´Em 15 anos, livro de papel será objeto exótico´, diz Mike Shatzkin

Para consultor, que atua no mercado editorial há 40 anos, substituição de obras impressas por ebooks é caminho sem volta

São Paulo – O futuro dos livros impressos é uma discussão polêmica. De um lado, há pesquisadores que acreditam que o crescimento das vendas de livros digitais não implica necessariamente no fim das obras em papel, e que ambos os formatos podem coexistir. Outro grupo, mais radical, prevê que as bibliotecas impressas, consolidadas ao longo de séculos, devem se tornar meros cenários históricos, e que todo o conteúdo disponível será transposto para as platafomas digitais.

Mike Shatzkin, especialista em toda a cadeia produtiva dos livros nos Estados Unidos e fundador da consultoria The Idea Logical Company, de Nova York, pertence ao segundo grupo. Para ele, a substituição dos livros pelos e-readers é um caminho sem volta e que tem prazo para acontecer. Em no máximo 30 anos, uma criança ao ver um livro de papel estranhará e perguntará “o que é aquilo, mamãe?”, garante o consultor. Tudo isso refletirá no trabalho de editoras, livrarias e de escritores. E estimulará a leitura, segundo ele.

Shatzkin visitou o Brasil pela primeira vez para participar do Fórum Internacional do Livro Digital, que precedeu a 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Ele conversou com o site EXAME no saguão do hotel em que se hospedou, entre uma leitura e outra que faz em seu iPhone.

EXAME – Qual a sua experiência com a indústria editorial?

Shatzkin – Sou filho de um editor de livros. Meu pai trabalhou em grandes editoras norte-americanas, mas também tinha um passado ligado à tecnologia, à indústria de impressoras, e esteve envolvido com o Projeto Manhattan, dessa forma lidava com o trabalho de editoração com uma abordagem científica. Aprendi sobre editoração com ele e também conheci muita gente que aprendeu com ele. Em algum nível cheguei a conhecer os maiores nomes do setor editorial dos Estados Unidos. No fim dos anos 1970 comecei meu negócio próprio, como consultor, nos primeiros anos mais ligado à área de distribuição. Passei a estudar tecnologia nos anos 1990. Desde então, dedico parte do meu tempo para estudar o futuro da editoração. É um grande estudo que faço nos último 20 anos.

EXAME – Os livros digitais substituirão os livros de papel?

Shatzkin – Em algum momento, com certeza. Certamente haverá um momento em que a tela evoluirá para um ponto em que os livros de papel não serão mais necessários. Se você quer a textura de um papel, ela terá, se quiser usar uma caneta para fazer anotações, isso será possível. A tecnologia das telas vai avançando, e o papel vai ficando para trás, de uma forma irreversível. Então, a pergunta não é “se”, mas “quando” e “de que forma” as coisas vão acontecer. Mas é uma via de mão única. (continua) 


EXAME – Quantos anos você acha que serão necessários para essa mudança ocorrer?

Shatzkin – O dia em que uma criança verá uma pessoa lendo um livro de papel e perguntará “o que é aquilo, mamãe?”, creio que podemos falar em 20 ou 30 anos. Mas se você perguntar “quando o livro impresso se tornará um objeto fora do comum, exótico, peculiar?” – e não estou dizendo “peculiar” no sentido de algo ruim, negativo, mas apenas, de alguma forma, excêntrico. Aí eu penso que esse dia não está tão longe assim. Podemos pensar em algo entre 10 ou 15 anos.

EXAME – E como a indústria editorial passará por essa mudança na plataforma de leitura?

Shatzkin – Se tornará algo totalmente irreconhecível, justamente como os livros. A indústria editorial é um conjunto de muitos modelos de negócios diferentes. Como uma editora de livros didáticos transforma seu capital em lucro é totalmente diferente de como uma editora de best-sellers faz isso. Os riscos são diferentes, os preços são diferentes, o mercado, tudo é diferente. Vamos pensar então apenas nas editoras de livros voltados ao leitor comum. Essa indústria virará completamente de cabeça para baixo. O que esse tipo de editora faz hoje? Ela pega o conteúdo, imprime e coloca nas prateleiras, onde os leitores encontram os livros para comprar. É o serviço que ela oferece, dando assistência para os autores. Mas se não houver prateleiras, como será? Como as editoras conseguirão encontrar valor? São perguntas complicadas, que não têm respostas automáticas.

EXAME – E no caso das livrarias, elas também terão de mudar completamente, certo?

Shatzkin – A forma de se pensar sobre isso é ir a uma livraria e ver o espaço destinado aos livros. Nos Estados Unidos, já atingimos um pico, um ponto máximo na quantidade de prateleiras para vendas de livros. Não tenho dados que mostrem isso, é afirmação baseada na observação, mas creio que em algum momento entre 2002 e 2006 chegamos a esse ponto. As lojas pequenas passaram a fechar, as grandes redes passaram a destinar menos espaço para os livros e colocar outros produtos nas prateleiras, como brinquedos e jogos. A forma como o mercado tenta atingir o consumidor mostra essa ascensão dos livros digitais. Não sei quando foi ou será esse ponto aqui no Brasil, já que a situação é completamente diferente. Se vocês ainda não chegaram nesse ponto, não deverá levar mais do que um ano para que isso certamente aconteça. E certamente irá acontecer, porque a venda online irá crescer, e o mercado de ebooks irá crescer, não há dúvidas quanto a isso. Tudo isso de alguma forma vai substituir as vendas que tomam espaço nas lojas, e as prateleiras de livros vão sumir.
Alguém pode questionar essa conjectura, mas eu não consigo ver como.

EXAME – Aqui no Brasil há muito poucos livros digitais publicados. As livrarias online falam em menos de dois mil até agora. Você acha que aspectos culturais podem fazer com que os ebooks se consolidem em alguns países e em outros não?

Shatzkin – É surpreendente para mim saber que o Brasil tem apenas essa quantidade, porque o Brasil é um país com uma diversidade cultural maior que os Estados Unidos. Mas a forma que os ebooks são aceitos é muito diferente em cada canto do mundo. Os japoneses, por uma série de razões, leem muito mais em smartphones. Isso tem a ver com cultura, com o modo como estão organizadas as operadoras de telefonia, tem a ver com o idioma e como os textos são exibido na tela, uma série de motivos. Mas mudar do papel para um dispositivo que se possa levar para qualquer lugar porque é mais conveniente certamente é uma razão universal. Não consigo acreditar que qualquer pessoa na Terra se puder fazer a mesma coisa sem ter de carregar peso extra e gastando menos dinheiro – porque o livro de papel sempre custará mais – irá rejeitar os livros digitais. (continua)


EXAME – Os escritores terão que mudar a forma como os livros são escritos?

Shatzkin – De um lado, hoje, neste momento, há um negócio bastante substancial de ebooks, que é exatamente igual ao de livros impressos – exceto pelo tamanho da página e das letras que podem ser alterados, e links que podem ser feitos entre o índice e os capítulos. O conteúdo é exatamente o mesmo e poderia estar no papel ou na tela. Esse tipo de livro, daqui dez anos permitirá algumas inovações, como abrir o dicionário quando você não souber o significado de uma palavra ou mostrar um mapa quando você tocar no nome de uma rua.
Separadamente há um outro tipo de livro, que dá uma experiência totalmente nova. Eu posso mexer nas imagens, posso, em algum ponto, escolher o destino da história, há muitas coisas que posso fazer. Já há muitas pessoas fazendo coisas nesse sentido. Conheço um escritor que está escrevendo a história de um casal, um homem de Londres e uma mulher de Nova York que se conversam por Skype. E a conversa no Skype pode ser ouvida e faz parte do conteúdo do livro. Não sei qual modelo será economicamente mais bem sucedido. As pessoas ainda irão testar possibilidades, ver o que acontece e esse processo durará muitos anos. Mas todos esses recursos agora são possíveis.

EXAME – O uso de e-readers pode estimular as vendas de livros e a leitura?

Shatzkin – Sim, haverá mais consumo. A cadeia produtiva do livro não ganhará mais dinheiro, mas haverá mais consumo. Se você perguntar para qualquer pessoa que tem um e-reader, ela irá dizer que lê mais do que antes de ter o dispositivo. Um dos motivos é que ela carrega o livro com ela o tempo todo. Eu tenho dezenas, centenas de livros comigo o tempo todo, e posso abrir qualquer um deles a qualquer hora, esperando no lobby de um hotel, por exemplo. Com certeza isso me faz ler mais.

EXAME – Algumas pessoas dizem que ler um texto em um e-reader não é a mesma coisa que ler um livro físico. Você acha que isso pode ser um entrave para a popularização desses equipamentos?

Shatzkin – Há empresas de tecnologia e cientistas trabalhando em novos e-readers 24 horas por dia, buscando dispositivos melhores o tempo todo. Vários equipamentos novos são lançados todos os meses. Então as perguntas que devemos fazer são”quando essas melhorias vêm?” e “que aspecto deverá ser consertado antes?”. Mas não tenho dúvidas de que as características consideradas negativas nos leitores digitais estão na lista de prioridades de todo mundo que trabalha com isso.

EXAME – Você ainda lê livros em papel?

Shatzkin – Não, já não os leio há três anos. Nos sete anos anteriores a esses, eu li quatro livros digitais para cada impresso. E há uma razão para eu não ter abandonado os livros de papel antes. Em 2005, eu lia livros em um Palm Pilot, mas muita coisa que eu queria não estava disponível para meu equipamento. Hoje não há mais esse problema, então não preciso mais de livros impressos.