A BitTorrent contra a nuvem

Carol Oliveira

A BitTorrent marcou a geração na casa dos 30 anos como o melhor caminho para baixar arquivos legais e piratas na internet. Criada pelo programador Bram Cohen em 2004, em São Francisco, a empresa popularizou a tecnologia de compartilhar músicas, filmes e softwares de um computador para o outro. Em tempos de Netflix, Spotify e serviços em nuvem, parece coisa do século passado. E talvez realmente seja. Tanto que a BitTorrent ficou por aí, meio em banho maria, até que, agora, a companhia tenta fazer frente às gigantes do streaming.

Ao longo dos últimos anos, a companhia de Cohen vem trabalhando em sua própria plataforma de streaming, o BitTorrent Now. Lançada em 2013 sob o antigo nome de BitTorrent Bundle, o site tem a pretensão de ser referência em compartilhamento de conteúdo autoral. Ao contrário das concorrentes que vêm povoando o mercado de streaming nos últimos anos, o projeto não pretende disputar os milionários direitos de Hollywood ou artistas de renome mundial. O pulo do gato, a princípio, é atrair criadores independentes em busca de uma plataforma de divulgação para seu produto.

Esse conteúdo pode ser de qualquer tipo, desde que autoral: livros, filmes, documentários, músicas. O aplicativo da plataforma está disponível para dispositivos Android e iOS, e funciona como qualquer serviço de streaming: basta clicar e assistir.

A diferença, aqui, é que a empresa não armazena o conteúdo em seus servidores, e continua utilizando os computadores dos clientes para armazenar e distribuir o conteúdo – a máquina de cada espectador também vira um centro transmissor. Há um mês, o BitTorrent Now anunciou também uma versão para a Apple TV, e mais de 200 milhões de pessoas já usaram.

Segundo dados da empresa, mais de 30.000 artistas e produtoras se conectaram à plataforma. Embora o foco sejam os pequenos, a BitTorrent já teve parcerias com nomes de peso, como as bandas de rock Linkin Park e Pixies e a produtora cinematográfica A24. Em 2013, ninguém menos que a cantora pop Madonna escolheu a plataforma como centro da divulgação de seu secretprojectrevolution, um filme dirigido por ela.

A peça de Madonna foi parte de seu projeto Art for Freedom (arte pela liberdade, em inglês). Ninguém fala tanto em liberdade quanto a BitTorrent: o serviço se propõe a ser um espaço de divulgação diferente, sem as amarras existentes nos serviços tradicionais de streaming. Não cobra assinaturas, não cobra taxas dos produtores e nem ganha por download feito. Os artistas podem cobrar o quanto quiserem por seus conteúdos, mas ficam com toda a grana. Toda a receita do BitTorrent Now vem de anúncios.

A empresa promete devolver aos produtores até 70% do lucro obtido com anúncios, além de disponibilizar ferramentas para acompanhamento detalhado da audiência. E, claro, a empresa usa todo esse bom mocismo como ferramenta de marketing: “sua história, suas regras”, diz um dos slogans. Enquanto isso, o concorrente musical Spotify é constantemente criticado por pagar pouco e limitar artistas e gravadoras – um dos expoentes da polêmica foi a cantora Taylor Swift, que decidiu retirar seu conteúdo de lá em 2014.

Aparentemente, a BitTorrent quer que a relação com os criadores de conteúdo seja melhor que no rival: na última terça-feira 9, a empresa anunciou o lançamento do Discovery Fund, que distribuirá entre 2.500 e 100.000 dólares para cerca de 25 criadores investirem em divulgação. O objetivo do dinheiro não é ajudar na criação de um conteúdo, mas torná-lo conhecido e aprimorá-lo depois de pronto. Acaba sendo mais uma forma de incentivar os novos artistas a escolherem a BitTorrent Now.

Para além da reprodução de material, a BitTorrent também tenta dar seus primeiros passos na criação de conteúdo próprio – seguindo o exemplo de Netflix, Amazon e afins. Durante as convenções democratas e republicanas que aconteceram nos Estados Unidos em julho, a empresa lançou o BitTorrent News, seu próprio canal de conteúdo, que exibiu ao vivo os pronunciamentos – a ideia é produzir programas de esportes, notícias e entretenimento.

O universo dos torrents

Há dez anos, as conexões de internet eram lentas e os servidores, extremamente caros. Assim, costuma-se dizer que o desenvolvimento do protocolo peer to peer (pessoa a pessoa) e sua otimização por meio do BitTorrent foram uma revolução que permitiu transferir grandes arquivos de forma rápida e barata na internet.

A tecnologia peer to peer ou softwares como o BitTorrent, em si, não são ilegais. Mas disponibilizar conteúdo sem direitos sobre ele, sim. Por isso, sites com arquivos de torrent foram constantemente tirados do ar pela polícia da internet ao longo da última década. Resumidamente, não é a tecnologia que está errada, mas sim o modo como é usada. De qualquer forma, a imagem da BitTorrent ficou marcada negativamente como uma plataforma responsável pelo compartilhamento de pirataria.

Agora, para se firmar no mercado de produção e distribuição de conteúdo legal, o desafio da empresa é fugir desse rótulo a ponto de atrair artistas e anunciantes. Muitos argumentam que a BitTorrent deveria bloquear qualquer tentativa de download ilegal que acontecesse usando seu software.

“No futuro, teremos cada vez mais um modelo híbrido entre o peer to peer e o sistema tradicional com alguns grandes servidores”, diz Christian Rothenberg, professor da Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação da Unicamp. Na teoria, faz sentido: com os celulares se tornando cada vez mais potentes, aumentam as possibilidades de todo mundo ter seu próprio centro de distribuição de arquivos na palma da mão.

Um modelo como esse reduziria, inclusive, o gasto para as empresas, que diminuiriam os custos com o aluguel ou a compra de grandes servidores espalhados pelo mundo. A Netflix, por exemplo, aluga servidores de empresas como a Amazon para que seu conteúdo chegue até os usuários nos mais de 190 países em que opera. Com o streaming via peer to peer da BitTorrent, isso não seria um problema. “No modelo de torrent, quem está pagando a conta de eletricidade do dispositivo é o próprio usuário final”, afirma Rothenberg.

Embora seja a última aposta da marca na tentativa de diversificar seus negócios, o BitTorrent Now é apenas a iniciativa mais recente. Nos últimos anos, a empresa já lançou uma série de outros softwares – todos baseados na transferência de dados por torrent. O portfólio da companhia conta, por exemplo, com um rival do aplicativo de mensagens WhatsApp, o Bleep, e com uma plataforma que permite o compartilhamento de arquivos, a Sync.

Mas os números da BitTorrent são modestos: são menos de 200 funcionários trabalhando na sede, em São Francisco, e menos de 3 milhões de dólares de faturamento anual – a maior parte vinda de anúncios disponibilizados em seus diferentes produtos. É o suficiente para a empresa se manter, mas não chega a encher os olhos num mercado de tecnologia dominado por companhias que faturam bilhões.

Se no começo do milênio a BitTorrent foi protagonista de uma revolução na forma como os arquivos são compartilhados, agora tenta se desvincular da pirataria, conquistar novas levas de clientes e, mais uma vez, mudar a forma como o conteúdo é consumido e distribuído na web. Ambição não falta. Concorrência também não.