Investimento atrelado a juros não está tão ruim quanto parece

Ciclo de queda na Selic pode estar no fim, por causa da pressão inflacionária; papéis pós-fixados voltam a ser atrativos

São Paulo – O movimento recente de queda na taxa de juros tem favorecido as aplicações prefixadas e indexadas à inflação, mesmo que o valor desses títulos já precificasse essa redução de juros quando o ciclo começou. Mas o rumo da taxa Selic, que serve de referência para a remuneração da renda fixa, começa a ficar incerto, e o mercado já prevê uma reversão do ciclo de queda para o ano que vem. A inflação por sua vez, deve começar a exercer maior pressão sobre os preços. Será que é hora de voltar os investimentos novamente para os papéis que flutuam ao sabor da Selic? E aqueles atrelados à inflação, continuam atrativos?

Para Georges Catalão, gestor de investimento da Lecca Financeira, já passou o momento dos prefixados e títulos indexados à inflação. O momento agora é de vender ou não renovar ao menos parte desses títulos, reduzindo à metade a exposição da carteira a esse tipo de papel, e aproveitando para pesar a mão nos pós-fixados. Seja no caso dos títulos públicos, seja no caso dos CDBs.

“Por diversas vezes o mercado achou que o ciclo de cortes nos juros estava próximo ao fim, mas o Banco Central sempre ia além das expectativas. Por isso, os títulos indexados à inflação e os prefixados se valorizaram. Mas agora acreditamos que esse ciclo está terminando. A curva de juros está precificando uma Selic a 7,75% ao final de 2012, e achamos que essa curva não tem mais muito espaço para cair, pois a inflação continua a pressionar”, diz Catalão.

O Banco Central vem reduzindo os juros desde agosto do ano passado, e o mercado atualmente espera que a Selic, hoje a 8,5%, chegue a 7,5% até o final do ano. Da reunião do Copom em agosto para cá, só o valor de face dos títulos prefixados LTNs com vencimento em janeiro de 2013 teve alta de 11%, contra 8% no valor dos títulos atrelados à Selic LFTs com vencimento para o mesmo ano.

Mas o ciclo de queda na Selic sacrificou um pouco os juros pagos pelos papéis prefixados (LTNs e NTN-Fs) e indexados à inflação (NTN-Bs). A NTN-B Principal com vencimento em 2015 pagava um juro real de 6,10% no início de 2011; hoje, o mesmo papel paga um juro real de apenas 3,67%. Mesmo uma NTN-B mais longa, com vencimento em 2020, atualmente paga menos: 4,42%. A LTN com vencimento em 2015 pagava juros de 12,15% no início de 2011, e o mesmo papel, se comprado hoje, remunera 8,77%. Já a LTN com vencimento em 2016 paga hoje um juro de 9,30%.

Contudo, cresce no mercado a expectativa de que o governo em breve terá que voltar a conter a inflação, esperada para terminar o ano em 5% e 2013 em 5,54%. A inflação se mantém acima da meta há 21 meses, apesar da queda do crescimento do PIB. Segundo o Boletim Focus, o mercado espera que 2013 termine com uma Selic de 9,0%; já o mercado de juros futuros espera que o DI esteja em 7,70% no início de 2013 e a 8,0% no início de 2014.


Se houver uma nova alta de juros no médio prazo, os títulos com remuneração prefixada – que já não pagam prêmios tão altos – vão perder valor, prejudicando quem decidir vendê-los antes do vencimento. Por isso, a Lecca recomenda que o investidor se concentre mais em títulos pós-fixados, ao menos no curto e médio prazo, reduzindo a exposição da carteira aos demais títulos. “Para os prefixados e atrelados à inflação continuarem valendo a pena os juros teriam que cair ainda mais. Mas o risco está maior, e o retorno já não está tão bom”, diz Georges Catalão. Ainda há espaço para uma breve queda de juros até o fim do ano, diz o gestor da Lecca, que espera uma alta de juros para meados de 2013. Mas quem já estiver satisfeito com os ganhos obtidos já pode pensar em vender.

“O grande risco da nossa estratégia seria a crise externa se agravar muito, com quebradeira de bancos e seca no comércio internacional. Assim, a inflação voltaria para a meta e não seria necessário elevar os juros. O segundo risco seria se, no ano que vem, o BC resolver ser leniente com a inflação e não subir o juros”, explica Catalão.

Longo prazo ainda pede títulos ligados à inflação

Para quem investe em renda fixa com vistas ao longo prazo, porém, a estratégia de aplicar em papéis atrelados à inflação continua vencedora. “Em horizontes mais longos, muita coisa pode acontecer. Faz sentido manter alguma exposição em NTN-B, por exemplo, para proteger o poder de compra se o objetivo for investir para um prazo de uns cinco anos”, diz Catalão.

Na opinião de Bruno Carvalho, especialista em renda fixa da XP Investimentos, os títulos atrelados à inflação continuam vantajosos não só no longo prazo, como também no médio prazo. A corretora ainda não recomenda aos clientes se posicionar em pós-fixados, pois acredita ser cedo ainda para estimar até quando caem os juros.

Para a XP ainda é possível obter ganhos com esses títulos, pois os efeitos da queda de juros em forma de alta na inflação ainda levarão de nove meses a um ano para aparecerem. “A partir da próxima reunião do Copom pode ser que seja possível definir melhor o cenário, mas achamos que os juros ainda podem cair um pouco mais”, diz Carvalho.

Mas, independentemente do que acontecer na economia, o especialista recomenda os papéis atrelados à inflação pela qualidade do ativo em si, que permite ao investidor manter seu poder de compra em qualquer cenário. “Neste momento, é melhor garantir o ganho real e não ter perda de patrimônio, principalmente no longo prazo”, diz Carvalho.