A nova aventura da PlayKids: criar games seguros para crianças

Empresa de conteúdo infantil, parte da gigante de tecnologia Movile, vê potencial no entretenimento educativo e protegido de crimes

A empresa brasileira de conteúdo infantil PlayKids foi fundada há seis anos e atende cinco milhões de usuários em 187 países. Para continuar crescendo, porém, precisa apostar nas novas preferências de seus pequenos usuários sem perder o que a trouxe até aqui: a preocupação com o conteúdo disponibilizado.

A aposta da empresa para isso é em novo tipo de jogo. A estratégia consiste em uma mistura do jogo Minecraft, que pertence à Microsoft e tem quase 100 milhões de usuários mensais, a recursos que desenvolvem soft skills, como tomada de iniciativa e colaboração em equipe. Como a empresa é voltada ao público infantil, a segurança e bem-estar precisam de atenção especial. Por isso, recursos de proteção são indispensáveis em conversas entre crianças e maiores de idade. A PlayKids equilibrou todas essas facetas ao inaugurar uma área para criar jogos de celular atrativos, proveitosos e seguros. Seu primeiro invento, o game para celular Crafty Lands, já tem dois milhões de downloads.

“Não queremos limitar nossa empresa a apenas uma missão. Podemos combinar diversão com a educação de conceitos que as escolas não exploram, como a transformação positiva pelo desenvolvimento de habilidades socioemocionais”, afirma Guilherme Martins, presidente da PlayKids.

Fábrica de jogos

A PlayKids começou a apostar em jogos há cerca de um ano, com um game chamado Voxel — hoje substituído pelo Crafty Lands. Ambos foram desenvolvidos a partir de partes do Minecraft abertas a programadoresO começo da transição de Voxel para Crafty Lands se deu em outubro de 2018, quando a PlayKids realizou uma pesquisa com funcionários e ouviu que a empresa precisava criar novos projetos de inovação. A percepção se transformou em contratações do mercado de games e um projeto estruturado de desenvolvimento de jogos dentro da PlayKids, que levaria ao lançamento do Crafty Lands há três meses.

O Crafty Lands é familiar para quem já jogou Minecraft, mas há diferenças notáveis. O Crafty Lands não possui servidores online, barrando interação com outros jogadores. A PlayKids criou um mecanismo de construção e destruição mais simples, voltados a jogadores de menor idade. Por fim, zumbis e animais agressivos foram eliminados. 

Há bichinhos de estimação que seguem o jogador, assim como no Minecraft — uma forma de as crianças se sentirem menos solitárias em um ambiente offline. No futuro, assim como no Minecraft, o Crafty Lands permitirá que os usuários montem seus mapas. Eles serão votados e os melhores cenários serão adicionados de forma oficial ao game. “Acreditamos que essa é uma solução anônima para que a criança aumente sua autoestima”, afirma Martins.


Em 90 dias de operação, o jogo teve dois milhões de downloads e registra 1,8 milhão de usuários ativos. A recepção fez a PlayKids começar a criar games derivados. O Crafty Colors é um jogo lançado há menos de um mês para pintar desenhos pixelados. Essas criações coloridas podem ser embutidas em cenários reais apontando o celular, por meio da realidade aumentada — o mesmo mecanismo que permite encontrar pokémons nas ruas ao jogar o bem sucedido Pokémon Go, da Niantic.

Novos projetos e respostas a crimes

Para os próximos meses, a empresa pretende lançar em terras brasileiras o PlayKids XD, um ambiente colaborativo online em que é possível criar o próprio boneco e ter a própria residência virtual. O jogo já está disponível na Austrália e no Canadá.

Criar um servidor com diversos jogadores levanta preocupações sobre o contato das crianças com possíveis adultos — que já levaram a casos de pedofilia e interações pornográficas mesmo em supostos jogos infantis e com o trabalho incessante de moderadores de conteúdo. O Crafty Lands trouxe um público mais velho à PlayKids, dos adolescentes aos idosos, e o movimento deve ser repetido no PlayKids XD. Por isso, a startup incluiu recursos para impedir interações liberadas entre as diferentes demografias.

“Atingimos um público mais variado, mas temos de coibir crimes. Para isso, usamos nossa experiência de conteúdo e interação para que nossos jogos sejam vistos dentro e fora da empresa como uma boa experiência aos seus usuários”, diz o presidente da PlayKids.

Os servidores possuem poucos usuários, facilitando o controle, e é possível criar servidores fechados para que uma criança jogue apenas com seus amigos de escola, por exemplo. Não é possível ter conversas livres: os jogadores precisam selecionar opções de frases dadas no próprio PlayKids XD. O recurso de chats prontos é visto em diversos games, como a versão para console do jogo Overwatch (Blizzard).

Estratégia de crescimento (e de rentabilidade)

Algumas formas de monetização estão na mesa para os jogos da PlayKids para os próximos meses. A empresa estuda cobrar uma assinatura mensal, como já faz em seus outros produtos; oferecer funcionalidades pagas, como compra de desenhos mais elaborados para o Crafty Colors; lançar pacotes pagos para datas comemorativas e estações do ano, como se vê também no Overwatch; e, por fim, exibir anúncios apenas para o público com maior idade.

O foco, porém, está mais em tração do que em rentabilidade. A PlayKids estima que seus games chegarão a 10 milhões de downloads. Contando todas as suas frentes de conteúdo, a PlayKids espera crescer 40% neste ano. Uma boa parte dessa porcentagem, portanto, virá de sua mais nova área.