Não é hora de sair da Bolsa, dizem especialistas

Mesmo com o agravamento da crise nos Estados Unidos, recomendação é ter sangue frio e manter os investimentos em ações

Depois de ver o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) cair 7,59% no último pregão, muitos investidores devem estar se perguntando se não é a hora de assumir o prejuízo e retirar as aplicações da Bolsa antes que as perdas se tornem ainda maiores. Afinal, a crise nos Estados Unidos pode assumir proporções muito maiores e não há previsão de quando o mercado voltará a registrar ganhos.

Apesar do horizonte sombrio, os especialistas são enfáticos ao afirmar: quem já investiu em ações não deve sair agora. “Não há crise que dure para sempre. Uma hora a tempestade vai passar”, diz o economista do Banco Real, Fábio Susteras. Até lá, no entanto, novas perdas não estão descartadas. “Os estrangeiros devem continuar vendendo suas ações no Brasil para fazer caixa”, destaca Susteras.

Somente nos últimos dois meses, os investidores de outros países sacaram quase 10 bilhões de reais da BM&FBovespa. O movimento derrubou principalmente as ações da Vale do Rio Doce, da Petrobras e das siderúrgicas, as preferidas dos estrangeiros. Não foi à toa que o Ibovespa recuou 34% desde o dia 20 de maio, quando registrou sua máxima histórica.

Se por um lado a fuga de recursos traz prejuízos para quem precisa resgatar seus investimentos, por outro, gera oportunidades para quem tem dinheiro para aplicar. “As empresas brasileiras são sólidas e a economia vai bem. Agora é o momento de aproveitar as pechinchas”, ressalta o analista da agência classificadora de risco Austin Rating, Luis Miguel Santacreu.

Mas vale lembrar que Bolsa é investimento de longo prazo. Ainda que comprem muito, os investidores locais não têm força para levantar o Ibovespa. Portanto, a recuperação do mercado acionário brasileiro depende da melhora no cenário internacional.

Câmbio e renda fixa
Cautela é a palavra-chave neste momento. Como a solução para a economia americana não deve surgir de uma hora para outra, e o risco de quebra de mais bancos ainda existe, investimentos em ações são recomendados somente para quem pensa em manter a aplicação por mais de dois anos.

Por isso, boa parte dos analistas tem recomendado uma aposta maior na renda fixa. A aplicação é particularmente interessante no Brasil, onde a taxa de juros é uma das mais altas do mundo. E, ao que tudo indica, a taxa deve continuar subindo nos próximos meses.

Uma conseqüência da fuga de recursos do Brasil é a menor quantidade de dólar no mercado, provocando valorização da moeda americana frente ao real. Em apenas um mês e meio, a moeda disparou mais de 15%, saindo da casa de 1,56 real no final de julho para 1,81 real no último pregão. “O dólar baixo ajudava o governo a conter a inflação. Agora, o Banco Central deve apertar ainda mais os juros para manter os preços sob controle”, diz Susteras.

Com juros em alta, os títulos públicos e os fundos DI tornaram-se ainda mais atraentes, desestimulando novas aplicações em ações. “Isso pode dificultar a recuperação da Bolsa”, ressalta Susteras.

Além disso, outro ativo surgiu em cena disputando a preferência dos investidores: o Certificado de Depósito Bancário (CDB). A menor disponibilidade de recursos no mercado encarece o custo do crédito para as instituições financeiras, levando os bancos a pagar taxas mais altas aos investidores na tentativa de levantar recursos para suas operações. Com isso, os CDBs despontaram como a opção mais rentável de renda fixa, levando muitos investidores a trocar as arriscadas oportunidades da Bolsa pela segurança da renda fixa.