Uma nova forma de ganhar com papéis de empresas

O retorno das aplicações de renda fixa diminuiu com a queda da Selic. Agora, é preciso decifrar os CRIs e os FIDCs para lucrar nesse mercado

A renda fixa ainda pode ser um bom investimento, apesar da queda da Selic, a taxa referencial de juros da economia. Quem quiser ganhar mais dinheiro nesse mercado, porém, deve se preparar para ir além dos tradicionais fundos DI e buscar alternativas mais sofisticadas e — claro — mais arriscadas. As preferidas dos especialistas consultados pelo Guia EXAME de Investimentos Pessoais são duas aplicações financeiras de nomes nada simpáticos, mas que prometem retornos atraentes: os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), como o próprio nome diz, ligados ao setor da construção, e os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), usados por bancos e companhias de todos os setores. Esses produtos são compostos de títulos que representam contas futuras que uma empresa tem a receber. Um exemplo comum são os empréstimos bancários. Muitos bancos transformam em FIDCs o fluxo futuro dos pagamentos de empréstimos que têm a receber de seus clientes. Depois, vendem esses FIDCs a investidores, que recebem um rendimento periódico. No caso dos CRIs, os melhores exemplos são de construtoras que convertem em títulos os aluguéis e as prestações da casa própria que têm a receber. São investimentos de prazo determinado, que geralmente duram de três a sete anos.

Para o investidor, a vantagem dessas aplicações é a possibilidade de obter retornos superiores aos juros do mercado (a taxa Selic), que estão em 11,25% ao ano. Hoje, a rentabilidade dos FIDCs varia de 12% a 17% ao ano. Já os CRIs costumam pagar juros mais a variação de um índice de inflação — e são isentos de imposto de renda. Um exemplo é o CRI que a construtora WTorre fez da fábrica da Volkswagen em São José dos Pinhais, no Paraná. A remuneração, que é atrelada ao aluguel que a montadora paga para ocupar um espaço de 2 milhões de metros quadrados, é de 12,5% ao ano mais IGP-M — o que soma quase 18%. “Os CRIs são ótimas alternativas para quem quer proteger seu patrimônio das perdas geradas pela inflação”, diz Rogério Betti, sócio da consultoria financeira Beta Advisors, que atende clientes de alta renda.

As opções de investimento
Dois tipos de papéis disponíveis no mercado
  FIDC CRI
O que é Investimento em créditos que as empresas têm a receber (como pagamentos de cartão de crédito, energia e factoring) Investimento em títulos do setor imobiliário cujo retorno se dá por aluguéis ou outras formas de geração de caixa
Retorno anual médio De 12% a 17% De 8% a 13% mais a variação do IGP-M
Quem pode investir Investidores qualificados (mais de 300 000 reais) e institucionais (fundos de pensão) Investidores qualificados (mais de 300 000 reais) e institucionais (fundos de pensão)
Fontes: Uqbar, Beta Advisors e LLA

Existem CRIs e FIDCs com retornos diferentes porque os rendimentos dependem do risco dos créditos que dão origem a esses produtos. “Vale a velha máxima do mercado financeiro, que diz que, quanto maior a rentabilidade, maior o risco”, diz Eduardo Lisboa Rocha, presidente da BER Capital, empresa que estrutura esses investimentos. Produtos compostos de dívidas de companhias de grande porte, como Ambev, Gafisa e Vale do Rio Doce, são considerados seguros, porque o perigo de inadimplência é baixo. Já as operações das factorings, empresas que compram e administram cheques pré-datados, duplicatas e outros créditos de empresas de pequeno e médio porte, são mais arriscadas. Para ficar a par do risco que corre aplicando nesses produtos, o investidor pode consultar os relatórios das agências internacionais de classificação de risco, como Moody’s e Standard & Poor’s.

Até hoje, porém, nenhum CRI ou FIDC lançado no Brasil apresentou problemas sérios, como deixar de pagar os investidores. “Isso nunca ocorreu porque o risco da maioria dos produtos comercializados no país é baixo”, diz o advogado Alexandre Tadeu Navarro, especializado em mercado de capitais. É diferente do que acontece no exterior. Paradoxalmente, em países com mercados financeiros mais desenvolvidos, como Estados Unidos e Japão, são comuns os fundos de recebíveis compostos de papéis de altíssimo risco, conhecidos como créditos podres, como dívidas de inadimplentes. Quando a aplicação dá certo, o investidor pode dobrar e até triplicar seus rendimentos. Quando dá errado, porém, as perdas costumam ser dolorosas. É o que está ocorrendo nos Estados Unidos nos últimos meses. Uma crise no mercado de hipotecas de alto risco — nicho do setor imobiliário conhecido como subprime — causou prejuízo aos investidores que aplicavam em papéis lastreados nesses créditos. Algumas instituições financeiras, como Bear Stearns e BNP Paribas, chegaram a suspender os resgates de seus fundos para evitar uma fuga de recursos. “O Brasil, porém, está longe de ver isso acontecer”, diz Navarro.

Para o investidor brasileiro, o grande risco dos CRIs e dos FIDCs é a baixa liquidez — ou seja, uma vez que se aplica num desses produtos, é difícil sair antes do vencimento. “O mercado secundário é incipiente”, diz Chuck Spragins, sócio da Uqbar, empresa especializada no setor. “Além disso, alguns produtos restringem os saques antecipados, antes do vencimento, cobrando um pedágio.” Isso significa que é preciso se planejar para deixar o dinheiro parado por alguns anos antes de partir para esse tipo de aplicação. “É um risco e, por isso, o ideal é aplicar no máximo 10% do patrimônio nesses produtos”, diz Betti, da Beta Advisors. Seguir esse limite, no entanto, pode ser um problema. Isso porque a maioria dos CRIs e FIDCs do mercado exige aplicações mínimas elevadas, de mais de 300 000 reais. A boa notícia é que algumas empresas começam a criar produtos mais acessíveis, com investimento mínimo a partir de 10 000 reais. Ainda assim, é preciso ser um investidor qualificado, ou seja, ter mais de 300 000 reais no mercado financeiro, para aplicar nesses produtos.

Atenção
Os FIDCs não são isentos de imposto de renda como os CRIs. Mas eles têm uma vantagem tributária em relação aos fundos de investimento tradicionais: o imposto é pago apenas no resgate, e não a cada seis meses. Isso aumenta a rentabilidade, já que o dinheiro que iria para os cofres do Fisco permanece na aplicação rendendo juros. A má notícia é que o benefício está com os dias contados. A Receita estuda estender o “come-cotas” — como é conhecido o imposto semestral dos fundos – aos FIDCs. Os executivos do mercado estão desanimados. “Como a Receita faz o que pode para aumentar a arrecadação, acho que essa batalha está perdida”, diz um deles.