Investidor tem mais opções e menor custo em fundos de previdência privada

Movimento é motivado pelo aumento da concorrência com o crescimento das corretoras independentes

O aumento da concorrência com o crescimento das corretoras independentes está reduzindo os custos e ampliando as opções de previdência privada para os investidores. Banco como Itaú e Santander eliminaram recentemente as taxas de carregamento de suas carteiras e seguradoras e gestores independentes criaram opções de fundos com maior diversificação e custos mais baixos. E outras instituições estudam reduzir suas taxas também. Mesmo assim, a taxa de administração dessas carteiras continua alta para o varejo e é preciso pesquisar bem.

Um exemplo desse custo é a taxa de carregamento, que está sendo eliminada por algumas instituições. Ela é cobrada na aplicação dos recursos, e chega a 5% da contribuição. Assim, de cada R$ 100 aplicados, até R$ 5 vão para o banco, a título de cobrir despesas com a venda dos planos e custos de corretagem, e R$ 95 caem no fundo. Parte dessa comissão vai para o gerente, o que acaba criando situações de conflito de interesses. Além do carregamento, há ainda a taxa de administração, cobrada sobre todo o patrimônio do fundo, e que pode superar os 3% ao ano no varejo.

Maior interesse e portabilidade motivam novos gestores

Nos últimos três anos, anos, alguns gestores independentes começaram a se movimentar, buscando obter uma fatia do mercado de previdência privada, que cresceu em média 25% ao ano desde 2005, acumulando R$ 750 bilhões em reservas, afirma Bernardo Barboza, gerente de produtos Vida e Previdência da corretora Genial Investimentos. Com a flexibilização da legislação de previdência privada abrindo espaço para mais diversificação das carteiras, esses gestores se associaram a seguradoras para montar fundos de previdência diferenciados em ações e multimercados. “E, com a portabilidade, que permite ao investidor trocar o gestor quando quiser, muitos passaram a atrair recursos de outros bancos”, explica.

Barbosa esclarece que os bancos costumam pedir prazo de seis meses em geral para liberar a migração, mas o investidor pode trocar a qualquer momento. Segundo a Superintendência de Seguros Privados (Susep), a portabilidade é permitida a partir de 60 dias da aplicação.

Mas o movimento ainda está muito no começo. Hoje, 95% dos recursos de previdência privada estão concentrados nos grandes bancos de varejo. Por sua força de distribuição e sem uma política de oferecer fundos de outras instituições, os quatro maiores bancos de varejo concentram as aplicações em suas seguradoras. Agora, com a concorrência, essa situação cômoda para os grandes bancos começa a mudar.

Novas regras facilitam diversificação

Em dezembro, a Superintendência de Seguros Privados (Susep) facilitou a atuação dos gestores independentes em previdência. O regulador aumentou a parcela de ações desses fundos de até 49% para até 70% da carteira e criou um limite especial, de até 100% em renda variável, para os destinados a clientes qualificados, com mais de R$ 1 milhão de investimentos.

Permitiu ainda que 10% dos recursos sejam aplicados em ativos com variação cambial, que podem ser ou não no exterior, e que o resgate dos fundos de previdência pudesse ser feito em dez, e não em cinco dias, o que abriu espaço para aplicações em papéis menos líquidos. E autorizou também que os fundos de previdência pudessem cobrar taxa de performance sobre o que superasse a meta do gestor, aumentando o apetite dos independentes.

Grandes gestores lançam previdência

Ainda assim, a parcela dos independentes hoje ainda é pequena, em cerca de R$ 36 bilhões, mas tem espaço para crescer, explica Barboza. Entraram nesse mercado grandes gestoras independentes como a Verde, de Luís Stuhlberger, a Ibiúna, a Garde, a SPX, a Adams, o BTG Pactual, e outras. Segundo Barboza, a Genial tem hoje mais de 30 gestores de previdência em sua prateleira.

Oferta feita de maneira incorreta ao varejo

Um dos motivos do sucesso das corretoras independentes é a forma como a oferta é feita, diz Marcelo Mello, vice-presidente de Investimentos da SulAmérica Investimentos. Para ele, a venda da previdência privada ainda é feita de forma incorreta no varejo dos grandes bancos. Já os independentes têm um cuidado maior, o que explica o menor percentual de fundos PGBL, destinados a assalariados, do que os VGBLs, destinados a quem não faz a declaração completa do imposto de renda, e que deveriam ser a maioria. Nos independentes, os PGBLs representam cerca de 60% das vendas, mas chegam a 90% nos bancos de varejo. “E, com os juros abaixo de 10%, qualquer ganho adicional, seja de taxa de carregamento, tributação ou taxa de administração já faz diferença no longo prazo”, afirma Mello.

SulAmerica estuda retirar carregamento

Segundo ele, a SulAmérica está reduzindo os valores de aplicação inicial e estuda retirar a taxa de carregamento dos fundos de previdência também, para capturar parte desses recursos que estão saindo dos grandes bancos. Este ano, porém, a captação de previdência está menor que em 2017. “O cliente deixa para sacar a previdência por último, mas acaba resgatando”, afirma.

Genial quer quadruplicar captação em previdência

Também as corretoras passaram a olhar a previdência privada como opção interessante para o investidor e para suas receitas. Além disso, como se trata de uma aplicação de longo prazo, a previdência privada acaba por fidelizar o cliente. “Estamos investindo bastante na parte de tecnologia para levar para o cliente planos de previdência de uma maneira mais amigável, sem nada de papel na contratação”, afirma Barboza. Segundo ele, a Genial lançou uma plataforma de previdência privada há um mês e já conseguiu captar o equivalente a 20% do que já tinha em reservas.

A meta é captar quatro vezes mais que no ano passado, diz Barboza. “O investidor começa a prestar atenção nas taxas, como as de carregamento”, diz, explicando que a corretora atua com quatro seguradoras que não cobram mais taxas de carregamento de entrada ou de saída. O próximo passo da corretora é oferecer seguros de vida para o investidor, como parte de um planejamento financeiro completo.

Maioria dos investidores vem de outros bancos

Segundo Barboza, 80% da captação de previdência da Genial vem de portabilidade, ou seja, aplicações de outros bancos que o investidor transferiu para a corretora. “Muitos investidores não sabem que podem montar um portfolio de previdência, com vários gestores, de maior ou menor risco, e sem pagar imposto na transferência”, explica.

A tendência desse movimento é também estimular a diversificação, avalia Barbosa. Segundo ele, no mercado de previdência em geral, 92% dos recursos estão em fundos de renda fixa. Na seguradora Icatu, esse percentual cai para 65% e, na Genial, o perfil é o inverso: são 35% em renda fixa e 65% em multimercados.

Grandes fundos de previdência têm baixa rentabilidade

E não é só pela diversificação que os investidores estão mudando dos grandes bancos. Mesmo na renda fixa, a rentabilidade deixa a desejar, afirma Barboza. Segundo ele, os cinco maiores fundos de previdência do mercado rendem abaixo do CDI em um, dois ou três anos encerrados em junho deste ano. “E sem contar a taxa de carregamento, uma taxa que o cliente não percebe e não faz sentido”, diz. Para ele, o mercado está se ajustando. “Os fundos de seguradoras e gestores independentes começam a entregar mais e o mercado fica menos concentrado, o que é melhor para o investidor.”

Reforma da Previdência desperta o investidor

A discussão sobre a reforma da Previdência nos últimos dois anos levou a um crescimento grande da previdência privada, afirma Pier Mattei, sócio-fundador da empresa de agentes autônomos Monte Bravo. Mesmo no período eleitoral, todos os candidatos falam da reforma, e o tema voltou com força para o dia a dia dos investidores. Segundo ele, o mercado está em um processo de desenvolvimento acelerado, com as seguradoras se estruturando melhor e incluindo em suas carteiras fundos de outros gestores. “Agora a plataforma das seguradoras é aberta”, diz. Mattei lembra que, apesar de ser um veículo de investimento de longo prazo, a previdência privada precisa acompanhar as mudanças de cenário da economia e da vida do investidor.

Maior competição beneficia poupador

Ao mesmo tempo, a competitividade na previdência privada está aumentando, e quem ganha com isso é o investidor. “Um exemplo é o do Santander e de outras instituições que estão isentando as taxas de entrada e saída”, lembra. A arquitetura aberta permite também que uma seguradora tenha vários gestores e tipos de estratégia, oferecendo mais alternativas de qualidade para o poupador, que não precisa trocar de seguradora. “E o investidor começa a compreender que a segurança da previdência privada não está na seguradora, mas nos ativos em que os fundos aplicam os recursos, e isso dá mais segurança para migrar de uma casa para outra, avaliando o desempenho do gestor e os custos de carregamento e taxa de administração”, afirma Mattei.

Diversificação também em previdência

Esse processo deve levar o investidor de previdência a também diversificar sua carteira, afirma o sócio da Monte Bravo. Hoje, os investidores já têm seus recursos de curto prazo espalhados em diversas estratégias, mas a previdência ainda fica em geral em um único fundo com uma só opção, quase sempre de renda fixa. “O esforço agora é incentivar diversificação de estratégias também em previdência, seja na própria renda fixa ou em outras classes de ativos, como multimercados ou bolsa, que fazem sentido no longo prazo”, explica.

Volume aplicado quadruplicou

No caso da Monte Bravo, o estoque em previdência privada quadruplicou em 12 meses, afirma Mattei, ganhando espaço na alocação geral dos clientes. Segundo ele, a carteira de previdência subiu de R$ 50 milhões há um ano para R$ 200 milhões, ou 8% dos ativos totais da casa, de R$ 2,5 bilhões.

Fundos fechados podem ir para previdência

E há ainda outro fator que deve levar mais dinheiro para a previdência: o início da cobrança de come-cotas nos fundos fechados, que tende a ser aprovada no Congresso. Com isso, a única opção sem a cobrança de imposto antecipada será a previdência.

Mattei diz que a previdência privada no Brasil ainda é complicada, com diferentes tipos de tributação e planos e custos. Ele dá o exemplo da taxa de carregamento, que não é cobrada somente na aplicação, mas em alguns casos no resgate também, o que exige maior atenção do investidor. “Se sacar antes de determinado período, pode pagar uma taxa, já que algumas seguradoras isentaram a cobrança na entrada, mas não na saída”, diz. Outras têm critérios específicos, como isenção apenas para valores maiores.

Maioria das aplicações em renda fixa

A maioria dos investimentos em previdência privada na Monte Bravo ainda é em renda fixa, afirma Mattei. Mas a empresa busca incentivar os investidores a diversificarem. “Um recurso de previdência privada deve ter uma estratégia de longo prazo, pode correr mais riscos pois tem o tempo a favor, portanto não faz sentido ser 100% conservador”, diz. “Mas o que vemos é que as pessoas deixam o dinheiro da previdência, que poderia correr mais risco, no juro pós-fixado, enquanto as outras aplicações de menor prazo estão em coisas mais arriscadas, como bolsa ou multimercados”, diz. Para ele, o brasileiro precisa de uma mudança de mentalidade, como em outros países, em que o recurso previdenciário tem associação maior com risco e renda variável. “Hoje, o brasileiro quer ser arrojado em aplicações de um ou dois anos e conservador para 10, 15 anos”, diz.

Para ele, aos poucos as pessoas começam a entender também que não precisam estar em um grande banco para ter segurança na aplicação. E isso permite ao investidor buscar melhores opções para seu dinheiro. “Nos Estados Unidos, em média, os poupadores trocam seus gestores ou seguradoras de planos de previdência 12 vezes antes de começar a receber o benefício”, diz Mattei.

Investidor deve avaliar condições do fundo

Antes de migrar seu fundo de previdência, convém o investidor avaliar as condições do plano, que pode prever vantagens no caso de transformação do patrimônio em renda no vencimento. Planos antigos têm tábuas atuariais que estimam menor tempo de vida após a aposentadoria, e portanto pagam valores maiores para o investidor. Mas poucos investidores transformam seus planos em benefício. A maioria os usa como fundos de acumulação e resgatam os valores gradualmente após a aposentadoria. Nesse caso, reduzir custos e aumentar a rentabilidade são ainda mais importantes.