Maior barreira para inclusão financeira é cultural, diz CEO da Mastercard

A empresa de soluções de pagamentos vem conseguindo atingir o objetivo que criou para si há seis anos: incluir 500 milhões de pessoas no mercado financeiro

São Paulo – Em 2013 a Mastercard criou uma meta de incluir 500 milhões de pessoas no mercado financeiro até o ano que vem. A empresa de soluções de pagamentos vem conseguindo atingir o objetivo: já chegou a 400 milhões.

Entre as iniciativas para chegar às pessoas que estão de fora do mercado financeiro está um laboratório de inovação no Quênia, apoiado pela fundação Bill e Melinda Gates.

O sétimo de uma série, o hub é o primeiro laboratório da operadora de cartões na África e o primeiro a se concentrar exclusivamente em inclusão financeira.

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A escolha da África se deve ao fato de que a região representa alguns dos países mais bem sucedidos na implementação e alcance dos serviços financeiros digitais. No Quênia, um programa de pagamentos e transferência de dinheiro por SMS elevou a fatia de bancarizados para 82% da população. 

Em um de seus projetos no país, o Kionect, a Mastercard possibilitou criar um link direto entre agricultor e comerciantes por meio de um app no celular. Isso possibilitou ao agricultor entregar mais produtos e a ter mais receita. Antes, ele tinha de passar por uma grande cadeia de intermediários. Isso fazia com que perdesse muito dinheiro porque levava tempo para concluir as operações. Enquanto isso, os produtos estragavam.

Na entrevista a EXAME (Papo que Rende), João Pedro Paro Neto, CEO da Mastercard no Brasil e nos países do Cone Sul, fala sobre a inclusão financeira no Brasil, desafios desse processo e quais regulamentações e iniciativas recentes podem ajudar a avançar no tema:

1 – Qual a visão da inclusão financeira no Brasil?

Para nós, o Brasil é um mercado importante. Com cartões oferecidos pela 99 e banQi (banco digital da Via Varejo) levamos soluções para esse público excluído do setor financeiro. Com esses produtos essas pessoas começaram a poder pagar conta e, principalmente, ganhar tempo.

Quando perguntamos para esse público o que mudamos na vida dele, a resposta número um é tempo. Alguns respondem que ganharam 40 minutos de vida, que precisariam ir até determinado local para pagar uma conta.

A barreira que temos de vencer é cultural. Depois dela, é fácil seguir adiante. Já conseguimos vencer essa barreira na África. O case do Quênia nos mostrou que existe mercado onde ninguém pensa que existe.

2 – A barreira cultural passa pela confiança nas instituições financeiras?

As pessoas se sentiram mais incluídas com fintechs como o Nubank. Mas essas startups se beneficiaram da nossa marca. Somos um intermediário que passa confiança. As pessoas não se assustam com a gente. Vão lá e pagam a conta com o cartão.

Isso porque começamos a oferecer cartões pré-pagos no Brasil há oito anos. Antes, além do cartão de crédito só tínhamos vale-alimentação, um produto muito específico. Com o pré-pago inauguramos uma forma de fazer uma inclusão financeira.

O cartão beneficiou tanto o consumidor quanto o segmento de adquirência: o comerciante e prestador de serviço também se sente melhor recebendo dinheiro no cartão, se sente mais incluído. Hoje é difícil ter um lugar que não aceita cartão. Até o vendedor de café da manhã na rua aceita.

3 – O que pode ser feito para melhorar esse processo?

Quando o Banco Central discute interoperabilidade, essa ferramenta consegue incluir mais pessoas no sistema financeiro.

Com ela, o consumidor poderá pagar um provedor de serviço com o seu cartão pré-pago realizando uma transferência simples. Hoje, ele só consegue se for cliente de banco e se o prestador também for cliente do mesmo banco.

Portanto, hoje o emissor do pré-pago é limitado a esse ambiente. A partir do momento em que todos tiverem as mesmas condições, será um grande avanço.

A interoperabilidade permitirá também realizar transferências 24 horas por dia, sete dias por semana. Precisamos ter essa disponibilidade para que as pessoas larguem de vez o dinheiro em espécie.

4 – Quais iniciativas recentes da Mastercard abordam a inclusão financeira?

Estamos entrando nos ônibus de forma experimental com o cartão pré-pago com tecnologia por aproximação para ajudar o cotidiano do consumidor. A ideia é chegar a diferentes meios de transporte em dois anos

Também vamos ter um cartão que vai agregar funcionalidades diferentes em apenas um chip. Uma pessoa poderá ter o vale alimentação, vale transporte, e usar o benefício do Bolsa Família em um mesmo cartão. Esse será um passo enorme para essa inclusão.