Ataques de hackers mostram alcance global de Kim Jong-un

A suposta capacidade da Coreia do Norte para hackear a Sony está estendendo a influência do líder do país muito além do alcance dos seus mísseis

Seul – A suposta capacidade da Coreia do Norte para hackear a Sony Pictures Entertainment está estendendo a influência de Kim Jong-un muito além do alcance de seus mísseis.

Enquanto a Coreia do Norte mantém as autoridades ocidentais de defesa especulando há anos a respeito de um programa nuclear que o país pode ou não usar alguma vez, a capacidade do regime de travar uma guerra cibernética dá uma nova dimensão à postura internacional do país.

“Existe essa imagem de que a Coreia do Norte nunca leva suas ameaças adiante”, disse Bruce Klingner, pesquisador sênior sobre o Nordeste da Ásia na Heritage Foundation em Washington e ex-subdiretor da divisão para a Coreia da CIA. “Mas às vezes eles cumprem. Você não pode sempre descartar as ameaças da Coreia do Norte como se fossem palavras ao vento”.

A família Kim é frequentemente ridicularizada na imprensa europeia e norte-americana por seu estilo de governo totalitário e pelas rajadas de injúrias antiocidentais. E, no entanto, a zombaria à excentricidade do regime ignora o poder tecnológico da Coreia do Norte em áreas onde o país escolhe colocar recursos. A Coreia do Sul já acusou a Coreia do Norte de numerosos ataques nos últimos cinco anos e agora Pyongyang pode estar mostrando seu alcance global.

Em junho, a Coreia do Norte prometeu “destruir impiedosamente” qualquer pessoa associada ao filme “A entrevista”, uma comédia de ação da Sony Pictures sobre um plano para assassinar Kim. Seis meses depois, a Sony Pictures cancelou o lançamento do filme depois que hackers invadiram seus sistemas de computadores.

“O medo em relação à capacidade de hackeamento da Coreia do Norte e também de suas capacidades ofensivas gerais aumentou”, disse Kim Jin Moo, pesquisador da Coreia do Norte no Instituto para Análises de Defesa da Coreia, administrado pelo Estado, com sede em Seul. “A percepção de que a Coreia do Norte é uma terrível ameaça se tornou mais forte”.

Tentativas de roubo

A intimidação cibernética norte-coreana não é surpresa para a Coreia do Sul. O país diz que a Coreia do Norte realizou seis grandes ataques cibernéticos às suas instituições desde 2009, que custaram US$ 780 milhões ao país. Isso inclui um ataque a um dos maiores bancos da Coreia do Sul, o Nonghyup, impedindo por dias que cerca de 30 milhões de correntistas sacassem dinheiro em 2011.

Em resposta, o governo planeja mais do que dobrar o tamanho de sua unidade de defesa cibernética para cerca de 1.000 pessoas em 2030, enquanto o Ministério de Ciência alertou em janeiro que a Coreia do Norte vem aumentando os esforços para roubar informações de computadores usando a invasão de e-mails.

No dia 20 de dezembro, a Coreia do Norte negou ser responsável pelo ataque hacker à Sony e exortou os EUA a se unirem ao país para encontrar o verdadeiro culpado. O FBI havia culpado a Coreia do Norte pelo ataque na véspera.

“Não podemos ter uma sociedade na qual algum ditador em algum lugar possa começar a impor a censura aqui nos Estados Unidos”, disse Obama a repórteres, em Washington, no dia 19 de dezembro.

Armas assimétricas

Durante décadas a Coreia do Norte tentou compensar o deterioramento das forças convencionais de combate desenvolvendo bombas nucleares, mísseis balísticos e artilharia de longo alcance. Nos últimos anos, o país adicionou hackers de elite à sua lista de armas assimétricas em um momento em que Kim projeta uma nova era sob sua liderança.

Embora a Coreia do Norte esteja classificada nos níveis mais baixos em termos de infraestrutura de internet, o país possui uma unidade de elite formada por 3.000 especialistas cibernéticos, além de um exército de 1,2 milhão de soldados e um programa de armas nucleares, disse o então ministro da Defesa da Coreia do Sul, Kim Kwan Jin, no ano passado, em uma conferência.

“Kim Jong-un se interessa tanto pelo hackeamento porque as habilidades cibernéticas são a maneira de fazer uma guerra com melhor custo-benefício”, disse Kim Heung Kwang, um desertor norte-coreano que deu aulas no Hamheung Computer College, por telefone. “Ataques hacker podem ser realizados até mesmo em tempos de paz e custam pouco se comparados com o desenvolvimento de armas de destruição em massa. Realmente valem o tempo e o esforço”.