A ameaça silenciosa ao Facebook

Existem dois Facebooks. O primeiro é uma das startups de tecnologia mais bem sucedidas da história e sexta maior companhia do mundo. Após o relatório divulgado no ultimo dia 27, a empresa revelou já ter 1,6 bilhão de usuários. O faturamento, de 18 bilhões de dólares, foi 44% maior que em 2014. Só em publicidade foram 5,2 bilhões no primeiro trimestre do ano, 37% a mais do que o mesmo período de 2014. E um destaque que causa arrepios para leitores brasileiros às voltas com uma crise sem fim: o lucro triplicou em 12 meses, chegando a 1,5 bilhão de dólares.

A rede social criada num quartinho de Harvard já vale 337 bilhões de dólares. Como a previsão é que os lucros continuem a crescer 30% ao ano pelos próximos anos, alguns analistas já avaliam que o Facebook pode chegar a valer 1 trilhão de dólares. É bem verdade que a Apple estava no caminho de virar trilionária há alguns anos e nunca chegou lá (vale hoje 500 bilhões de dólares). Mas o simples fato de ter alguém sonhando com isso demonstra o poder da empresa.

Parece, portanto, estar tudo às mil maravilhas para Mark Zuckerberg e sua turma. Quase. É aí que entra o outro Facebook. Um detalhe aparentemente pouco importante tem sido a preocupação número um da companhia. Uma pesquisa interna do Facebook publicada inicialmente no site The Information, especializado em tecnologia, e que depois foi repercutida em outros veículos e nas redes sociais afirma que os compartilhamentos dentro do Facebook caíram 5,5% em 12 meses.

Pior: as pessoas estão compartilhando menos informações pessoais na plataforma — segundo fontes do The Information, o Facebook viu uma queda de 21% dos compartilhamentos relacionados à sua rotina, família, amigos, etc. Procurado por EXAME, o Facebook disse que não se pronuncia sobre pesquisas que não conhece a metodologia e a fonte.

Isso é fundamental para o futuro do Facebook pois pode comprometer aquilo que o fez famoso em primeiro lugar: uma rede social onde as pessoas compartilhavam a própria vida e as suas informações pessoais. É nessas informações que anunciantes estão interessados para realizar campanhas de publicidade direcionadas, feitas com dados únicos que a rede social armazena de seus usuários. É de interesse das marcas que anunciam no Facebook saber o que os usuários estão fazendo e compartilhando. Se é de interesse de seus anunciantes, é interesse do Facebook também.

“É precipitado tirar conclusões. Mas, se isso impactar a quantidade de informações possíveis para fazer alguma campanha, isso pode, sim, gerar problemas com os investidores. Mas esse dado isolado é pouco pra decretarmos o começo do fim do Facebook”, diz Camila Porto, consultora especializada em marketing digital.

Em empresas normais, pode parecer loucura falar que uma queda no compartilhamento coloque em risco um negócio de 300 bilhões de dólares. Acontece que o Facebook atua num mercado em que os maiores concorrentes podem estar nascendo num computador em qualquer lugar do planeta. E as expansões são tão repentinas quanto as derrocadas. Basta perder relevância. No caso do Facebook, a preocupação é se a rede social pode estar numa crise interna com base naquilo que a fez grande: conectar as pessoas permitindo que elas compartilhem suas vidas.

A melhor solução para essas encruzilhadas costuma ser investir em novas frentes de receita. Aparentemente, é o que vem fazendo o Facebook. A empresa estima que os usuários assistam mais de 100 milhões de horas de vídeo por dia. Tamanha audiência pode tornar o Facebook um grande competidor para o YouTube, canal de vídeo da Alphabet, companhia-mãe do Google. O Facebook está investindo também nos vídeos de realidade virtual, através do Oculus Rift que podem conectar pessoas de diferentes lugares do mundo na “mesma sala”.

Outra novidade é a implementação de chatbots, robôs de inteligência artificial que podem interagir com os usuários diante de palavras-chave. A ferramenta seria indexada ao Messenger, plataforma de conversas do Facebook que já conta com mais de 900 milhões de usuários. No fim das contas, são várias tentativas da companhia de voltar àquilo que era seu pressuposto inicial: tecnologias para conectar as pessoas onde quer que elas estejam. Transformar essas novas frentes em negócios de centenas de bilhões de dólares vai ser bem mais difícil.

(Thiago Lavado)