Valerá a pena investir o FGTS em fundos de infraestrutura?

Novo fundo para investir em títulos de dívidas de empresas será criado para receber recursos do FGTS; mas não é arriscado demais?

São Paulo – Nesta segunda-feira, a “Folha” revelou que quem tem carteira assinada poderá destinar, no ano que vem, até 30% dos recursos do seu FGTS a fundos que investem em empresas de infraestrutura especialmente criados para este fim. Face à baixa rentabilidade do FGTS, a alternativa pode ser interessante, porém mais arriscada do que os brasileiros estão acostumados. Será que vai valer a pena?

A oportunidade lembra um pouco os Fundos Mútuos de Privatização (FMP), criados nos anos 2000 para que os trabalhadores pudessem investir parte do seu FGTS em ações de Petrobras e Vale. Foram criados ainda alguns poucos FMP de carteira livre, que podiam aplicar em outras ações de “primeira linha”, recebendo migrações de FMPs Petrobras e Vale.

Apesar dos reveses por que passaram Vale e Petrobras nos últimos anos, quem aplicou seu dinheiro lá atrás fez um ótimo negócio. Enquanto que o FGTS rendeu apenas 86,57% entre 10 de agosto de 2000 e 10 de outubro de 2013, os FMP-Petrobras renderam 295,36% no mesmo período; já os FMP-Vale renderam 632,52% de 10 de abril de 2002 a 10 de outubro de 2013, período em que o FGTS rendeu apenas 72,36%. Os dados são do Instituto FGTS Fácil.

Isso acontece porque o FGTS rende apenas 3% ao ano mais Taxa Referencial (TR), que nos últimos meses tem se aproximado de zero. Trata-se de uma rentabilidade tão baixa que fica longe de repor a inflação, que nos últimos 12 meses encerrados em setembro foi de 5,86%, pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Mas diferentemente dos FMPs, o novo fundo não deve investir em ações, nem em uma única empresa. Ele deve aplicar apenas em títulos de dívida emitidos por empresas do setor de infraestrutura. O FGTS já dispõe hoje de um fundo desse tipo, o FI-FGTS, no qual os trabalhadores não podem investir diretamente. Seguindo moldes semelhantes aos do FI-FGTS, o novo fundo a ser criado e administrado pela Caixa investirá em renda fixa privada – títulos como debêntures e notas promissórias.

Apesar do nome “renda fixa”, não se trata de um investimento com a mesma segurança das aplicações de renda fixa mais conhecidas dos brasileiros – a poupança, os CDBs, os fundos DI e o Tesouro Direto. A poupança e os CDBs contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para valores de até 250 mil reais por instituição financeira, por CPF; o Tesouro Direto é a aplicação mais segura que existe no Brasil, pois é garantida pelo governo; e os fundos DI investem, basicamente, em títulos públicos e CDBs de bancos grandes e sólidos.


Os fundos de renda fixa privada, no entanto, são diferentes. Eles não contam com qualquer proteção e correm o risco de calote das empresas. Trata-se de renda fixa porque a rentabilidade é previsível, e não porque oferece segurança. Se a empresa devedora tiver problemas financeiros ou quebrar, ela pode simplesmente não pagar a dívida, deixando o investidor – no caso, o fundo – a ver navios.

Ou seja, uma debênture pode prometer uma rentabilidade de 7% ao ano mais IPCA, mas se a empresa que a emitiu for à lona, o fundo não recebe nada. Por outro lado, na renda variável – que é o caso das ações – o desempenho dos ativos é imprevisível. Não se sabe quanto uma ação pode ganhar ou perder em um ano. O investidor pode amargar perdas ainda que a empresa continue de pé, mas há a possibilidade de haver apenas perdas parciais, e não de todo o capital investido.

Será muito arriscado investir no fundo de infraestrutura?

O FGTS foi criado para ser uma espécie de seguro para os trabalhadores brasileiros, podendo ser resgatado em situações como demissão sem justa causa, doenças graves, desastres naturais e na aposentadoria. Mas como o fundo perde da inflação, normalmente vale a pena resgatar os recursos sempre que possível para destiná-los a investimentos potencialmente mais rentáveis.

Quem o fez com os FMPs se deu bem – e segundo especialistas, os recursos não deveriam ser resgatados desses fundos para voltar ao FGTS a menos que o trabalhador esteja próximo da aposentadoria. Da mesma forma, muita gente opta por resgatar o FGTS para financiar a compra da casa própria. Mas será que o mesmo raciocínio vale para o fundo de infraestrutura que será criado?

As empresas que compõem a atual carteira do FI-FGTS não são nenhuma Vale ou Petrobras. No primeiro semestre de 2013, de acordo com documentos do fundo, havia ali entre os emissores de debêntures desde empresas mais conhecidas como Light e ALL a nomes como Eldorado Brasil Celulose, Madeira Energia e Santo Antônio Energia, estas duas últimas empresas sem ações negociadas em Bolsa. Até mesmo a LLX, empresa de logística do agora complicado império de Eike Batista, figurava entre as emissoras de dívida.

Havia ainda uma série de ações não negociáveis em Bolsa, de companhias como Odebrecht e J. Malucelli energia, e cotas de fundos de investimento em participações em segmentos como saneamento e energia. Nesses casos, o risco maior não é de calote, mas de liquidez, isto é, dificuldade de o fundo resgatar suas aplicações e liberar recursos para cotistas que tenham pedido o resgate. Esses tipos de investimento, no entanto, devem ficar de fora do fundo destinado aos trabalhadores.


Para o consultor financeiro e autor do blog “Você e o Dinheiro”, André Massaro, apesar de ser considerado um investimento arriscado de renda fixa, perto do que o FGTS paga, a aplicação no fundo de infraestrutura será sim interessante, pois terá potencial de ganhar bem mais. Em 2008, seu primeiro ano, o FI-FGTS rendeu 5,01%; em 2009, a rentabilidade foi de 6,66%; em 2010, de 5,51%; em 2011, de 7,63%; e em 2012, 7,22%. Lembrando que rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura.

“Se fosse um investimento normal, eu pensaria duas vezes em investir em empresas que fazem parte de projetos de infraestrutura para o governo federal, uma vez que o histórico dessas incursões do governo nos investimentos não tem sido bom. Mas como o FGTS não tem muita opção, o trabalhador pode entrar até com o percentual máximo, se quiser”, diz Massaro. “O investimento não é o melhor, mas a alternativa é pior”, arremata.

Já Jurandir Sell Macedo, consultor de finanças pessoais do Itaú Unibanco e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), acha que, apesar de a ideia do fundo de infraestrutura ser boa, o investidor deve ter muito cuidado e conhecer bem os riscos antes de optar pelo investimento de parte do FGTS.

Macedo acha precipitado decidir agora se o investimento é vantajoso ou não, pois ainda não se sabe exatamente se a política de investimento do novo fundo será a mesma do FI-FGTS. Mas partindo-se da hipótese de que sim, a aplicação pode ser muito arriscada. Ainda que a rentabilidade do FGTS seja pífia, Macedo acredita que o trabalhador não deve arriscar seus recursos se não compreender bem o funcionamento do fundo, não conhecer os riscos e não souber quais as empresas compõem sua carteira.

“Antes de optar pelo investimento, a pessoa tem que saber quais empresas estão ali dentro e qual o limite máximo de investimento por empresa. Se tiver empresas de capital fechado entre os emissores dos papéis, esse fundo apresentará baixa governança corporativa, o que exige cuidado”, diz Macedo.

Na opinião dele, para os trabalhadores que têm o FGTS como única reserva de emergência em caso de desemprego ou aposentadoria, o investimento não valerá a pena. Já para pessoas com mais reservas financeiras, com plano de aposentadoria privado, e que compreendam o funcionamento do fundo e seus riscos, pode ser interessante aplicar os 30%.