Posso perder dinheiro no Tesouro? Entenda a variação nos títulos públicos

Há um mercado bilionário de grandes investidores por trás do Tesouro Direto que faz os juros e preços variarem várias vezes ao dia

São Paulo – Os títulos do Tesouro Direto são conhecidos como um dos investimentos mais seguros que existem. Por serem uma aplicação de renda fixa, devem pagar ao fim da aplicação tudo o que o investidor aplicou mais os juros prometidos.

Mas não é tão simples assim. Os preços dos títulos públicos sofrem, sim, variações e várias vezes ao longo do dia. Não costumam ser oscilações tão bruscas quanto as da bolsa de valores, mas significa que o investidor, caso resolva vender seu papel naquele momento, pode sair com valores tanto maiores quanto menores do que imaginou inicialmente, incluindo a possibilidade de perdas em relação ao que investiu.

A boa notícia é que esse sobe e desce vale só para quem desiste do título antes da data do vencimento – aqueles que seguram seus papéis até o fim recebem exatamente o que contrataram.

Ainda assim, é importante entender de onde vêm essas variações e como funcionam. Quem precisar resgatar seu título antes do planejado estará refém delas. Para os mais arrojados, entendê-las é também uma maneira de tentar ganhar com o mercado de venda antecipada dos títulos públicos. Para se ter uma ideia, há títulos que já se valorizaram mais de 90% em apenas um ano até aqui.

Por trás disso tudo, há um universo bilionário de grandes investidores que movimentam mais que o dobro do que a bolsa de valores em títulos federais. É das expectativas deles em relação aos juros brasileiros e à economia que os preços dos títulos flutuam. Entenda como funciona:

De onde vêm as oscilações

O Tesouro Direto é só o pedacinho da dívida pública federal que é vendido para pessoas físicas e pequenos investidores – representa menos de 2% do bolo total. Em paralelo, há um mercado enorme de grandes compradores, e é lá que estão as grandes negociações.

Trata-se do mercado secundário de títulos públicos federais. São bancos, fundos de investimentos, fundos de pensão e empresas comprando e revendendo títulos entre si a todo instante, em uma espécie de grande bolsa de valores onde só se negociam títulos públicos e só entram investidores institucionais.

Para se ter uma ideia, pelo Tesouro Direto, os pequenos investidores movimentam algo como 120 milhões de reais por dia útil, na média. Entre os investidores institucionais, são 35 bilhões de reais diários, um volume quase 300 vezes maior do que o dos pequenos.

É mais, inclusive, do que toda a bolsa de valores brasileira, em que pessoas físicas e investidores institucionais juntos movimentam 16 bilhões de reais por dia.

Como o preço das ações na bolsa de valores, os juros dos títulos vão variando conforme a demanda e as expectativas desses grandes compradores. Se, por exemplo, os riscos na economia do país estão baixos, ou se a expectativa é de que os juros caiam no futuro, eles vão aceitando comprar papéis com remunerações mais baixas, e os juros negociados, portanto, caem.

“Esses investidores estão olhando para uma série de fatores ao mesmo tempo”, diz Francisco Segundo, analista do Tesouro Nacional. “A taxa Selic, os juros futuros, a inflação, as perspectivas para a inflação, o risco-país e as condições do mercado externo são alguns desses fatores.”

O Tesouro Direto sempre repassa para os investidores individuais exatamente os mesmos juros e preços que estão sendo praticados pelos grandes no mercado institucional. Podem ser de três a quatro remarcações ao longo do dia, sempre aos dias úteis, das 9h às 18h, que é quando as negociações estão abertas.

E como o preço dos títulos muda?

A cada vez que o juro de um título muda, um recálculo matemático faz com que seu preço mude junto também. É a chamada marcação a mercado, e é este valor que o investidor terá direito a receber caso opte por resgatar seus títulos ou parte deles antes do vencimento. No Tesouro Direto, é o próprio Tesouro que recompra o papel e paga por ele o valor que estiver precificado no momento.

A conta se resume a uma regra bem simples: se o juro sobe, o valor do título cai; se o juro cai, o valor sobe. Na prática, significa que quem tem títulos na mão a juros altos verá seus papeis se valorizarem caso os juros caiam. Já quem comprou a juros baixos terá desvalorização quando os juros subirem.

A matemática funciona assim: se eu comprei 1.000 reais em um papel prefixado que paga 10% e vence daqui a um ano, eu tenho que receber 1.100 reais no vencimento (1.000 reais mais os 10% de juros).

Se, nesse meio tempo, o juro cai de 10% para 5%, passam a ser necessários 1.048 reais, e não mais 1.000, para chegar aos mesmos 1.100 reais ao final (1.048 mais 52, dos 5% de juros).

A taxa básica de juros da economia, a Selic, é um dos grandes balizadores desses movimentos e, no geral, os juros oferecidos pelo Tesouro acompanham sua tendência.

Vale lembrar, entretanto, que eles acompanham muito mais a expectativa dos grandes investidores para os juros no futuro do que a Selic em si. É por isso que não é raro acontecer de os juros dos títulos públicos não caírem quando a Selic é cortada pelo Banco Central, não caírem na mesma proporção ou caírem vários dias ou meses antes de o BC fazer o corte de fato.

Tesouro Selic é exceção

Só o Tesouro Selic não sofre com todo esse sobe e desce de juros e preços. Ele é o único pós-fixado entre os títulos oferecidos pelo Tesouro e, por isso, não sofre a marcação de mercado.

Os juros pagos por ele remuneram exatamente a taxa Selic, e seu rendimento, a qualquer momento, é sempre proporcional ao que a Selic subiu até ali, mesmo se resgatado antes do vencimento.

Por essa razão, ele nunca tem oscilações negativas no preço, como os demais, e é considerado o título mais conservador e seguro. Pode remunerar menos do que os outros, mas, para quem quer uma opção para aplicar e resgatar a qualquer hora, sem sustos, é sempre o mais indicado.

Onde checar as variações

Os diferentes tipos de títulos públicos podem ser checados na página do Tesouro Direto. A plataforma de seu banco ou corretora também deve ter a lista de títulos à venda com seus prazos e juros – as condições são sempre as mesmas, independente da instituição financeira onde se compre. O que pode mudar é a taxa de admistração.

Também na página do Tesouro é possível ver o histórico da variação dos juros e preços de cada título. O valor que aparece no saldo em conta de quem já tem títulos leva em consideração o valor do título do momento, de acordo com a marcação a mercado. Reflete, portanto, o quanto o investidor receberia caso venda naquele momento, e não o valor proporcional ao que terá direito a receber no vencimento.

Conte com a ajuda da assessoria BTG Pactual digital na hora de investir. Abra sua conta!