As crianças precisam mesmo aprender a programar?

O mais importante pode não estar nos códigos, mas em habilidades humanas que máquinas não podem replicar, como empatia e solução de problemas

Medford, Massachusetts – Amory Kahan, de sete anos, queria saber quando seria a hora do lanche. Harvey Borisy, de cinco, reclamou de um arranhão no cotovelo. E Declan Lewis, de oito, perguntava-se por que o robô de madeira de duas rodas que estava programando para fazer os passos de canção infantil Hokey Pokey não funcionava. Ele suspirou: “Para frente, para trás e para”.

Declan tentou de novo e, dessa vez, o robô sacudiu para trás e para frente no carpete cinza. “Ele fez!”, gritou. Amanda Sullivan, coordenadora do acampamento e pesquisadora com pós-doutorado em Tecnologia da Primeira Infância, sorriu. “Eles estão trabalhando em seus Hokey Pokeys”, explicou.

As crianças deste acampamento de férias organizado pelo Grupo de Pesquisa de Tecnologias do Desenvolvimento da Universidade Tufts estão aprendendo habilidades típicas: construir com blocos, revezar-se e perseverar depois de uma frustração. Segundo os pesquisadores, também estão adquirindo as habilidades necessárias para ter sucesso em uma economia automatizada.

Os avanços tecnológicos tornaram um número cada vez maior de empregos obsoletos na última década, e os pesquisadores afirmam que partes da maioria das funções eventualmente acabarão automatizadas. Como vai ser o mercado de trabalho quando as crianças de hoje forem adultas o suficiente para entrar nele é talvez mais difícil de prever do que em qualquer outra época da história recente. Os empregos provavelmente serão muito diferentes, mas não sabemos quais vão existir, quais serão feitos por máquinas e quais ainda serão criados.

Para se preparar, as crianças precisam começar ainda na pré-escola, segundo os educadores. Habilidades fundamentais que afetam a maneira como elas se sairão na economia moderna são desenvolvidas cedo, e as lacunas de realização aparecem antes do jardim da infância.

Nervosos sobre o futuro, alguns pais estão incentivando os filhos a aprender programação já com dois anos, e defensores dessa ideia dizem que é tão importante quanto aprender letras e números. Muitos pesquisadores e educadores, porém, afirmam que o foco na programação está errado e que as habilidades mais importantes a ensinar estão relacionadas com brincar com outras crianças e não têm nada a ver com máquinas: habilidades humanas que máquinas não podem replicar, como empatia, colaboração e solução de problemas.

“É errado achar que simplesmente aprender a programar é a resposta”, diz Ken Goldberg, reitor da Engenharia da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Não precisamos que todos sejam programadores de Python extremamente capazes. Uma maneira de entender no que as máquinas são boas e no que não são – isso é uma coisa que todos precisam aprender.”

Não que a tecnologia deva ser evitada. Muitos pesquisadores afirmam que as crianças devem ser expostas a ela. Mas não sabemos o que as máquinas vão poder fazer em duas décadas e muito menos quais linguagens de programação os engenheiros de software vão usar. E as crianças aprendem melhor, dizem eles, brincando e construindo ao invés de sentadas atrás de telas.

“Não queremos todas essas crianças sentadas na frente de um computador”, explica Marina Umaschi Bers, professora de Ciências da Computação e Desenvolvimento Infantil que dirige o grupo de pesquisa da Tufts. “Queremos que andem por aí e trabalhem umas com as outras.”

Umashi Bers desenvolveu o robô Kibo que Declan estava usando e a ScratchJr, uma linguagem de programação para crianças abaixo dos sete anos. Mas ela acredita que o ponto principal seja ensinar pensamento computacional. Isso significa essencialmente dividir o problema em partes menores e criar planos para resolvê-las – com protótipos, comentários e revisões – em todos os setores da vida.

“Isso é a chave da programação e da vida”, afirma ela. O currículo criado por ela, usado em escolas nos Estados Unidos e no exterior, ensina habilidades como saber compartilhar e perseverar e está interligado com todos os assuntos diários da escola: as crianças programam um robô para interpretar a história que estão lendo, por exemplo.

Essas ideias começaram a surgir há cinco décadas com o matemático e teórico educacional Seymour Papert. As crianças aprendem melhor não quando um professor ou um computador lhes dá o conhecimento, disse ele, mas seguindo sua própria curiosidade e fazendo coisas, seja um castelo de areia ou um robô. Como programadores de computador, elas cometem erros e resolvem problemas ao longo do caminho.

Em 2006, Jeannete Wing, cientista da computação da Universidade de Colúmbia, revisitou a noção do pensamento computacional como uma habilidade que todos deveriam aprender e usar. “Pensamento computacional é a maneira como os humanos resolvem problemas”, escreveu, e deu exemplos do dia a dia: “Quando sua filha vai para a escola de manhã, ela coloca na mochila as coisas que vai precisar durante o dia. Isso é busca e armazenamento”.

No acampamento de verão da Tufts, as crianças estavam programando o robô – que não tem tela, mas usa blocos coloridos de madeira e um scanner de código de barras – construindo uma sequência de blocos com comandos como “virar à direita” ou “girar”.

Eles já aprenderam uma peça importante de sintaxe: o programa precisa começar com um bloco verde “início” e terminar com um vermelho “fim”. Nico Luker, de seis anos, decidiu testar o que aconteceria se ele escaneasse um programa sem o bloco “fim”. “Não vai funcionar sem um fim”, previu Noam Webber, de seis anos. Ele estava certo: o robô permaneceu parado.

Enquanto isso, as crianças estavam aprendendo a trabalhar em grupo, a fracassar e a compartilhar. “A tecnologia pode ser um veículo para ajudar as pessoas a criar e a colaborar melhor, mas, no final das contas, elas precisam aprender a trabalhar umas com as outras”, afirma Umaschi Bers.

Para começar, os professores colocam todos os materiais sobre as mesas, e as crianças usam o que precisam. Algumas tentam pegar tudo, o que leva a uma conversa sobre compartilhamento e escolhas éticas.

Há uma área de testes, onde os pequenos recebem pontos por quantas vezes tentam algo que não dá certo. “Não criamos um ambiente artificial onde tudo vai funcionar”, explica Umaschi Bers. “Deixamos que fiquem frustradas porque só vão aprender a lidar com a frustração quando derem de cara com ela.”

Ensinar habilidades sociais e emocionais está na moda na educação hoje, mas tem sido parte do ensino de qualidade por décadas, e testes randômicos ao longo do tempo mostraram como isso é importante para o sucesso na idade adulta, afirma Stephanie M. Jones, professora de Educação da Universidade Harvard que estuda desenvolvimento social e emocional.

“Se você cria e educa as crianças para serem flexíveis e boas comunicadoras e para resolverem problemas, elas podem se adaptar a esse mundo novo”, afirma.

Claire Cain Miller e Jess Bidgood | © 2017 New York Times News Service

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