Gustavo Borges conta como se aposentou aos 31 anos

Para quem acha difícil se organizar para aposentar aos 60, ex-atleta mostra que é possível se preparar para o fim de um ciclo com muito menos tempo

São Paulo – Planejamento é a palavra de ordem para que, após o término da carreira, se aproveite a vida de maneira saudável e despreocupada. Estar aposentado significa, para muitos, o momento no qual fazer nada ou fazer apenas o que se tem vontade são as únicas regras. E para conseguir se manter financeiramente estável durante esta fase, organização é fundamental.

É preciso investir, com o máximo de antecedência possível, em planos de previdência ou economizar para garantir uma boa renda mensal sem correr o risco de esgotar as reservas ou ter de baixar o padrão de vida (Saiba como é possível organizar as finanças para aproveitar a aposentadoria). Projetar cenários realistas de aposentadoria, pensar em objetivos que ainda se quer atingir ou mesmo considerar encarar novos desafios profissionais na terceira idade (Clique aqui e conheça quem já se aposentou mas continua a trabalhar) são algumas das possibilidades que devem ser avaliadas.

A lista de coisas a serem consideradas e pesadas, ao longo da vida economicamente ativa, é longa, mas, no caso dos profissionais convencionais, o tempo está sempre a favor. Para que uma pessoa se aposente, são necessárias décadas de trabalho, o que garante um prazo esticado para o planejamento. Agora imagine ter de pensar em tudo isso antes dos 30 anos de idade, como é o caso de alguns atletas ou modelos, por exemplo. São profissões nas quais indivíduos que há pouco tempo atingiram a maturidade já são obrigados a pensar no que fazer após o término da carreira.

O nadador Gustavo Borges sabe bem como ter um bom plano de aposentadoria pode ajudar, e muito. Medalhista olímpico e recordista mundial de natação por quatro vezes, Gustavo também é o brasileiro com o maior número de medalhas em Jogos Pan Americanos, subiu ao pódio um total de 19 vezes, em quatro edições do evento.

Treinou, como atleta de elite da natação brasileira, durante vários anos até se aposentar, em 2004, na época com apenas 31 anos de idade. “No começo eu achava que 27 seria uma ótima idade para parar”, diz. Sua aposta foi investir em uma boa formação acadêmica, em paralelo a sua atuação no esporte. Hoje em dia, além de ex-atleta de sucesso e empreendedor, Gustavo é formado em Economia.

Independente da estratégia adotada na hora de parar com o esporte, nada torna o momento de se aposentar menos delicado. “O ato de parar traz um sentimento de perda muito intenso. Afinal, há anos aquele esporte faz parte da sua vida”, diz. E é por isso que ter em mente um “plano de transição”, como denomina o ex-atleta, é essencial para trazer, além do conforto financeiro, o alento de ter outra atividade com a qual possa se envolver. “O que considero mais importante é ter uma clara perspectiva do que você quer ser no futuro”, diz.


Independente da profissão, a hora de se aposentar não deixa de ser o fechamento de um ciclo, tanto para quem decide parar em definitivo quanto para aqueles que preferem continuar na ativa, mas optam por mudar as direções da carreira. Fato é que se preparar para as mudanças que aparecem ao longo da trajetória profissional de cada indivíduo exige o alinhamento entre expectativas e objetivos de vida. E aí, quanto mais cedo se começa a pensar no assunto, mais preparado estará a pessoa na hora de tomar uma decisão.

“Quem tem a oportunidade de se preparar para a transição profissional mais cedo estará melhor. Essa atitude poderá ajudar, e muito, na hora de se aposentar”, aconselha Borges. O ideal é que a pessoa saiba o que quer fazer e como irá realizar os novos objetivos e desafios que ainda estão por surgir. “Temos que nos acostumar com os ciclos. Quando um acaba, outro começa”, explica.

E no caso do ex-nadador, o caminho mais natural, depois de uma carreira bem sucedida nas piscinas foi o do empreendedorismo. A natação, esporte individual, dava a Gustavo a liberdade de treinar sozinho. Isso lhe permitia ter horários flexíveis para o treinamento enquanto organizava os próximos passos a serem dados.

Ainda enquanto competia, Gustavo inaugurou duas academias de natação, uma em São Paulo e outra em Curitiba. Essa estratégia exigiu muito jogo de cintura para conciliar a rotina de atleta com a de empreendedor. “Quando decidi continuar no esporte e abrir o meu negócio, sabia exatamente o preço que teria que pagar. E sabia o quanto isso poderia afetar a minha performance”, conta.

Mas ele optou por seguir em frente como forma de alcançar alguns objetivos importantes para sua trajetória como atleta, entre eles o de aumentar o número de medalhas e encerrar a carreira com outro “palco olímpico”. “Alinhei minhas expectativas aos meus objetivos, assim evitei frustrações”, simplifica.


Pós-Aposentadoria

Depois de encerrar o ciclo como atleta de elite, começou-se, então, uma nova fase profissional para Gustavo no setor do empreendedorismo. Ele considera ter passado por dois importantes períodos de transição, um da pré-aposentadoria, entre 2000 e 2004, no qual colocou em prática o sonho de montar seu próprio negócio e ainda continuar a fazer parte da elite da natação mundial, e outro, no pós-aposentadoria, que foi de 2004 a 2008.

“Nesse segundo momento, eu me enraizei de fato no negócio da gestão e os processos que envolvem ser um empreendedor”, explica Gustavo, que atualmente é dono de cinco academias de esporte, além de ter desenvolvido métodos para o ensino de natação que já contam com mais de 150 credenciados em todo o país. O nadador ainda divide seu tempo em trabalhos como comentarista esportivo na televisão e em palestras motivacionais.

Aposentar-se de vez

As conquistas dentro e fora da piscina deram a Gustavo e sua família uma vida confortável. Mas, segundo ele, isso foi possível por uma associação de fatores, como sociedades bem-sucedidas e escolha de negócios lucrativos.

“Às vezes o trabalho confunde-se com a diversão. Então nunca sei se estou trabalhando ou me divertindo”, diz o ex-atleta quando perguntado se, algum dia, irá parar de trabalhar. Ele admite, no entanto, que já pensa poupança e educação dos filhos quando chegar a hora da verdadeira aposentadoria.

“Existe o ciclo do atleta, dos filhos, da aposentadoria, mas todos eles terminam. Meu conselho para quem vai passar ou está passando por essa fase é que mudar de ciclo não é tão difícil quanto parece, especialmente quando se tem amor pelo que se faz”, diz o medalhista olímpico e empreendedor.