China aposta em startups americanas

Paul Mozur e Jane Perlez
© 2017 New York Times News Service

Hong Kong – Quando a Força Aérea dos EUA necessitou de ajuda para deixar os robôs militares mais espertos, procurou uma empresa de inteligência artificial de Boston chamada Neurala. Mas quando a Neurala precisou de dinheiro, a resposta do exército americano não foi muito expressiva. Por causa disso, a startup procurou a China, recebendo uma quantia não revelada de uma empresa de investimentos apoiada por uma estatal chinesa.

As companhias chinesas têm se tornado investidoras importantes das startups americanas que trabalham com tecnologias de ponta com potenciais aplicações militares. Entre essas startups estão empresas que fabricam motores de foguetes para naves espaciais, sensores para navios autônomos da Marinha e impressoras que fazem telas flexíveis que podem ser usadas nas cabines de comando de aviões de combate. Muitas das empresas chinesas são estatais ou têm conexões com os líderes daquele país.

Os acordos estão começando a preocupar Washington. Segundo um novo relatório encomendado pelo Departamento de Defesa, Pequim está encorajando empresas chinesas com ligações estreitas com o governo a investir em startups americanas especializadas em tecnologias relevantes, como inteligência e robôs, para impulsionar a capacidade militar da China assim como sua economia.

O relatório, que foi distribuído entre figuras dos altos escalões do governo Trump recentemente, conclui que os controles do governo americano que supostamente deveriam proteger tecnologias potencialmente críticas estão falhando, segundo três pessoas que tiveram acesso ao conteúdo e falaram sob a condição de permanecer anônimas.

“O que preocupa muito é que a China é um concorrente militar”, explica James Lewis, membro sênior do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos, que conhece o relatório. “Como você lida com um concorrente militar que está participando de seu mercado mais inovador?”

Os acordos chineses levantam uma série de questões. Os investidores podem fazer com que as startups criem parcerias, tomem decisões de licenciamento ou façam contratações que podem expor propriedades intelectuais. Eles também tem o potencial de vislumbrar como a tecnologia está sendo desenvolvida e obter acesso aos escritórios e aos computadores das startups.

Os funcionários do governo Trump e os legisladores estão questionando de forma mais ampla o relacionamento econômico da China com os Estados Unidos. Embora o relatório tenha sido encomendado antes de o presidente Donald Trump assumir, alguns republicanos pedem uma regulamentação mais rigorosa para aquisições por estrangeiros, dando mais poder para o Comitê de Investimentos Estrangeiros nos Estados Unidos. Conhecido como CFIUS, o comitê analisa aquisições de empresas americanas por estrangeiros, mas os críticos dizem que seu escopo não inclui negócios menores, além de ter outros pontos cegos.

Ash Carter, secretário de defesa do presidente Barack Obama, designou Mike A. Brown, antigo executivo chefe da empresa de segurança cibernética Symantec, para liderar a investigação sobre os investimentos chineses, segundo duas das pessoas que conhecem o conteúdo do relatório. Um porta-voz do Departamento de Defesa diz que a instituição “não vai discutir os detalhes ou a composição de rascunhos de documentos de trabalho internos”.

O tamanho e a amplitude dos acordos não estão claros porque as startups e seus investidores não são obrigados a revelá-los. Em geral, a China tem estado cada vez mais ativa no mundo das startups americanas, com aportes de 9,9 bilhões de dólares em 2015, segundo dados da firma de pesquisas CB Insights, mais de quatro vezes o volume do ano anterior.

As startups de alta tecnologia e seus investidores chineses não foram acusados de fazer algo errado, e especialistas dizem que grande parte da atividade pode ser inocente. Os investidores chineses têm dinheiro e estão atrás de retorno, enquanto o governo daquele país tem incentivado investimentos para limpar os céus da China, melhorar sua capacidade industrial e desobstruir suas estradas congestionadas. Os defensores dos acordos dizem que os limites americanos a exportações de tecnologia ainda podem ser aplicados às startups dos Estados Unidos que têm investidores chineses.

O fluxo de fundos, no entanto, se encaixa no padrão chinês de usar investimentos guiados pelo governo para ajudar na política industrial do país e melhorar seu domínio tecnológico, como fez recentemente com os semicondutores. A China também realizou esforços para roubar tecnologia relacionada com questões militares.

Ainda assim, algumas startups – especialmente aquelas que fazem hardware ao invés de aplicativos para celular que atraem dinheiro, como o Snapchat – dizem que os investimentos chineses algumas vezes são os únicos disponíveis. Mas mesmo uma empresa que está correndo atrás de fundos pode no final conseguir uma maneira de avançar.

Os chineses têm um apetite maior pelo risco e uma vontade de fechar acordos mais rapidamente, explica Max Versace, executivo chefe da Neurala.

Para demonstrar a capacidade de seu produto para as Forças Armadas, conta Versace, a Neurala usou o software em um drone terrestre comprado na Best Buy para fazer com que ele reconhecesse e seguisse a então secretária do serviço, Deborah Lee James, durante um encontro. “O secretário das Forças Armadas nos disse: ‘Sua tecnologia é incrível, deveríamos usá-la em todos os lugares’. Mas depois, ninguém fez nada”, conta Versace.

Por isso, a Neurala aceitou um investimento minoritário de um fundo chinês chamado Haiyin Capital como parte de uma rodada de captação de 1,2 milhão de dólares, diz Versace. Ele não revelou o tamanho do compromisso da Haiyin Capital. A empresa é apoiada por um grupo estatal chinês, o Everbright Group, segundo uma de suas subsidiárias.

Oficiais militares dos Estados Unidos “descobriram uma maneira muito boa de dar 10 bilhões de dólares ao conglomerado Raytheon”, diz ele. “Mas dar um milhão de dólares para uma startup desenvolver uma prova de conceito? Isso continua muito, muito difícil.”

No ano passado, uma empresa de pesquisa chamada Defense Group Inc. afirmou em um relatório para o Congresso que o investimento na Neurala poderia fornecer à China acesso a tecnologias subjacentes da companhia. Também disse que o acordo tem o poder de criar incertezas suficientes a ponto de autoridades americanas se afastarem da tecnologia da Neurala, desperdiçando efetivamente o dinheiro do país aplicado nela.

Versace diz que a empresa se esforça para garantir que o investidor chinês não tenha acesso a seu código fonte ou outras informações tecnológicas importantes.

Em 2015, para responder às preocupações de que não estava aproveitando as inovações das startups, o Pentágono estabeleceu um grupo chamado Unidade Experimental de Inovação de Defesa para fazer investimentos em companhias novas e promissoras. Apesar de sofrer com um começo difícil, em 2016 a unidade ajudou a finalizar uma grande quantidade de acordos. O grupo também foi o responsável pelo relatório.

Ken Wilcox, presidente emérito do Silicon Valley Bank, diz que nos últimos seis meses foi abordado por três empresas estatais chinesas para se tornar seu agente no norte da Califórnia e comprar tecnologia, mas recusou.

“Nos três casos eles disseram possuir um mandato de Pequim, e não tinham ideia do que queriam comprar. Era apenas toda e qualquer tecnologia.”