CALM: um Airbnb para refugiados

Raquel Beer, de Paris

A França é o terceiro país europeu mais procurado por refugiados, atrás da Alemanha e da Suécia. Mais de 25.000 pessoas obtiveram o status de refugiado no país no ano passado. Muitas delas não falam francês, vivem isoladas em centros humanitários e só conhecem os poucos franceses que são pagos para cuidar delas. Enquanto o discurso da exclusão ganha força na política, um grupo de empreendedores tenta tornar a inclusão menos traumática.

Uma das iniciativas bem sucedidas com esse propósito é o aplicativo CALM, sigla para “Comme à la Maison” (“como em casa”, em francês). Com um algoritmo, o app encontra um lar provisório na casa de um anfitrião que tenha interesses em comum com o refugiado, que vira um amigo em potencial. Os resultados impressionaram até o governo francês, que vai investir 5 milhões de euros no projeto.

Para se tornar um anfitrião, é preciso ter um quarto privativo disponível em casa, com condições de higiene básicas. Se esse for o caso, o anfitrião preenche o mesmo formulário que os refugiados, que pede informações pessoais básicas, como idade e status civil, e também dados sobre percurso profissional e hobbies. É então que o algoritmo entra em ação, analisando os perfis de anfitriões e hóspedes em potencial até encontrar o match perfeito. Depois, a dupla se encontra e, se o santo bater, ambos assinam o contrato de hospedagem, que determina data de chegada e saída e as regras que devem ser respeitadas dos dois lados. Ao longo da experiência, a equipe do CALM mantém contato para saber se tudo corre bem, e também há encontros entre as famílias anfitriãs e entre os refugiados para estimular a troca de experiências.

O app foi lançado em 2015, e de lá para cá 10.000 famílias já se cadastraram abrindo a porta de suas casas e 380 refugiados já foram acolhidos. Mas o diferencial do CALM é o que acontece além da hospedagem: nos últimos dois anos, 44,2% dos refugiados encontraram um emprego com a ajuda de seu anfitrião — o programa com o mesmo objetivo promovido pelo governo francês tem uma taxa de sucesso de 8%. Em média, os refugiados ficam três meses com o anfitrião e 61,5% deles conseguem encontrar uma casa para si também graças à família que lhes acolheu. Com o investimento do governo, o CALM deve ligar mais 14.00 refugiados a famílias francesas até o fim do ano.

A música como elo

Adnan* é um jovem sírio de 25 anos. Graduado em tecnologia de informação, ele fugiu de seu país ao terminar a faculdade, momento no qual os jovens são recrutados pelo exército na Síria. Ele chegou à França em 2015, e depois de morar com um tio em uma cidade do interior acabou vindo a Paris em busca de emprego e oportunidades de estudo. Foram os professores da escola de TI onde fazia um curso que lhe apresentaram o app.

Desde dezembro, Adnan vive em uma cidade periférica a Paris, chamada Chaville. Ele ocupa o quarto que antes era do filho do administrador francês Philippe Nillus. Quando o jovem de 18 anos saiu de casa para viajar pela Austrália em novembro passado, Nillus se inscreveu no app e em três meses foi conectado a Adnan. Os dois se encontraram, bateram um papo, deram-se bem e em uma semana começaram a morar juntos.

O que fez dos dois um match? O amor que consagram à música. Além de ser técnico da informação, Adnan é violonista e cantor de música clássica. Nillus não dispõe desses talentos, mas tem na música uma de suas maiores paixões. Os dois passam grande parte do tempo que têm juntos falando sobre canções e bandas de que gostam. “O Adnan me apresenta algumas composições sírias e eu lhe mostro os clássicos franceses. Ele não conhecia Geroge Brassens, imagine só”, diz Nillus. Os dois tentam sempre realizar as refeições juntos e conversar em francês, mesmo que às vezes tenham que recorrer ao inglês para resolver questões pontuais.

Além de abrigá-lo e ajudá-lo com o idioma, o empresário francês também auxilia Adnan com questões burocráticas e estratégias de desenvolvimento profissional. O sírio está fazendo um curso de francês e há algumas semanas perguntou se Nillus poderia ajudá-lo a encontrar um emprego para lavar pratos em um bar, mas o empresário francês lhe aconselhou a desistir da ideia. “Ele tem um diploma de TI, uma profissão muito procurada na França. Disse para ter paciência, vamos encontrar algo que faça sentido para a sua carreira”, conta Nillus.

O francês mostrou a Adnan a chamada Apec (sigla para Associação para Empregos Executivos, em português), plataforma francesa específica para pessoas que já tenham completado a graduação e estejam procurando um posto de trabalho. Adnan tem uma entrevista marcada para os próximos dias para uma vaga de técnico de TI em uma empresa. “A minha ideia é conseguir um emprego e ano que vem fazer um mestrado por aqui. Não sei se quero ficar para sempre na França, porque a minha família ainda está na Síria, mas o Philippe consegue fazer com que eu me sinta em casa aqui”, diz Adnan.

Um projeto maior

O CALM é um dos vários projetos promovidos pela Singa, empresa social fundada em 2012 por dois jovens franceses graduados em Relações Internacionais. O objetivo deles era integrar os refugiados à sociedade evidenciando tudo o que eles têm a oferecer para os franceses. O primeiro projeto desenvolvido por eles foi a promoção de atividades coletivas, que ainda é a base da associação. Nele, tanto um parisiense pode dar um curso de francês aos outros membros da comunidade, como um sírio pode ensinar árabe. Há também jogos de futebol, sessões de dança, curso de crossfit, visitas a museus…

Qualquer um pode coordenar a atividade que quiser, é só avisar a equipe do Singa para que eles convidem os outros membros que possam se interessar e ajudem a tornar a atividade a mais inclusiva possível. “Em vez de termos uma partida de futebol com um intervalo, estabelecemos quatro pausas, porque esses são os momentos em que eles conversam”, conta Nathanael Molle, fundador franco-brasileiro da associação (sua família materna é de Pernambuco).

Hoje a comunidade conta com 25.000 participantes, incluindo refugiados de 37 nacionalidades diferentes. Eles também têm parcerias com seis universidades parisienses, onde os cursos de francês são promovidos. A cada mês, 600 pessoas se encontram para compartilhar experiências em atividades desenvolvidas para estimular os participantes a interagir.

Com o tempo, a comunidade também se tornou base para ajudar os refugiados a encontrar oportunidades de emprego. Se um deles tem formação farmacêutica, a Singa entra em contato com algumas farmácias para intermediar a situação e ajudá-los a conseguir uma entrevista. “O problema é que muitas das ONGs que lidam com refugiados têm uma posição política de esquerda e veem as empresas como inimigas. Propomos o contrário: queremos as empresas do nosso lado para que os membros da comunidade Singa tenham mais oportunidades”, diz Nathanael.

O mais novo projeto da Singa é um espaço de coworking no nordeste de Paris. Ali, refugiados que queiram iniciar um projeto ou abrir um negócio podem se reunir de graça, algo bastante útil em uma cidade onde o aluguel é caríssimo. O espaço também é aberto a empreendedores franceses, mas eles precisam pagar uma tarifa para utilizar o espaço. A ideia é criar mais um ponto de convivência profissional entre as pessoas e ampliar ainda mais a comunidade.

A Singa está presente em quatro cidades francesas (Paris, Lyon, Montpellier e Lille), mas também tem representantes em outros países, pessoas que procuraram a associação e receberam uma consultoria para abrir uma Singa local. Isso aconteceu no Canadá, Alemanha, Bélgica, Suíça, Marrocos, Itália, Hungria e Grécia.

Para se sustentar financeiramente, a Singa ainda atua como consultoria para companhias que queiram criar ações inclusivas para refugiados. Na França, toda empresa com mais de 200 funcionários é obrigada a apresentar um relatório sobre as ações e impactos sociais. É aí que eles entram. “Nós montamos projetos úteis de colaboração entre empregados e refugiados”, diz. Um exemplo é uma parceira com uma empresa de para-brisas, que capacita os refugiados para trocarem os vidros.

Os fundadores ainda estão pensando em como tornar o aplicativo CALM rentável, mas já descartaram a hipótese de vender o algoritmo à iniciativa privada ou ao governo. O que consideram agora é criar alianças com novas empresas, ou trazer as que já são parceiras para esse projeto também. “Se um mercado topasse dar descontos para as famílias que participam do projeto, seria muito legal. Mas ainda estamos trabalhando nisso”, conta.

Singa no Brasil?

Junto com a Índia, o Brasil é o país referência em políticas de acolhimento de refugiados. Existem iniciativas de ajuda humanitária e mesmo cursos gratuitos de português destinados a ajudá-los. Mas Nathanael ressalta que hoje o país acolhe menos de 9.000 refugiados, e que se esse fluxo começar a crescer, a situação se tornará mais delicada. “Uma grande parte da população brasileira não tem suas necessidades atendidas pelas políticas públicas”, diz. “Se os programas para refugiados forem expandidos, essas pessoas devem começar a questionar porque os refugiados estão recebendo ajuda quando os próprios brasileiros estão desamparados. É natural”.

Segundo ele, para que esse não seja um problema no futuro, é preciso mudar desde já as políticas para refugiados, até agora muito focadas na questão humanitária, para iniciativas que os integrem realmente à sociedade. Questionado sobre planos de abrir uma unidade da Singa no Brasil, ele descarta a hipótese. “Essa é uma iniciativa que tem que partir do povo brasileiro. Vai ser mais produtivo se trabalharmos com organizações que já existem no país e se interessem pela forma como abordamos a situação”, diz.

*Nome fictício