Cisco proíbe pornografia em redes domésticas e causa revolta

A Cisco vem causando revolta nos usuários por proibir o acesso a sites pornográficos e outros conteúdos através de seus roteadores domésticos

São Paulo — O fabricante do equipamento usado para acesso à internet pode decidir que tipo de site as pessoas estão autorizadas a visitar? É difícil encontrar alguém que não responda a essa pergunta com um sonoro “não”. Mas a Cisco proibiu os usuários de alguns dos seus roteadores domésticos de visitar sites pornográficos, enviar certos tipos de e-mail e encorajar condutas que violem alguma lei, entre outras coisas.

A história começou com uma atualização do software residente nos roteadores, o firmware. Ela foi enviada na semana passada a alguns modelos para uso doméstico, como EA2700, E3500 e EA4500. São aparelhos da marca Linksys, que pertence à Cisco. Eles saem da fábrica com uma opção de atualização automática do firmware. A nova versão desse software permite que o usuário altere configurações do roteador à distância, via internet. O acesso pode, inclusive, ser feito por meio de apps em smartphones.

Esse acesso é feito através de um serviço na nuvem, o Cisco Connect Cloud. Para usá-lo, a pessoa deve concordar com seus termos de serviço. E esse texto tem uma cláusula que institui a censura. Ela proíbe, por exemplo, o envio de mensagens de propaganda. Se o usuário é um profissional que divulga seus serviços por e-mail, por exemplo, ele estará violando as normas da Cisco.

Se ele for um ativista pregando a desobediência civil, também estará em desacordo com o contrato, já que ele proíbe o uso do roteador para encorajar o descumprimento de lei. E, sim, está escrito lá que o serviço não pode ser usado para fins “obscenos ou pornográficos”. O texto ameaça o usuário dizendo que seu acesso ao Cisco Connect Cloud pode ser cancelado se as normas forem violadas.

Mas não é só isso. O site ExtremeTech diz que o usuário ainda tinha de concordar com uma “política de privacidade suplementar”. Ela dizia que a empresa poderia rastrear o usuário e obter várias informações sobre suas atividades na internet, incluindo seu histórico de navegação na web. Aparentemente, essa parte da política de privacidade foi, depois, suprimida do texto.


Quando a história já ameaçava virar um escândalo, com usuários prontos a apedrejar a Cisco, a empresa publicou um artigo em seu site de suporte técnico mostrando como remover a atualização e restaurar a versão antiga do firmware. Mas é preciso fazer isso manualmente. A empresa não enviou nenhuma nova atualização automática cancelando a anterior.

Questionada por usuários e jornalistas americanos, a Cisco também publicou uma resposta em seu blog corporativo. A empresa pede desculpas “pela inconveniência” e afirma que não rastreia os usuários. “O Cisco Connect Cloud não rastreia ativamente, recolhe ou armazena informações pessoais e nem dados de uso da rede para qualquer fim, e também não transmite esses dados para terceiros”, diz o post assinado por Brett Wingo, executivo responsável pela área de produtos de consumo da empresa.

O que parece ser mais grave nessa história é que ela retrata uma empresa desconectada das necessidades e desejos do usuário. A possibilidade de alterar configurações do roteador à distância é algo que muito pouca gente deseja. A maioria das pessoas prefere ligar os cabos e esquecer esse dispositivo. O importante é que ele funcione bem e não dê trabalho. Parece um equívoco achar que os usuários abririam mão da sua privacidade em troca desse recurso.

Atualização (6/07/2012 – 13:45): Na noite de quinta-feira, Brett Wingo, da Cisco, publicou mais uma mensagem sobre esse tema no blog da empresa. Ele diz que o uso do Connect Cloud é opcional e que a Cisco não vai desconectar usuários com base no que fazem na internet. Também diz que a empresa está revisando seus termos de serviço.