É possível comprar amor?

Dentre meus 5432 defeitos, o favorito é ouvir a conversa de quem não conheço e, muitas vezes, nem vejo. Sou mestra em acompanhar conversas três mesas adiante. Sigo o assunto sem perder o fio, torço, acho um desaforo, mordo a língua para não dar palpite. Não bastasse pecar contra as boas maneiras, ainda me valho de várias dessas histórias como inspiração para meu trabalho. Como a que aconteceu há alguns meses, quando me preparava para deixar um hotel no interior de Minas.

Quando o jovem recepcionista desligou o telefone, pelo despudor do sorriso se adivinhava que eram ótimas notícias. Num transe gritou para o colega no final do balcão: “Eu vou ser pai!”. O outro, seguido às rápidas congratulações, emendou:” Como presente, vou te dar o conselho mais importante para a sua vida de pai.” (Nesse ponto – a carne é fraca – larguei caneta e papel e parei de fingir que não estava lá). “Compre outra TV! Ou você faz isso ou nunca mais vai assistir o que quiser. Só o que eles quiserem.”

Muito embora possa compreender a aflição do conselheiro por alguma paz nas horas de repouso – sem disputas pelo controle remoto ou programação – acho improvável que com outra televisão em casa ele imponha sossego à convivência familiar. Pelo menos, não no médio e longo prazo. Essa convicção faz com que há anos eu convide os pais em minhas palestras a exercitarem a arte-zen de manter, justamente, uma única TV em casa. E que façam isso não “apesar” dos filhos. Mas por causa deles. Em benefício da prole.

Está claro que as crianças não possuem maturidade e discernimento para duelarem com o vigor publicitário. Se não há um adulto por perto – ao lado – a provocar sobre os usos e abusos de tudo quanto é posto à venda nos intervalos ou durante os programas (“Será que fulaninho usa mesmo esse tênis ou ele só quer que a gente acredite nisso?”), não há como imaginar que elas possam ser capazes de filtrar sozinhas, no abandono da “outra” TV, o que convém e o que não convém ao consumo infantil.

O fato é que as crianças brasileiras são as que passam mais tempo diante da televisão no mundo, seguidas pelas americanas, segundo com pesquisa da Eurodata TV Worldwide, divulgada no final de 2005 na França. Enquanto uma criança brasileira permanece 3 horas e 31 minutos por dia diante da televisão, as alemãs não ficam mais que uma hora e meia. E observe que na Alemanha 95% das casas possui acesso a TV a cabo e contam com ampla oferta de canais gratuitos. E lá, como aqui, a maioria dos pais e mães trabalham fora de casa. O que tira do ar, de vez, a idéia de que seja imprescindível contar com a babá eletrônica como sócia na educação das crias, a fim de mitigar os efeitos da dupla jornada.

O deslavado incentivo ao consumo infantil é apenas a ponta da minha preocupação nesse assunto. Durante o ano passado, o pediatra americano Isman Sharif, do Hospital de Crianças de Nova Iorque, avaliou em 4500 estudantes a influência do tempo gasto por eles assistindo à televisão ou jogando videogame sobre a vida escolar. Os resultados são alarmantes. O estudo demonstrou que as crianças que viam mais programas de televisão tinham pronunciada queda de desempenho, resultado de intensa dificuldade em compreender os conteúdos curriculares. Ou seja, o acesso indiscriminado à televisão mina aos poucos a confiança das crianças em sua capacidade intelectual, condição fundamental para que cresçam motivadas a conhecer e conquistar o melhor da vida e do mundo.

Há ainda um terceiro aspecto na relação crianças e televisão que considero importante abordar: o acesso a programas destinados a adultos, de modo especial as novelas – não importa em que horário sejam exibidas – e seu efeito sobre o modo como os pequenos vão construindo uma visão distorcida do poder do dinheiro. Em função do trabalho como educadora, volta e meia esbarro nas impressões que pulam das novelas para o cotidiano infantil. Mas talvez a situação mais emblemática tenha sido a discussão que assisti, há cerca de dois anos, numa turma de pré-escola, na cidade do Rio de Janeiro.

Com a intenção de provocar a distinção entre consumo e valores, a professora pedia à classe que listasse o que se pode e o que não se pode comprar com dinheiro. A cena corria de acordo com o desejado, até que entrou em pauta o amor. É possível comprar amor? E foi então que uma das meninas saiu com a seguinte afirmação: “Claro que dá para comprar amor! É só botar uns peitões de silicone e arranjar um cara bem rico. E aí deixar que ele compre o amor da gente”. Cínica? Nem um pouco. Só uma noveleira de seis anos. Seis anos!

É possível disciplinar a convivência das crianças com a TV de muitas maneiras. Mas hoje vou insistir no básico: a família deve assistir à televisão junta, num único aparelho. Sem paz, é provável, mas também sem alienação. É importante aprender a negociar a programação, de modo que todos se interem das predileções de cada um. Afinal, se você não é capaz de suportar os interesses de seus filhos, não há razão para esperar que eles venham a se importar, nem agora nem nunca, com os seus.

*Cássia D’Aquino é especialista em educação financeira e membro da International Association for Citizenship, Social and Economics Education (IACSEE). www.educacaofinanceira.com.br