Como a PlayKids usa tecnologia para conquistar pais e crianças

Em entrevista a EXAME, Breno Masi fala sobre inteligência artificial, realidade aumenta e computação afetiva

São Paulo – Breno Masi é um nome que soa familiar para acompanhou a chegada dos primeiros iPhones no Brasil. Ele foi o primeiro brasileiro, junto com Paulo Stool, a desbloquear os aparelhos para que funcionassem no nosso país. Além disso, que o deixou conhecido internacionalmente, ele é sócio do site MacMagazine, que fala sobre novidades da Apple, e cofundador e diretor de tecnologia da empresa–do grupo Movile–chamada PlayKids. Ela tem um aplicativo com vídeos e conteúdos para crianças, como se fosse um Netflix infantil e com recursos adicionais, como livrinhos e jogos educativos.

Em entrevista a EXAME, Masi conta como tem usado a tecnologia para tornar o aplicativo mais educativo para as mais 5 milhões de crianças que o utilizam atualmente. Para ele, o uso de inteligência artificial é indispensável para a criação de experiências personalizadas e o futuro está na computação afetiva, um campo da TI que usa sistemas de reconhecimento de reações afetivas humanas (que permitem saber se você está feliz, triste, concentrado ou disperso).

Leia a entrevista a seguir.

EXAME; Como a PlayKids usa a tecnologia hoje para melhorar o aplicativo e a experiência de uso das crianças?

 

Breno Masi: Quando fundamos a PlayKids, queríamos impactar a vida de milhares de pessoas em todo o mundo com o uso da tecnologia, que sempre foi algo presente na minha vida. Sempre tivemos visão global. Tínhamos muitos produtos, mas atingíamos poucas pessoas. Tentamos fazer algo que entregasse o primeiro acesso à tecnologia de forma prática e segura. Desde o começo, a gente pauta o produto por segurança, agilidade e liberdade para as crianças. Os primeiros usuários foram as minhas próprias filhas.

Nosso dia a dia tem muita tecnologia para manter desenvolver e manter essa máquina funcionando o tempo todo. Nosso time de tecnologia tem 92 pessoas, com formação multidisciplinar. Tem pessoas focadas em inteligência artificial, desenvolvimento back-end e front-end, funcionários que trabalham em mobile.

Há também uma equipe de 14 pessoas dedicadas a Unity, que preparam nossos próximos passos para eventos educativos. Estamos sempre muito antenados em tendências como inteligência artificial e interações por voz. Os funcionários da empresa tem pessoas que vieram do varejo do mercado de games. É uma equipe fantástica.

 

Quais são os cuidados que a PlayKids toma na hora de desenvolver novos recursos na plataforma?

 

Segurança da informação, segurança dos dados e de conteúdo. A responsabilidade já é grande quando se lida com adultos, com crianças, ela aumentam mil vezes. Ficamos atentos às informações que coletamos, e nos perguntamos se temos mesmo que ter tais dados. E, claro, nos atentamos muito ao tipo de conteúdo que é oferecido para as crianças que usam nosso serviço.

Também prezamos por novidades feitas com qualidade, em vez de buscar agilidade. Sempre achei muito ruim ter um time responsável por testes, porque isso tira a responsabilidade das pessoas que desenvolvem o projeto. Isso nos ajuda a evitar erros.

 

Como a PlayKids utiliza inteligência artificial em um serviço para crianças?

 

Inteligência artificial é o futuro da tecnologia e nenhuma empresa pode fugir disso. No começo, a gente usava, de forma rudimentar, para fazer sugestões de conteúdo. Hoje, temos um time de 30 pessoas que faz a curadoria dos conteúdos sugeridos para treinar o algoritmo de inteligência artificial para recomendações que são feitas aos assinantes.

Vimos que essa tendência tecnológica poderia fazer mais pelos usuários. Agora, buscamos entregar uma experiência única para cada criança. No passado, a televisão mostrava tudo para todos ao mesmo tempo. Agora, é possível identificar o perfil da criança e oferecer conteúdos que se relacionem com o que ela ainda precisa desenvolver.

Se você abrir o aplicativo da Bruna, minha filha de 9 anos, é completamente diferente do que a Alice, que tem 3 anos. No caso da minha filha de 5 anos, a Clara, não é necessariamente uma mistura dos dois. A experiência é feita para ela. Nossa meta é deixar nossa inteligência artificial cada vez mais robusta.

No futuro, meu sonho é aplicar o que se chama de computação afetiva no dia a dia das crianças. Ela nos permitiria perceber o que a criança está sentindo. Não adianta a gente buscar oferecer a melhor experiência sem conseguir perceber o que a criança está sentindo. Temos usuários que ainda não conseguem falar direito e isso nos ajudaria a entender a receptividade.

 

Quais são as principais preocupações dos pais no uso do PlayKids?

 

A preocupação com o uso de tecnologia não é de hoje. Antes, os pais se preocupavam muito com o tempo que passávamos jogando videogames. Hoje, é com os aplicativos, com a internet. É algo natural.

A tecnologia traz para crianças avanços e conhecimentos de formas jamais vista. Tudo que é utilizado com parcimônia, controle e gestão é muito bom. É como o chocolate. Não adianta só falar para a criança que ela não pode comer. Se ela tem acesso a um ambiente que não é controlado, ela pode decidir comer 20 brigadeiros de uma vez.

É papel dos pais direcionar o tempo de uso, e nosso, ao prover ferramentas. Eles definem limite de tempo, faixas horárias de uso e crianças de zero a 8 anos precisam de supervisão dos pais. Meu conselho sempre é o seguinte: a tecnologia vai proporcionar coisas surreais para crianças, permite que elas tenham contato com coisas que normalmente não teriam, como, por exemplo, as grandes pirâmides do Egito em realidade aumentada.

 

Como vocês se preparam para a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), que entra em vigor no Brasil em fevereiro de 2020, seguindo os passos de uma legislação semelhante na União Europeia?

 

A PlayKids já está 100% adequada. A segurança de dados é fundamental para nós. Hoje, não fazemos nenhum tipo de anúncios, coleta de dados, montagem de perfil de usuários, nada disso. A gente não precisa disso. Usamos a inteligência artificial para entregar a melhor experiência aos usuários. Os dados que coletamos são nomes e e-mails dos pais. Caso queiram, podem colocar o nome da criança, mas só se quiserem. Não solicitamos dados referentes à localização da criança. Fora isso, toda vez que alguém pede para apagar seus dados da PlayKids, tudo é pulverizado.

 

Há uma tendência de realidade aumentada em aplicativos, como jogos que colocam personagens digitais no mundo real, por meio da câmera do smartphone. Vocês têm recursos para isso?

 

Temos o produto Explorer, que é um kit, com maletinha e livro interativo. A história da pirâmide que mencionei é parte do Explorer. Com a realidade aumentada, conseguimos “levar” as crianças a lugares que elas jamais imaginaram. Em um dos livros, por exemplo, mostramos a Grande Muralha da China. Buscamos oferecer uma experiência muito legal para as crianças.

 

Quais são os próximos passos da PlayKids?

 

Serão três grandes passos, começando pelo maior foco na educação. Ela é parte fundamental para fazer uma mudança no mundo. Nosso papel fundamental é tornar o aprendizado mais divertido. Queremos preparar as crianças para darem seus próximos passos. Por isso, faço paralelos com populações de países para dar dimensão à minha equipe sobre o tamanho do nosso público. Hoje, temos o equivalente a uma Bulgária inteira povoada por crianças [na verdade, a Bulgária tem mais de 7 milhões de habitantes, enquanto a PlayKids tem 5 milhões de usuários].

Também vamos focar em conteúdo original, feito com orientação de um time educacional, pedagogos e psicólogos. Nossos originais hoje estão entre os mais vistos do nosso aplicativo. Por fim, vamos evoluir a PlayKids para engajar mais as crianças com os nossos conteúdos. Vamos usar tecnologia de ponta para ajudar as crianças para entender o mundo.

 

Vocês também pretendem despertar o interesse das crianças em tecnologia?

Sem dúvida. Temos um jogo com um pinguim que ensina conceitos práticos de programação para crianças. São pinguins que precisam acender uma fogueira para se aquecerem. Queremos empoderar meninos e meninas com esse conhecimento. São mais de 25 níveis de ensino.

Atualizado em 1º de abril de 2019: A matéria informava que a PlayKids tinha mais de 7 milhões de usuários, com base na fala do porta-voz, mas o número correto é 5 milhões de usuários.