O fim da mesada

“…to make an end is to make a beginning. The end is where we start from.” (T.S. Eliot)

Tendo a achar que há festas que só valem a pena se houver criança pequena no ambiente. Ainda lembro – e de um jeito estranho ainda me dói – a expressão entre serena e severa do meu filho quando, cruzando o Rubicão da inocência, exigiu de mim uma resposta direta , “sim ou não, mãe!”, para a existência de Papai Noel. Ao receber o golpe, muito digno, reagiu com um “eu sabia” de quem, claro, teria preferido não ter sido levado a saber. Mal refeito, num suspiro, jogou-se novamente – “E o coelhinho?”

Bom, não foi fácil – de fato foi muito embaraçoso – confessar que era eu quem fabricava as pegadas de barro, patinhas espalhadas pela casa toda, simulando trajetos até os ovinhos. Ou que os fiapos de pêlo caídos aqui e ali eram algodão que eu cuidara de desfiar. Não foi fácil. Ao fim, o que sobrou de bom do período que naquele dia encerramos justificou, plenamente, os meus (poucos) anos de encenação. Mas, como no samba, nessa vida tudo passa. E essa fase também passou. O que nos leva ao assunto de hoje.

Embora seja frequentemente identificada e, eventualmente, reduzida à advogada da prática da mesada, o que defendo, de fato, é a importância de se ensinar crianças e adolescentes a lidar com dinheiro. Nessa perspectiva, a mesada não é mais que uma maneira, dentre tantas outras, de se educar para a vida financeira.

Feita a ressalva, não posso deixar de admitir que, quando bem dada e dosada – na hora e quantias convenientes a cada idade – a mesada pode tornar-se uma aliada importante na educação dos filhos. Mas, para isso, é preciso que ela seja compreendida pelos pais, justamente, apenas como um instrumento de educação. Pretender fazer da mesada seara para mimos, chantagens ou punições é botar a perder qualquer intenção pedagógica.

A mesada, insisto, deve funcionar tão somente como um instrumento de educação. Sua função é criar condições para que crianças e adolescentes possam manejar pequenas quantias, errando e acertando no planejamento de gastos e poupança, de modo que, na vida adulta, tenham chance de evitar erros consideravelmente maiores com quantias significativas. Ou seja, a mesada pressupõe começo (por volta dos seis anos, sob feição de semanadas) e fim. O problema é que esse segundo momento nem sempre é flagrante aos pais.

Não é sem preocupação que a gente vê os filhos crescerem, correrem risco, criarem asa. E, como não há forma de impedir esse processo – natural e necessário -, dá muitas vezes de querer empaná-lo, tentando proteger, para além do bem-vindo, o destino das crias, prorrogando adolescências (e mesadas) ad eternum. Isso de um lado.

De outro lado, do instante em que deixam de acreditar em Papai Noel para aquele em que desacreditam de tudo quanto os pais dizem (e se você está neste ponto, acredite, isso passa!) é um estalar de dedos. A ilusão de manter algum controle sobre ações e reações dos filhos a partir da manutenção da mesada é – além de quase sempre secreta – perniciosa. Pais que mantêm filhos adultos dependentes da grana apostam em bilhete corrido. E se o que buscam por essa via é a obediência, atenção ou afeto da prole, sinto informar, o efeito é quase sempre reverso.

Um trabalho de educação suficientemente bom implica em que os pais saibam acolher o crescimento dos filhos, incentivando-os a se lançar na vida, confiantes em sua capacidade autônoma. Essa é uma construção delicada a que podem dedicar-se desde que os filhotes são ainda muito jovens.

Os dias de aniversário servem bem ao desenvolvimento desse processo. Saudar o aniversariante com pompa, circunstância, presente e brigadeiro é de lei. Mas oferecer a ele a oportunidade de perceber-se – no melhor dia do ano! – como alguém capaz de emancipar-se; de fazer mais e melhor o que não sabia até o ano passado (“agora você já sabe amarrar os sapatos; usar faca e garfo; vestir-se sem ajuda…) é precioso para o futuro da criança.

Mais tarde, dobrando a curva do vestibular, convém louvar – e louvar e louvar – a conquista da vaga. Mas sem perder de vista que para nós, ocidentais, a entrada na universidade corresponde a um rito de iniciação à vida adulta e, como tal, deve prestar-se como sinaleiro para o “inicio do fim” das mesadas.

Excetuando-se os poucos cursos cuja carga horária exigem dedicação integral, todos os demais comportam tempo mais que suficiente para o princípio da vida profissional. Preparar os rebentos para buscarem alguma forma de trabalho – e, nesse momento, toda e qualquer maneira de produzir vale a pena – cria condições para, paulatinamente, interromper a cessão de mesadas. Provocar a busca pela independência financeira é o melhor presente – e homenagem – que se pode prestar a filhos que acabam de estrear no papel de gente grande.

*Cássia D’Aquino é especialista em educação financeira e membro da International Association for Citizenship, Social and Economics Education (IACSEE). www.educacaofinanceira.com.br