitos”, afirmou Emily Duff Bartel, gerente de produtos do Centro de Tecnologias Avançadas.

Para mim, demorou 10 minutos para resolver as falhas, mas o Boron 6 deu a partida e começou a se mover, ainda que só depois de um pouco de intervenção humana.