Brasileiro está por trás de aplicativo para iPhone que virou febre

Mike Krieger conta em entrevista como foi a criação do programa e os planos para 2011

São Paulo – Febre destas férias em sites como o Twitter e o Facebook, o Instagram é um aplicativo para iPhone que mistura filtros para fotos e recursos de rede social. Por meio dele, o usuário pode registrar uma imagem, aplicar filtros especiais sobre ela e publicar em sua conta. Também pode seguir e ser seguido por outros contatos.

Em pouco mais de três meses após a sua oferta, o Instagram já acumula mais de 1 milhão de downloads na App Store da Apple e o Brasil está entre os quatro maiores em número de usuários. O que pouca gente sabe é que o aplicativo foi desenvolvido por um brasileiro, o paulistano Mike Krieger.

Batemos um papo com Krieger, que nos contou como chegou aos Estados Unidos, como se juntou a Kevin Systrom, seu sócio na empresa, e os planos do Instragam para 2011. Confira:

INFO – Pode contar qual a sua relação com o Brasil, quando deixou o país e como chegou aos Estados Unidos?

Mike – Sou brasileiro nato, morei a maioria da minha vida em São Paulo (também morei em Portugal e Buenos Aires). Em 2004, me mudei pra Palo Alto, na Califórnia, para estudar em Stanford. Hoje, faz dois anos que estou em São Francisco.

INFO – Antes de entrar para o Instagram você esteve envolvido com outros projetos de start-up, certo? Quais foram e como foi a experiência?

Mike – Estive sim. Há alguns anos que eu me interessei pela tecnologia e pelas empresas de start-up. Na faculdade, participei de alguns projetos pequenos, inclusive de duas aplicações de iPhone e alguns sites para web.

Depois da faculdade, eu trabalhei por um ano e meio na Meebo, uma start-up em Mountain View, também na Califórina. Eu entrei na empresa como um designer de experiência de usuário, mas como é comum em empresas de start-up, acabei trabalhando também em diversas várias áreas da empresa; desenvolvi alguns recursos do site Meebo.com e também do Meebo Bar, o produto que eles disponibilizam para desenvolvedores que querem ter chat em seus próprios sites.

Acabei me inspirando muito pelos fundadores da Meebo, o Seth [Sternberg ], a Elaine [Wherry ] e a Sandy [Jen], e quando a oportunidade surgiu para entrar numa start-up bem no começo eu decidi sair para juntar-me ao Kevin Systrom [cofundador do Instagram junto com Mike e atual CEO da empresa].

INFO – Quando e como você conheceu o Kevin? Como surgiu a ideia do aplicativo?

Mike – Nós dois fizemos parte de um programa para jovens empreendedores em Stanford, chamado de Mayfield Fellows Program. É um programa de nove meses, seis meses de aula e três meses de estágio em uma empresa start-up. Eu acabei trabalhando na Foxmarks, atual Xmarks, fundado por Mitch Kapor, que formou a Lotus nos anos 1980.

O Kevin estava trabalhando numa outra start-up, a NextStop (que foi comprada pelo Facebook), e trabalhava nos fins de semana num projeto chamado Burbn, que era uma aplicação parecida com o Foursquare, mas feito completamente em HTML5. O Burbn funcionava pelo browser do celular, em vez de ser uma aplicação que precisava ser instalada.

Depois de dois meses trabalhando numa versão do Burbn, o Kevin me convidou para entrar na empresa, e juntos nós vimos que o Burbn, por melhor que ele tivesse sido bem recebido pelos nossos amigos, era muito complicado. A gente percebeu que a parte mais legal do Burbn, as fotos ligadas em lugares no mundo real, já seria um produto interessante. Três meses depois acabamos lançando o Instagram, que foi uma evolução do Burbn.


INFO – Como o Instagram pretende se tornar rentável uma vez que o download do app é gratuito?

Mike – O app principal continuará gratuito. Temos várias ideias de como podemos começar a gerar receitas, por exemplo, com recursos adicionais que podem ser comprados pelo sistema de “In-App Purchasing” da Apple, dentro da aplicação.

INFO – O Instagram tem se tornado uma verdadeira febre desde que foi ofertado, impulsionando até ainda mais o desejo pelo iPhone. Com quantos milhões de usuários vocês planejam terminar o primeiro semestre?

Mike – Não temos uma projeção exata, mas superamos a marca de 1 milhão de usuários no final de dezembro, e continuamos com um ótimo ritmo de crescimento.

INFO – Vocês possuem números específicos sobre o número de usuários no Brasil? Como vocês têm olhado para esse mercado?

Mike – O Brasil já é um dos quatro países que mais usa o Instagram, junto com os Estados Unidos, o Japão e a Inglaterra. Fico muito feliz com a atenção que estamos recebendo no país. Quando voltei pra São Paulo em dezembro para visitar a minha família, me surpreendi com o número de lugares que visitei e que haviam sido fotografados para o Instagram — inclusive o Bar do Cidão, onde fui ouvir um chorinho ao vivo e vi que já tinham várias fotos postadas de lá.

Para mim, a parte mais legal do nosso sucesso no Brasil é que eu posso acompanhar “ao vivo” a vida de meus amigos e da minha família, mesmo estando longe.

INFO – Em quantas línguas o Instagram está disponível atualmente?

Mike – Estamos disponíveis em inglês, português, espanhol, alemão, italiano, francês, chinês, japonês e russo. Foram os próprios membros da comunidade do Instagram que fizeram as traduções.

INFO – No momento, vocês são quatro funcionários, certo? Como é o sistema de divisão de trabalho da empresa?

Mike – Correto, somos apenas quatro por enquanto. Nos primeiros quatro meses da empresa, eram só eu e o Kevin trabalhando no Instagram. Ele fez a maioria do design visual do produto enquanto eu fiquei responsável pela programação. Logo depois que nós lançamos o produto, tinha um monte de gente escrevendo e-mail para nós, com perguntas técnicas, elogios etc., e então contratamos o Josh, que é o nosso Community Manager. Em novembro, o Shayne entrou na empresa, e ele está nos ajudando com a programação.


INFO – Vocês receberam algum aporte para a criação da empresa? E agora, já houve alguma proposta de compra?

Mike – Recebemos um investimento de US$ 500 000 de dois investidores angel, ou seja, de fase inicial: o Baseline Ventures e o Andreessen Horowitz. Já houve interesse em comprar a empresa, mas a nossa intenção é continuar numa trajetória independente.

INFO – Por que vocês ainda não apresentaram uma versão para Android?

Mike – Com só quatro pessoas (e só três engenheiros), seria difícil manter a qualidade que nós desejamos no nosso produto em duas plataformas. Mas o nosso plano é crescer bastante em 2011 e chegar ao Android.

INFO – Em média, quantas imagens vocês recebem por dia? Qual o espaço que o vosso data center ocupa?

Mike – Nosso serviço está hospedado na plataforma de cloud da Amazon, então o nosso data center é virtual e bem flexível—como nós estamos em fase de pleno crescimento e recebemos mais de duas fotos por segundo, é superimportante que a gente possa ampliar a nossa capacidade de uma forma dinâmica.

INFO – Você pretende retornar ao Brasil em breve?

Acabei de voltar de São Paulo na quinta passada, fui visitar a minha família (tenho família em São Paulo e Curitiba), agora já estou contando os dias até a minha próxima visita!