A Apple, quem diria, quer ser menos viciante

Com uma demanda maior dos consumidores, companhia lança mudanças em seu sistema operacional garantindo maior controle aos usuários

A companhia de tecnologia Apple deu nesta segunda-feira mais uma mostra de como 2018 é o ano de as gigantes do setor tentarem limpar a barra com consumidores e órgãos reguladores. Enquanto Google e Facebook dão satisfações e se desculpam sobre como usam os dados de usuários e direcionam propagandas, a Apple apresentou soluções, durante sua feira para desenvolvedores, chamada de WWDC, inovações para tornar seus aparelhos, em especial os smartphones, menos “viciantes”. Nesta segunda-feira, a empresa apresentou novo sistema operacional do iPhone, o iOS 12, que, entre outras funcionalidades, deve ajudar os usuários a controlar melhor o tempo que gastam nos aplicativos, limitar notificações e até impedir que o celular mande mensagens depois da hora de dormir.

Os novos recursos, que estarão disponíveis a partir do final deste mês como parte do teste público da nova versão do sistema operacional, contam com relatório de atividade, limites para uso de aplicativos e novas habilidades para a função “Não Perturbe”. O centro de notificações também terá novidades, focadas em reduzir o número de interrupções ao usuário e administrar o tempo de uso dos aparelhos para usuários e familiares – é possível, por exemplo, bloquear pushs durante uma reunião ou almoço de família.

Uma nova função chamada tempo de tela ligada mostra semanalmente quanto tempo de uso um iPhone ou iPad teve. Esse recurso já estava disponível em outros aplicativos de gestão de tempo e uso, como o Quality Time, mas agora aparece como função inserida diretamente nos aparelhos da Apple. O recurso pode ser usado para controlar tempo de uso por crianças, por exemplo, em categorias de apps ou individualmente, além de permitir que o usuário maneje melhor como usa o aparelho todos os dias.

Os celulares também passam a permitir que notificações e a luz do iPhone sejam regulados para a hora de dormir, impedindo que a pessoa seja acordada pelo celular e garantindo uma noite melhor de sono.

“No iOS 12, nós estamos oferecendo informação detalhada e ferramentas para que nossos clientes possam entender melhor o tempo que gastam com aplicativos e sites, com que frequência eles checam seus celulares todos os dias e como eles recebem notificações”, afirmou durante o lançamento Craig Federighi, vice-presidente de engenharia de software na Apple.

A demanda por soluções desse tipo é algo que vinha pressionando os desenvolvedores da Apple há algum tempo e se intensificou no início deste ano, quando dois grandes acionistas pediram mais controle parental nos dispositivos. O fundo de investimento Jana Partners e o Fundo de Previdência dos Professores da Califórnia, que juntos detêm mais de 2 bilhões de dólares em ações da Apple, escreveram uma carta aberta à companhia afirmando que era preciso fazer algo para ajudar crianças a lutarem contra o vício em seus aparelhos. “A Apple pode ter um papel definitivo em mostrar à indústria que prestar atenção especial à saúde e desenvolvimento da nova geração pode ser a coisa certa a fazer e ainda assim um bom negócio”, dizia a carta.

Em coluna publicada por EXAME em janeiro, o editor de tecnologia do jornal americano The New York Times, Farhad Manjoo, reitera que não é culpa da empresa que nos sintamos escravizados por nossos smartphones, mas que haveria a oportunidade de a Apple “criar um modelo corajoso e inovador, que nos incentive a usar os telefones de modo mais introspectivo, deliberado e por muito menos tempo”. A oportunidade descrita por Manjoo, aparentemente, foi agarrada pela companhia da Califórnia.

As novas ferramentas que a Apple criou parecem ótimas para atender às críticas, mas nós só saberemos com certeza quando a nova atualização do iOS 12 estiver disponível e as pessoas o estiverem usando. Se a Apple conseguir ajudar seus clientes maneirar o uso de redes sociais e aplicativos, será um ganho de vida concreto para os consumidores. Claro que o bom-mocismo tem como objetivo que, no fundo, a Apple quer mesmo é continuar vendendo iPhones — o produto é responsável pela maior parte do faturamento da companhia, 38 bilhões de dólares no primeiro trimestre deste ano, ou 62,2% do faturamento total.

Quem lidera a disputa global é a coreana Samsung, com fabricantes chineses ganhando terreno em nichos cada vez mais caros. A nova roupagem da Apple pode dar um impulso a mais nesta disputa.

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