Na Apple, o design virou fraqueza

Farhad Manjoo
© 2016 New York Times News Service

Esqueça a questão do fone de ouvido por um segundo.

Claro, é muito irritante que os novos iPhones da Apple – o 7 e o 7 Plus, revelados recentemente em San Francisco e que devem começar a chegar aos clientes em 16 de setembro – não tenham uma entrada para conectar fones de ouvido padrão. Mas você vai se acostumar.

Essa ausência está longe de ser o pior defeito do mais recente lançamento da Apple. Ao invés disso, é um sintoma de uma questão mais profunda que envolve os novos iPhones e um problema que afeta grande parte da linha de produtos da empresa: a estética da Apple está ficando obsoleta.

A Apple vem desperdiçando a liderança que já teve em design de hardware e software. Apesar de os iPhones recém-lançados possuírem vários recursos novos, incluindo resistência à água e câmeras mais modernas, eles são muito parecidos com os antigos. O novo Apple Watch também. E, à medida que os competidores pegam emprestado e começam a suplantar os melhores designs da Apple, o que era icônico nos celulares, computadores, tablets e outros produtos da empresa fica parecendo genérico.

Essa é uma avaliação subjetiva e rebatida pela Apple. A empresa diz que não muda seus desenhos apenas por mudar. O iPhone com design atual, lançado em 2014, vendeu milhões de unidades, então por que mexer com algo que faz sucesso? Em um vídeo que acompanhou o lançamento do iPhone 7, Jonathan Ive, designer chefe da Apple, chamou o dispositivo de “a evolução mais deliberada” da visão de projeto para um smartphone.

Ainda assim, existem sinais de que não estou sozinho em minha crítica aos desenhos da Apple. Designers industriais e críticos de tecnologia normalmente ficavam encantados com os lançamentos de hardware da empresa; hoje você vê menos encantamento e mais perplexidade.

No ano passado, a Apple lançou uma capa com bateria externa que parecia comicamente grávida – “um design embaraçado”, disse o The Verge – e um mouse recarregável com a entrada para o fio na parte de baixo, o que significa que você precisa virar o dispositivo para carregar. E o controle remoto para a Apple TV viola a primeira regra de design desse tipo de equipamento: não faça um simétrico, assim as pessoas podem descobrir as teclas no escuro. (Dica: coloque um elástico em uma das pontas para saber rapidamente de que lado ele está.)

E há o design de interface do software. O Apple Watch, também lançado no ano passado, parecia bacana (e algumas de suas pulseiras são realmente impressionantes), mas a interface para o usuário era tão intrigante e levava tanto tempo para aprender a usá-la que a Apple foi forçada a voltar para a prancheta de desenho. Em uma atualização que será lançada em breve, a interface do relógio foi substancialmente simplificada.

A mesma coisa aconteceu com a Apple Music. Depois que o serviço de streaming foi duramente criticado por sua confusa gama de opções, a Apple precisou redesenhá-lo por completo este ano.

A questão não é só que alguns dos novos produtos da Apple sofrem com erros de design. O maior problema é a falta de prazer. Recentemente, chequei com vários amigos amantes da tecnologia sua avaliação sobre as escolhas estéticas da empresa. “Qual foi o último design da Apple que realmente deixou você deslumbrado?”, perguntei.

Houve um pequeno coro de apoio ao MacBook, o pequeno e lindo (embora com problemas de funcionamento) laptop que a Apple lançou no ano passado. Mas a maioria daqueles que responderam ficou dividida entre o iPhone 4 e o 5 – dois designs corajosos de smartphones que foram instantaneamente reconhecidos como tendo superado qualquer outro do mercado.

O iPhone 5, principalmente, foi uma joia. Para mim, seus lados lisos, as bordas chanfradas e a notável qualidade na construção sugeria algo miraculoso, como se Ive tivesse tido uma inspiração divina em sua sala branca. Mas o iPhone 4 e o 5 foram lançados em 2010 e 2012. Se você precisa voltar para a última eleição presidencial para encontrar um design da Apple que realmente tenha chamado sua atenção, há algo errado aí.

As dificuldades de design da empresa nos levam a duas perguntas: o quanto o problema é ruim? Como a Apple pode resolvê-lo?

A primeira: não é agudo, mas é urgente. Apesar de um declínio no crescimento, a Apple ainda é de longe a empresa de eletrônicos ao consumidor mais rentável do mundo. Pesquisas de satisfação com os clientes mostram que eles amam os produtos. E mesmo que as pessoas que conhecem tecnologia não possam mais se deliciar com os projetos da Apple, não há sinais de que isso tenha afetado as vendas.

Apesar das críticas, a Apple Music também conseguiu 17 milhões de assinaturas em cerca de um ano. A empresa não libera os números de vendas para o relógio, mas muitos analistas acreditam que foram vigorosas, e as pesquisas de satisfação com os clientes mostram números muito altos. E o iPhone tem se provado incrivelmente durável; como argumentei no ano passado, a dominância contínua desse celular é a coisa mais próxima, em tecnologia, a uma aposta certa.

O perigo real está na reputação da Apple em longo prazo. Muito do sucesso da marca foi construído sobre os designs e sobre o sentimento de que tudo o que ela produz é um presente para a vanguarda.

E enquanto a Apple diminuiu a cadência de seus projetos novos, os rivais aumentaram. No ano passado, a Samsung refez sua linha de smartphones Galaxy com um novo design de vidro e metal que parecia praticamente idêntico ao do iPhone.

Só que depois, foi mais longe. Em um período de poucos meses, a Samsung lançou vários refinamentos no desenho, culminando com o Note 7, um celular grande que foi universalmente elogiado pela crítica. Com seus lados curvos e exibição de borda a borda, o Note 7 mostrou um truque bacana: apesar de ser fisicamente menor do que o celular grande da Apple, na verdade tem uma tela maior. Assim, graças ao design inteligente, você consegue mais com uma coisa menor – exatamente o tipo de avanço que antes esperávamos da Apple.

Uma advertência importante: o software da Samsung ainda está inchado e sua reputação de qualidade geral de construção sofreu um golpe quando foi anunciado que a empresa faria um recall e substituiria o Note 7 por causa de um defeito na bateria que causa explosões espontâneas. Já que fazer um dispositivo que não exploda sugere conhecimentos de design, a Apple ainda está à frente da Samsung.

Mas os contratempos dos rivais da Apple não devem durar muito. A empresa não pode se dar ao luxo de descansar sobre os sucessos do passado por muito tempo.