Carro será uma entre várias soluções de mobilidade, diz Ford

"O carro sempre vai fazer parte das soluções de mobilidade, mas vai passar a ser uma das soluções”, veja entrevista com gerente de marketing da Ford

São Paulo – Em um mundo no qual o transporte é cada vez mais absorvido pela tecnologia (oi, Uber), a resposta de uma das principais montadoras do mundo é investir nesse setor. Em março deste ano, nasceu a Ford Smart Mobility, uma subsidiária da Ford para investimentos em tecnologia, startups e soluções alternativas àquelas com as quais a empresa americana estava acostumada.

“Estamos expandindo os negócios. O carro sempre vai fazer parte das soluções de mobilidade, mas vai passar a ser uma das soluções”, falou a EXAME.com Marcel Bueno Silva, gerente de marketing avançado da Ford.

O plano parece fluir bem. Na última semana, a Ford, por meio da Smart Mobility, adquiriu a Chariot, uma empresa para compartilhamento de carros que já funciona nos Estados Unidos, por 65 milhões de dólares.

A perspectiva é que mais soluções e tecnologias sejam mostradas pela montadora nos próximos anos. Devem ser coisas desde aplicações para desafogar o trânsito, até o sonhado carro autônomo.

Veja a seguir a conversa de EXAME.com com Marcel Bueno Silva.

EXAME.com: Qual era o intuito da Ford ao começar uma subsidiária para lidar com mobilidade?

Marcel Bueno Silva: Basicamente a Ford identificou uma oportunidade estratégica e decidiu expandir os negócios. Somos uma empresa automotiva global, mas entendemos que precisamos dar um novo passo. Além de ser uma empresa automotiva, queremos ser uma empresa que dê soluções de mobilidade em um contexto mais amplo. Continuaremos investindo como sempre na indústria automotiva.

Por volta de 2030, 60% da população mundial estará em áreas urbanas e o número de megacidades vai aumentar. É claro que que isso pede soluções diferentes de locomoção. A Ford está buscando soluções de mobilidade e investindo para tornar a vida das pessoas melhor, queira ela usar o carro, transporte público, compartilhar uma bicicleta ou qualquer outra opção.

É pensando em tudo isso que veio a Smart Mobility, para que tivéssemos um braço para pensar nessas tecnologias e soluções de mobilidade. Acima de tudo, para termos um papel de protagonista. Queremos crescer e constituir uma estratégia de mobilidade, que foi criada para investir em empresas e soluções tecnológicas. Um dos escritórios fica em Palo Alto, no Vale do Silício, um berço de soluções tecnológicas.

No futuro existirão empresas exclusivamente automotivas?

Bom, posso falar do ponto de vista da Ford. Estamos expandindo os negócios, mas mantendo foco na nossa área de atuação principal. O carro sempre vai fazer parte de uma solução de mobilidade, mas ele vai ser uma das soluções. Basicamente continuamos com todos investimentos em carros, o que estamos fazendo é expandir e participar de um segmento novo.

A melhora na mobilidade está necessariamente associada à tecnologia?

Existe uma associação muito grande. Se você parar para pensar em um dos grandes investimentos dessa área, é a parceria total entre tecnologia e carros, que são os carros autônomos. A Ford divulgou recentemente que a partir de 2021 teremos um veículo autônomo no mercado.

Esse veículo teria nível 4 de automação em uma escala que vai até 5—a diferença é que no nível máximo, o carro é capaz de se adaptar às condições climáticas. Mas o veículo que devemos mostrar em 2021 dispensaria volante ou pedais. Ele seria capaz de cuidar de toda a direção.

Então não existe dúvida que os carros autônomos serão uma realidade?

Para nós não. A chegada dos carros autônomos é apenas questão de tempo. A tecnologia existe, ela está aqui para nos auxiliar, para nos dar ferramentas. Internamente, estamos testando soluções para o mercado. O interessante é que será uma mudança que deve chegar logo. Não vai levar tanto tempo quanto outras mudanças que transformaram o setor automobilístico. Estamos em um mundo muito mais dinâmico e poderemos ter uma solução mais rápida.

As soluções de mobilidade devem ser locais ou globais? O que funciona no Brasil funciona nos Estados Unidos ou na Indonésia?

Quando olhamos para as soluções globais, elas devem resolver problemas em boa parte das cidades. É claro que elas podem depender de infraestrutura (rede, transporte de massa) e algumas regiões podem ter uma deficiência maior.

Quando olhamos para o Brasil ou para a América do Sul, vemos que temos deficiências no transporte de massa. Isso faz diferença nas soluções que podem estar no meio da jornada. Mas outras soluções onde você usa a infraestrutura já existente são mais fáceis de serem aplicadas, como o compartilhamento de veículos.

A ideia é que a Ford possa compartilhar todas as soluções. No caso da Chariot, o serviço já existe nos EUA, temos a ideia de expansão no mercado doméstico primeiro. Somente depois vamos ver se o programa se encaixa em outros países, inclusive aqui no Brasil. Temos de ir procurando as oportunidades.

Qual papel entidades governamentais têm nesse processo de mudança?

Os governos têm papeis importantes na evolução. Inclusive dentro de regulação, soluções de infraestrutura, etc. Muitas cidades estão engajadas na busca de soluções de mobilidade que podem deixar a vida das pessoas mais confortáveis.

Vamos participar da Virada da Mobilidade aqui em São Paulo. Especialistas, empresas e governos estarão discutindo esse assunto e soluções benéficas para a cidades no curto, médio e longo prazo. A Ford faz questão de participar dessas discussões. Pensamos que podemos contribuir.